Diário de Bordo IV

Márcio Torres relata mais um diário de bordo da Expedição Lemurian


Já era esperado uma navegação difícil, no contra-vento, mas a mesma se tornou ainda mais difícil quando o pico do vento nordeste subiu entre 15 e 20 nós durante os dois dias de navegação.

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O objetivo era chegar em Itapuã após dois dias de navegação. Desde março, quando realizei a expedição de circunavegação da ilha de Tinharé, o LEMURIAN – I estava no Hotel Portaló no Morro de São Paulo aguardando eu buscá-lo.




Veio um inverno rigoroso e com ele pouco tempo livre pra navegação. Com a chegada da primavera consegui dois dias e primeiro pensei em trazê-lo de catamarã, mas depois a vontade de remar era tão grande... Por que não trazê-lo remando?




Estudei os mapas meteorológicos e percebi que seria uma jornada difícil. O vento nordeste já soprava com força e regularidade, anunciando um verão antecipado, sol forte, ondas pequenas e muito vento. Quem navega sabe que o vento nordeste é implacável, navegar contra ele velejando é sempre muito duro, imaginem remando?




Quando decidi ir ao Rio de Janeiro remando sabia que precisaria treinar, muito, fazer diversos percursos nas mais diferentes condições de tempo e mar, por isso eu e meu parceiro Hamílton Souza fizemos a expedição do Morro de São Paulo pra Porto Seguro no mês de abril do ano passado, queríamos o vento sul na cara, além de experimentar uma navegação em mar grosso de inverno, com os riscos e dificuldades dessa estação. Foi uma grande experiência, onde aprendemos muito. Em 2013 demos uma volta na Baía de Todos os Santos e fomos até Maragogipe.




No retorno remamos 30 milhas (aproximadamente 60 km) entre Maragogipe e o Mercado Modelo em Salvador, em pleno mês de agosto, com vento leste soprando com toda força e em alguns momentos sentimos na pele o que é remar contra rajadas de 25 nós.




Então, dando sequência nas experiências e aprendizado, decidi que faria o retorno do LEMURIAN – I com o vento contra, projetei a chegada em Itapuã com condições favoráveis, ou seja, vento fraco a moderado. Mas a história não foi bem assim.




Cheguei ao hotel Portaló no dia 3, à noite, rapidamente fiz as compras no mercado e fui visitar meu amigo nativo Odinei e sua linda família. Bate-papo rápido, porém intenso, combinamos de curtir com as famílias um passeio de circunavegação da ilha de Tinharé após o próximo carnaval em sua lancha. Odinei é surfista e marinheiro, trabalha levando turistas em passeios pela ilha de Tinharé e também para a ilha de Boipeba. E com essa ideia fixa na mente, parti pra organizar os víveres no caiaque e descansar para o dia seguinte.




Dormi muito bem numa linda suíte com vista pro mar, um bangalô no alto do morro e dentro da Mata Atlântica. Sono de luxo pra um remador acostumado a acampamentos rústicos em praias desertas. Despertei atrasado as 06:30h e rapidamente organizei tudo e com a ajuda de um funcionário do hotel parti às 7 horas para a Ponta do Curral. O mar estava de almirante, lisinho e prateado, o vento estava dormindo e precisava aproveitar essa condição ao máximo.




Atravessei o canal de Taperoá e já na Ponta do Curral iniciei minha peregrinação costeira. Logo dois golfinhos vieram curiosos me visitar. Observaram-me três vezes antes de sumirem no mar. Essa espécie não é como o “Rotador” que se aproxima das embarcações e faz a alegria dos visitantes. Eles são mais arredios e evitam o contato muito próximo com embarcações. Minha vantagem era que estava movido a remo, fazia pouco barulho e assim se aproximaram mais e pude me maravilhar com vossa presença.




Remava curtindo cada centímetro de praia, um trecho em especial onde a mata atlântica entocada chega quase que até a areia da praia, um pedaço de paraíso perdido na costa do Dendê. Deu vontade de parar e armar camping, mas meu objetivo era outro e tinha que seguir adiante.




Ao passar no Guaibim encostei na linha de arrebentação das ondas pra ver se encontrava algum amigo surfando. Nessa praia aprendi, ainda criança, as coisas do mar. Lá surfei minhas primeiras ondas, dentre tantos outros acontecimentos muito importantes na minha vida. De repente ouvi um grito:

 "Torres!".



Era saidinho que surfava de peito, acenei e logo ele desceu numa onda e não o vi mais. Pouco mais adiante avistei meu grande amigo Borges. O mesmo veio até mim e felizes pelo encontro nos cumprimentamos. Uma pena eu ter esquecido de registrar esse momento com imagens. Falamos um pouco sobre minha navegação, mandei beijos para minha amiga Giza, sua irmã, nos despedimos e segui adiante.




Minutos após o nordeste soprou com força, de zero pra 15 nós, um vento constante, de uma regularidade que me incomodou bastante. Não havia trégua, nem intervalo, foi quando me consolei e percebi que era preciso seguir e enfrentar o destino. Remei muito forte por três horas, sentindo a coluna, ombros, joelho, virilha e quase todos os principais músculos do corpo. Não estava bem fisicamente, desde março sem remar, sem treinar na academia, nem mesmo corridinhas na praia.




Em situações assim não tem como se esconder, o corpo sente e o que sucedeu foi a força da mente superando os limites do físico. Um grupo de golfinhos apareceu e navegou comigo por alguns segundos, bem próximos, talvez uns 15 metros de distância do LEMURIAN – I.

Um alento em meio a tanto esforço e sofrimento. Decidi parar numa ponta de praia linda, já no Garcez, onde coqueiros se debruçam sobre uma areia repleta de restos de vegetais, uma praia intocada, selvagem e pouco visitada. Descansei, comi, alonguei, mas percebi que a musculatura não aguentaria muito.




Voltei ao mar e sofri por mais duas horas até aportar na última parte da praia do Garcez, dois quilômetros antes da famosa Ponta do Garcez que divisa com Caixa-Pregos na Ilha de Itaparica.

Uma praia de ondas fortes e de tombo, mesmo com o mar pequeno tive uma certa dificuldade pra sair.


Avistei de longe três casinhas e lembrei que em 2005, quando caminhei por ali, fiquei amigo de um casal que tomava conta da fazenda. Dessa vez conheci três trabalhadores, mas antes de escurecer os mesmos foram embora, me deixando sozinho naquele pedaço de paraíso.




Aproveitei da estrutura do pequeno vilarejo fantasma, onde havia uma recém-construída casinha de taipa e uma mesa de madeira e curti o final de tarde, pensando e agradecendo a Deus pela vida, pela saúde e principalmente pela oportunidade de aprender a ser uma pessoa melhor a cada dia. Um momento de contemplação, de paz e de silêncio.




Armei a barraca pouco antes do entardecer e fui pra dentro dela a fim de fugir do garantido ataque das “mutucas”. São como moscas que picam forte e insistentemente, elas saem pra comer sempre na aurora e no crepúsculo. E a noite veio, escura, as estrelas brilhavam cintilantes e sai pra caminhar na praia e aproveitar aquele momento. Era o primeiro dia de Lua Nova, portanto quase luz nenhuma no céu e com uma pequena lanterna mirando para a areia, iluminava meu caminho.

O vento a esta altura passava dos dezoito nós e sentado na praia olhando pro mar me extasiei com seu uivo e com o chacoalhar dos coqueiros.Voltei pra barraca e pude ler dezenas de mensagens escritas por amigos e familiares, emocionante!

Recebi a ligação de Hamiltinho e conversamos sobre a navegação do dia, os planos pro dia seguinte e promessas de expedições onde estaremos novamente juntos a remar por essas praias baianas antes da viagem ao Rio de Janeiro. Ele ainda se recupera de uma lesão no joelho e por isso tenho remado sozinho.




Acordei algumas vezes na madrugada, mas agradeci a mim mesmo pela maravilhosa ideia de levar meu travesseiro da “NASA”. Pra onde eu for o levarei comigo! Que sono maravilhoso, acho que nunca dormi tão bem numa barraca! Foi tão bom que acordei atrasado mais uma vez, às 4:40h, a aurora logo se faria presente. Sai pra desmontar camping e fui acometido por dezenas de mutucas.




Que cena, pelado na praia, pulando e correndo das mutucas pra tentar vestir a calça de lycra, ri de mim mesmo, gargalhava gritando de dor a cada picada e de maneira recorde, desmontei tudo, comi rapidamente e às 05h em ponto varei a forte arrebentação de ondas, me coçando todo dentro do caiaque.




Milagrosamente o vento havia parado, o orvalho da madrugada, a barraca de camping acordou toda molhada e precisava aproveitar esse pequeno momento sem vento, sabia ele não demoraria a chegar. Passei ao largo da ponta do Garcez e remei forte por dentro da barra, em meio a muitas ondas que vinham de todos os lados e chacoalhavam perigosamente o LEMURIAN – I.




Um verdadeiro balé, tudo o que não queria era capotar ali, no meio da boca da barra, na hora que os tubarões comem, um medo me assombrou e dissipei os pensamentos ruins com orações e chamadas de guarnição.

Aquela barra é pesada, mesmo com ondas pequenas. Correntes fortes e uma condição que assusta mesmo, principalmente quando se está sozinho a esta hora da manhã.


 Quando contornei uma ponta de praia em Caixa Pregos (Ilha de Itaparica) tomei a porrada. O nordeste veio com força, devia passar dos dezoito nós e sem intervalo. Aproximei-me ainda mais da praia, devia estar remando a cinquenta metros da terra, bem pertinho mesmo, tentando fugir do vento. O resultado deu certo, barrei uns trinta por cento da ação do vento, mas em contra partida remaria bem mais.

A essa altura, sabia que meu corpo não aguentaria remar naquelas condições até umas quatro da tarde, sendo assim desisti de tentar chegar em Itapuã. O objetivo a essa altura era o Porto da Barra.


E quando cheguei em Barra Grande (Ilha de Itaparica) parei e telefonei pra minha amiga Danidani, avisei que faria uma diagonal atravessando a boca da Baía de Todos os Santos até o Porto da Barra. Sabia ser importante que alguém soubesse onde eu estava, no caso de algum sinistro.

E iniciei a travessia, quando alguns minutos depois o vento rasgou com mais força ainda, as condições eram quase impossíveis pra navegação à remo. Sentia que o vento me lançava pra fora da baía rumo ao Banco de Santo Antônio e sabia que mais à frente a corrente e o vento poderiam ser ainda mais fortes.


 Estava a cinco quilômetros da ilha de Itaparica e distava oito quilômetros do Porto da Barra quando abortei a missão e entrei na Baía costeando as praias da ilha de Itaparica.

De onde eu estava, a distância para Mar Grande em Itaparica era quase a mesma do Porto da Barra. Foi difícil voltar atrás, uma voz me mandava seguir adiante, enfrentar, dizia que eu já havia realizado feitos mais difíceis, o que era bem verdade, mas preferi escutar a voz da humildade que me falava sobre a calma, sobre a paz, a prudência e que me dizia que o mais importante eu tinha conquistado, o direito de estar ali, aprendendo com a natureza e vivendo o que me propunha a viver.



“Fantástico! Bora, Torres. Rema pra Itaparica, vamos curtir aquela linda costa de águas cristalinas”.


E assim segui para a Penha, uma ponta de praia onde uma Igrejinha dá nome ao local. No caminho encontrei três mergulhadores num barco, bem legal, estava muito cansado e me deram algumas dicas importantes. Fiz muitas imagens lindas, fui presenteado com as águas mais cristalinas de toda a viagem e logo estava com o LEMURIAN – I no barco que atravessa passageiros entre Mar Grande e Salvador.


Agradecimento especial ao Hotel Portaló, em Morro de São Paulo, grande incentivador da Lemurian Expedition. Quero agradecer também à Hardsport, que se tornou o nosso principal patrocinador; aos demais co-patrocinadores: Eclipse Caiaques, Tenerife, Harpia Imagens Aéreas e Lemurian; ao apoio da Kortatu, Exata, Gênesis Filmes, Engenharia De Pesca Ufal – Penedo-Al, Centro Náutico Flotilha Mutá, All Boards, Aroeira Outdoor, Kaleopapa, Randernet, Anderson Tribal, Dois Irmãos, Tedy Photographer, Up Fitnnes e SurfBahia. Sem vocês esse projeto não seria possível. E a todos os amigos e familiares que têm acompanhado nossas expedições, nos enviando mensagens positivas de força e fé!

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