Morro ao Porto
Márcio Torres conta a terceira parte de sua aventura na travessia entre Morro de São Paulo e Porto Seguro
Em cima da muralha do Forte estava Rafael, que fazia as últimas imagens da nossa partida. Acenamos para ele e assim dissemos adeus ao cinegrafista, ao amigo, ao projeto de papel e ao conforto de um dia a dia urbano. Retornávamos ao mar e do ponto onde paramos na última expedição, para uma empreitada séria, arriscada e de grande responsabilidade.
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Seriam aproximadamente 450 quilômetros entre o Morro de São Paulo e a praia do Mutá em Porto Seguro. Carregávamos também o fardo de fazer parte da festa de 514 anos do Descobrimento do Brasil, onde seríamos recepcionados por autoridades, imprensa e público.
Exatamente em abril, uma época de ventos oriundos do sul, contrários ao nosso percurso. Um vento que trás para a Bahia as tempestades de outono e de inverno, além de ondulações grandes. Por tudo isso, sabíamos que seria uma viagem tensa, reta, sem erros e que exigiria de nós muita seriedade, disciplina e rigor.
Em remadas longas e cadenciadas cortávamos as águas da Ilha de Tinharé, que se encontravam calmas e de um verde translúcido. De longe avistamos a primeira praia do Morro, a Ilha da Saudade e todo o contorno da vila. Não conhecia meu paraíso por esse ângulo e me realizei quando nos aproximamos da Ilha do Caitá. Um pequeno assento de areia cercado por uma bancada de rochas, onde vive seu único habitante que dá nome a ilha. Lanchas de passeio para a ilha de Boipeba passavam por nós a todo instante e sob olhares curiosos dos muitos turistas que nelas passeavam, seguíamos adiante, sem palavras, respirando ao ritmo das nossas remadas.
Veio a segunda praia, a terceira, rompemos a fronteira da quarta praia, da quinta, também conhecida como praia do Encanto, quando avistei o início de uma longa bancada de coral que separa o Morro de São Paulo do povoado de Garapuá.
Em 2005, quando caminhei da Ponta do Garcez até a Baía de Camamu, levei sete longas horas para atravessá-lo. Enquanto remávamos, pássaros diversos e em bandos passavam por nós gritando, cantando, numa algazarra organizada e depois pousavam nas árvores do manguezal que se dispõe por trás da citada bancada.
Um pedaço de natureza ainda preservado, intacto, com toda riqueza, pompa e exuberância da vida natural. Ao contrário da minha árdua caminhada, deslizavamos e avançavamos rapidamente com a força da maré a favor e uma brisa leste que soprava no nosso través. Logo Garapuá surgiu como uma pequena baía por detrás da última ponta do mangue. O sol ardia com força e com sua luz decorava lindamente a paisagem. O coqueiral fechado ao fundo e um mar verde cristalino compunham o ambiente que instigava e aguçava nosso desejo de seguir adiante. Depois remamos aproximadamente 15 quilômetros por toda a praia de Pontal, a última da Ilha de Tinharé.
Cruzamos o Rio do Inferno e chegamos na Ilha de Boipeba, de tantos carnavais, acampamentos e caminhadas. Eu amo minha Bahia querida e sinto um orgulho danado de ter dedicado boa parte da minha vida a desvendar seus mistérios litorâneos, seja caminhando, surfando ou remando.
Conhecer cada centímetro de praia, das bancadas de coral, das ondas, lugares lindos e ainda preservados da exploração turística é sem dúvida uma das coisas que mais gosto de fazer na vida.
Havia comentado com Hamiltinho que poucas praias de Boipeba possuem condições de camping. É que por lá a maré quando enche cobre toda a faixa de areia, invadindo a mata ou os pequenos rochedos. Decidimos acampar na praia da Cueira, pois a mesma oferecia condições mínimas para armarmos nossas barracas.
Desembarcamos na praia, subimos os caiaque para além do alcance da maré e partimos numa caminhada de exploração. Pouco antes de escurecer armamos o camping, fizemos nossa refeição e ficamos batendo papo. Logo a lua saiu com força e sua luz prateou o mar, a praia e os coqueiros. Hamiltinho já estava recolhido quando deitei embaixo de um grande coqueiro de copa larga e olhando pra cima, me encantei com o céu estrelado e com o brilho prateado nas folhas do meu coqueiro. Paz, suspirei profundamente e me aquietei aninhado pela mãe natureza. Não sei por quanto tempo fiquei assim, e quando o sono chegou, entrei na minha barraca e ainda filmei um depoimento meu e outro de Hamiltinho na porta da sua barraca.
Acordamos e demos sequência no trabalho de desarmar o camping, a luz do dia já brotava no horizonte quando tomávamos nosso café da manhã. Uma refeição farta, tínhamos de tudo, geleias, patês, pão de forma, biscoitos, sucos, leite, chocolate em pó, sardinhas, o saco estanque de comida estava abarrotado e pesado. Sabíamos que comer bem era fundamental para o sucesso de uma longa expedição. Além disso, levávamos um hiper-calórico para Hamiltinho, barras de proteína e maltodextrina para diluir em dois litros de água para cada um beber ao longo das remadas diárias.
Assim manteríamos nossas musculaturas firmes e fortes, Hamiltinho não perderia peso, enquanto que eu poderia baixar de peso sem perder massa muscular. Tudo pronto, navegadores em seus barcos na beira do mar e avançamos lentamente até que os caiaques flutuaram e pudemos remar superficialmente. Assim rompemos a arrebentação de pequenas ondas da praia da Cueira. Contemplamos o sol nascendo no mar, com toda a sua explosão de cores e reflexos, para onde olhávamos o espetáculo justificava o ingresso, no nosso caso, todo nosso esforço. Barra Grande estava perto.