Morro ao Porto

Márcio Torres relata a segunda parte de sua aventura na travessia entre Morro de São Paulo e Porto Seguro


A data marcada para nossa partida seria o dia primeiro de abril, mas acho que nem o dia da mentira quis que partíssemos em sua homenagem. A verdade deve ter saltado aos olhos de quem nos viu no segundo dia do mês.

Clique aqui para ver as fotos

Estávamos rompendo a linha do tempo e iniciando uma jornada interior, um caminho sem volta, onde o maior desafio seria viver, experimentar, ousar e se permitir. Tínhamos passagens para o além, de primeira classe, com serviço de bordo e toda pompa e elegância que merecíamos. Sim, merecíamos, pois acreditando nas fadas, no pote de ouro ao final do arco-íris e em todo o mundo mágico dos nossos sonhos, os tornaríamos reais.

Logo me lembrei de Pablo Neruda, suas palavras brotavam em minha mente. Estava praticando sua teoria - “fugindo pelo menos uma vez na vida dos conselhos sensatos”. Não exatamente uma vez somente, acho que essa tem sido uma constante na minha vida. Sempre fiz o que me dá na telha e isso me trouxe alguns problemas, mas também muitas alegrias e concretizações.

Foi com esse espírito que nos encontramos com o capitão da canoa havaiana Kaleopapa, nosso amigo Frank Faro. Havíamos combinado na noite anterior que ele nos levaria no seu carro até o centro Náutico da Bahia. Faríamos a travessia de Salvador para Morro de São Paulo num Catamarã da Ilha Bella Transportes Marítimos, empresa do distinto Sr. Jacinto.

Desde a expedição anterior que firmamos uma parceria com esse ex-marinheiro e também homem do mar. Na outra edição, seu catamarã nos trouxe de volta para Salvador partindo do Morro de São Paulo. Foi uma grande satisfação encontrá-lo no embarque.

Quanto ao capitão Frank Faro, sem palavras para agradecer ao amigo que acordou às quatro da manhã para nos oferecer uma carona de grande importância. Sem contar com sua energia contagiante, que carregou ainda mais as nossas pilhas. Na despedida ainda presenteou Hamiltinho com uma nota de vinte dólares, dizendo atrair bons fluidos. Obrigado mestre Frank!

Encontramos nosso cinegrafista Rafael Argollo, e com ele produzimos as imagens do embarque no catamarã e de toda a viagem até o Morro. Rafa passaria a primeira noite conosco, para no dia seguinte filmar nossa saída. O primeiro de abril realmente respeitou nossa empreitada e neste dia que antecedeu nossa partida, não nos pregou nenhuma peça.

Desembarcamos no belíssimo Morro de São Paulo sob os olhares curiosos de turistas de toda parte do mundo e nos acomodamos mais uma vez no magnífico hotel Portaló. Reencontramos o amigo e chefe do hotel, Saidinho, que mais uma vez nos mimou com seus pratos elegantes e deliciosos.

O Lemurian-I e o Lobo do Mar ficaram estacionados na entrada do hotel, no mesmo lugar onde repousaram quando ao Morro chegamos remando de Salvador. Ali, quietinhos e emudecidos, pareciam querer contar suas aventuras. Estavam deslumbrantes e brilhavam encantando os hóspedes do Portaló, que a todo instante tiravam fotos e nos faziam perguntas sobre nossa expedição.

À noite, demos uma volta pelas ruelas da vila, sua iluminação fraca e amarelada é um espetáculo, criando um clima de penumbra aconchegante. O Morro de São Paulo é mágico e possui uma energia acima do padrão. Quem chega lá pela primeira vez, tem a impressão de estar num lugar que não pertence a nenhuma parte do mundo e a todas ao mesmo tempo. Seus casarões coloniais contam parte da história da Ilha de Tinharé e a importância estratégica dessa ilha na defesa do território português.

Tem também a Fonte Grande, datada do século XVIII, que fornecia água pura e cristalina aos primeiros moradores da região. O Forte, que com sua longa e imponente muralha contorna a morfologia da extremidade da ilha e está posicionado abaixo do farol, que até hoje sinaliza aos navegadores sobre o risco da navegação naquelas paragens recheadas de bancos de coral.

Pouco antes de dormir fomos convidados a jantar com o elegante Stephane, o proprietário do Portaló. Estavam presentes também o advogado André Castro e o contador Williams Portugal, que conhecemos no embarque do Catamarã e que viajavam à serviço do hotel Portaló.

Foi um jantar memorável, regado a bons vinhos, culinária sofisticada e um inteligente e aprazível diálogo com nossos amigos. Para mim o vinho ficou apenas na decoração, já que não tenho a menor habilidade nem paladar para ele. Sou mesmo um beberrão de cerveja, mas isso contarei num outro momento.
Queríamos acordar inteiros para iniciar a execução da nossa missão, portanto, bebidas alcóolicas estavam terminantemente proibidas.

No dia seguinte decidimos atrasar nossa partida em função do excelente café da manhã servido no Portaló. A mesma estava marcada para as seis da manhã, mas saímos verdadeiramente às nove horas. Descemos a rampa com os barcos, nos acomodamos e partimos por baixo da ponte e rumando nossas proas para o Forte.

Ao olhar para trás algumas vezes, me recordo de ver Rafael correndo e buscando ângulos. Contornamos o Forte e nesse momento a sensação de liberdade era grandiosa. Tínhamos 450 km à frente, praias de todos os tipos, bocas de barras, ventos diversos, ondulações, biodiversidade marinha, sol, chuva e arco-íris. Dali em diante mergulharíamos profundamente nas ações diárias que nos permitiriam o êxito.

Poderia executar livremente o que sempre quis desde o princípio, quando concebi a Lemurian Expedition, explorar cada pedacinho de praia, descortinar aquele lindo litoral para o mundo através da nossa câmera e ser feliz como na infância, quando me enfiava em trilhas pelos matagais de Nazaré das Farinhas, em busca de rios bonitos para tomar banho ou mesmo quando remava com meu vô preto em sua canoa de madeira e com ele pescava siris com “gereré” na Coroa do Rio dos Remédios.

Sentia que havia nascido para isso e não queria mais pensar na cidade grande, no trabalho, nos problemas sociais, nos valores invertidos de uma sociedade doente e sombria. Sim, estava de volta, devolvendo a mim mesmo a essência da vida, permitindo um encontro com a minha alma e com a simplicidade de Deus.

O Lemurian–I era meu templo, minha carruagem, uma espécie de passe livre para a vida e com ele passaria os próximos 12 dias. Confiava no meu querido barco e sabia da sua estrutura robusta e esguia, da sua capacidade em cortar as águas, deslizando suavemente ao nosso destino.

Mentalmente, agradecia a Christian Fuchs, o construtor dos nossos caiaques, pela sua obra e também pelas técnicas que aprendemos num curso com ele em São Paulo. Sentíamo-nos prontos e com as mentes fortes, buscaríamos nossa primeira grande conquista geográfica.

PUBLICIDADE

Relacionadas

Com apenas 10 anos, Davi Lucca ganha apoio de Ivete Sangalo e tem trajetória exibida no Esporte Espetacular, na TV Globo.

Projeto Eco Garopaba promove orientações sobre reciclagem e reutilização do lixo

Escola de surfe Pacific Surf School abre vagas para instrutores brasileiros em San Diego (EUA)

Prêmio Brasileiro Ocyan de Ondas Grandes conta com disputa entre surfistas que levaram o pior caldo no País na última temporada

Bodysurfers reforçam Prêmio Brasileiro Ocyan de Ondas Grandes

Fotógrafo baiano Thiago Sampaio lança livro de fotografias Brisa Baiana

Marca baiana Blu se consolida como o protetor favorito dos esportistas no Brasil

Segunda edição do Nóisérider Festival acontece nos dias 14, 15 e 16 de outubro em Itacimirim