Barra Grande - Itacaré

Márcio Torres relata o quinto capítulo de sua travessia entre Morro de São Paulo e Porto Seguro


Foi uma noite mal dormida, as muriçocas invadiram nosso quarto, que sem ar-condicionado e sem ventilador em função da rinite de Hamiltinho, se transformou num oásis de sangue e zumbidos.

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Levantamos cedinho, preparamos todo o material, comemos o café matinal e seguimos carregando os dois caiaques pelas ruelas de areia de Barra Grande.

Já na praia, viramos atrativo para a comunidade. Estranhavam nossas embarcações e se aglomeravam curiosos nos perguntando sobre os barcos e o que estávamos fazendo e para onde íamos. E quando respondemos que viajávamos até Porto Seguro daquela maneira, expressões de surpresa, espanto e incredulidade causavam muito riso e furor.

Não demorou muito, finalizamos a organização dos equipamentos nos caiaques, nos despedimos de todos e entramos no mar calmo e cristalino da Baía de Camamu.

Tentaríamos remar aproximadamente 50 quilômetros até Itacaré, uma longa e cansativa viagem.

Remar num caiaque oceânico só é agradável nas duas primeiras horas, da terceira a quarta é necessário mudar a posição das pernas, da coluna e da postura como um todo, pois as dores se tornam frequentes em todo o corpo. Os calcanhares machucam em atrito com o casco de fibra, as virilhas, os joelhos e a lombar são castigados, sem falar da musculatura dos braços e ombros. A partir da quinta hora, o tempo de mudança da posição vai diminuindo e as dores aumentando substancialmente.

Quanto mais tempo no caiaque, mais dores, tornando a viagem desgastante e perigosa. É muito importante um bom planejamento, uma boa navegação, pois se após dez horas de remada e o corpo muito desgastado ainda tiver que enfrentar uma arrebentação de ondas grandes, o risco de afogamento se torna iminente. Em momentos assim o corpo já não responde bem, o reflexo e a força diminuem, sem contar com os possíveis apagões, desmaios, após o desgaste extremo.
Pensando em tudo isso sabíamos que era necessário remar forte pra diminuir o tempo de permanência nos caiaques, minimizando o desgaste extremo.

Partimos de Barra Grande às 06:30h e suavemente ganhamos os primeiros quilômetros. Passamos pela linda Ponta do Mutá com suas curvas, coqueiros e bancada de coral. Esta última dourava ao sol com a permissão da maré baixa.

O mar estava gelatinoso, muito liso e verde, observava Hamiltinho remando e via claramente sua proa cortando as águas e formando linhas de pequeninas ondulações simétricas que se dissipavam longamente.

E assim permaneceu por todo o percurso, cristalino, liso, nos convidando a cada braçada ao nosso destino. Um dia muito feliz, o sol ardia sem pena e o céu azul brindava nossa passagem. A cada curva, ponta de praia, brincava de identificar os lugares e ia explicando e mostrando a Hamiltinho a geografia fantástica da Penísula de Maraú.

Ao passarmos pela bela Taipús de Fora, eleita muitas vezes entre as dez praias mais bonitas do Brasil, fizemos questão de produzir muitas imagens. Era possível ver o fundo e o desenho dos corais, tantos peixes, tantas cores, remávamos acima de um lindo aquário e a sensação era de imensa liberdade. Algumas vezes me emocionei sozinho e agradeci a Deus pela existência e tamanha beleza.

Foi a última parada divertida da viagem, dali pra frente puxei um ritmo intenso, um dos mais fortes de toda a viagem até Porto Seguro. Gritava brados de motivação pra Hamiltinho que acelerou também seu ritmo e me acompanhou lado a lado. Remadas longas, fortes e ritmadas nos levariam diretamente a uma prainha pouco antes do Rio de Contas.

Já passava das treze horas e após tantas e longas praias remadas, decidimos aportar numa prainha onde as ondas estavam menores, possuía uma curva mais acentuada e assim barrava as maiores ondulações que chegavam a um metro de face. Paramos a dez metros um do outro, deixamos as maiores ondas passarem e num pequeno intervalo entre elas remamos com toda força para a praia. Foi uma arrebentação curta e conseguimos chegar à terra firme sem tomar nenhuma onda nas costas.

Lembrei que foi pertinho dali que parei com meus companheiros Perdigão e Rafael numa caminhada que fizemos entre Boipeba e Itacaré sete anos antes. Ótima recordação! A praia era selvagem, sua água bem marrom por influência do riozinho que desembocava nela, além do grande e largo rio de Contas que desaguava no mar poucos quilômetros adiante. Tomamos um banho meio sinistro, confesso que fiquei muito ligado em tubarões, pois sei que toda essa região tem muitos exemplares desse grande e voraz predador.

Não demoramos nem um minuto no mar e nem precisamos conversar sobre o assunto, o medo estava estampado nas nossas faces. Já surfei mares grandes em saídas de rios e num deles, em Barra do Jacuípe, litoral norte de Salvador, pude ver um tubarão de mais de dois metros cortando uma onda da série. Saí do mar assustado e desse dia em diante passei a estudar mais o assunto e conhecer um pouco sobre os hábitos desses animais, assim como a respeitar seu habitat natural.

Depois de um lanche, preparamos os barcos e “tartarugando” iniciamos a peregrinação pra entrar no mar e varar a pequena, mas forte arrebentação de ondas. Foi uma entrada dura, muitas vezes tivemos que sair dos caiaques e nos reposicionar para entrar remando. É que as ondas quebravam com força e suas espumas adentravam na areia desviando a posição dos nossos caiaques, que lateralmente já não conseguiam adentrar ao mar.

Numa dessas tentativas vacilei e enfiei um dos meus remos na areia quebrando uma das pás. Ouvi um “crack” e pensei comigo mesmo, “agora lascou”. Fui impaciente para a areia e Hamiltinho veio ver o que havia acontecido. A pá rachou e amoleceu, mas somente para o lado oposto ao atrito da remada. Pensei que se remasse de maneira suave para o lado em que estava o problema, talvez conseguisse chegar em Itacaré, onde poderíamos consertar o remo com uma das peças sobressalentes que levávamos.

Após muitas tentativas, Hamiltinho conseguiu entrar no mar e ainda viu umas duas entradas frustradas do Lemurian – I. Até que enfim consegui ganhar uma certa velocidade na beirinha e varei a arrebentação de ondas furando-as com a proa do meu forte e intrépido caiaque. Mais aliviados, seguimos para Itacaré numa remada capenga e lenta. Ao avistarmos o farol da praia da Concha um grande alívio se apossou de nós, estávamos chegando! Já passava das três da tarde, remávamos há quase nove horas e estávamos muito cansados.

Comentei pra Hamiltinho sobre as grandes ondulações que já surfei em Itacaré e os riscos de remar naquela região. Estávamos no mês de abril, remando contra a maré, contra a corrente, descendo para o sul quando os ventos de sul e sudeste avançam com força para o norte. Sabia que se a Mãe Natureza ficasse enfurecida, o risco de navegar a remo naquelas paragens seria enorme. Passamos pela praia do Pontal e também pelas famosas direitas da Boca da Barra, onda grande descoberta por nomes como Cly Loyle e Ronaldo Fadul, pioneiros do surfe na década de 70 em Itacaré.

Entramos pelo canal sem maiores problemas e ainda passamos por alguns praticantes de Stand Up Padlle que nos olhavam com curiosidade. Ao aportarmos na praia da Concha, deixei Hamiltinho tomando conta dos caiaques e fui à busca de uma pousadinha onde pudéssemos enfim descansar os corpos maltratados. Recebemos a ajuda de alguns barraqueiros que nos emprestaram uma furadeira e uma máquina de “POP” para consertarmos o remo quebrado e posteriormente caminhamos duramente uns quinhentos metros até a pousada carregando os caiaques.

Esgotados entramos no quarto, um pequeno bangalô em meio a um ambiente que se assemelhava a Mata Atlântica. Tomamos banho, comemos e coloquei a Go Pro pra carregar as quatro baterias que estavam quase no fim. À noite passeamos pela cidade, encontramos um grande amigo de Itapuã, Ibanez, que estava com sua esposa e filhinha vivendo em Itacaré há algum tempo e retornamos para a pousada. O swell prometido estava chegando e com ele ventos de sul com quase 25 nós. Sabíamos que o mar de gelatina havia acabado e que dali pra frente remaríamos na tormenta se quiséssemos chegar a Porto Seguro.

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