Do Morro ao Porto
Márcio Torres conta a primeira parte de sua aventura na travessia entre Morro de São Paulo e Porto Seguro
Após retornar para Salvador, demorei a me conectar novamente a rotina de vida na cidade grande, ao padrão de vida fora das expedições. É fato que estava viciando nas aventuras, meu corpo e mente queriam mais.
Logo recordava da emoção de cada momento, do sal entranhado na pele, da fadiga muscular, das pessoas que conhecemos no caminho, enfim, da chegada ao hotel Portaló lindamente posicionado acima da Muralha do Forte.
O Morro de São Paulo sempre foi um dos meus refúgios, o preferido, mas de agora em diante, o enxergaria por um prisma diferente, novas cenas, ângulos, um Morro novo e redescoberto por nós.
Haviam passado um mês após nossa última expedição e o Carnaval já estava na porta quando reencontrei Marcão na loja Lemurian em Itapuã. Há muito que ele me falava que poderia nos ajudar a realizar algo em sua cidade, Porto Seguro. Sentia a necessidade em realizar uma expedição mais longa, mais difícil, que realmente testasse nossas habilidades, estudos, mentes e físicos.
"Poxa Marcão, já fizemos Salvador – Morro de São Paulo, porque não do Morro para Porto Seguro?", perguntei.
E com o consentimento do meu amigo, lá estava eu em sua casa em pleno Carnaval, buscando contatos na cidade de Porto Seguro que pudessem nos dar um norte na captação tão importante e necessária para a realização do feito. Buscava o mesmo padrão que realizamos no Morro de São Paulo, com a presença de Cícero Spínola, o Cicinho e Rafael Argollo, o Rafa, ambos da Harpia Imagens Aéreas, empresa responsável pela produção dos nossos filmes.
No domingo de Carnaval, estava sentado embaixo da amendoeira do Centro Náutico Flotilha Mutá, quando mirei de longe em meio a sombras e névoa, o vulto de embarcações ancoradas na linha do horizonte. Perguntei a Marcão do que se tratava e o mesmo me disse - É o Recife de Fora.
Foi o suficiente, pedi um caiaque Mutá emprestado, 2 litros de água, algumas bananas e parti numa viagem de 6,5 km adentro, rumo ao paraíso. O caiaque em nada parecia com o Lemurian – I, tratava-se de um caiaque de recreio, para aluguel. O conforto e rendimento muito inferiores, porém, quem acompanha a Lemurian Expedition e leu os primeiros diários de bordo, deve recordar que nossos primeiros passos foram em caiaques assim.
"Que nada, tô aqui e o paraíso ali! Bora, rema sacana", agitei.
E parti numa linda e contagiante remada. Os detalhes estão registrados no capítulo anterior deste mesmo diário de bordo no nosso site. Posteriormente, retornei a Salvador, sabia que muito ainda tínhamos que trabalhar em Porto Seguro, mas dentro de mim, já havia a certeza da realização dessa expedição.
"Hamiltinho, vamos remar do Morro para Porto Seguro! Amanhã viajarei pra lá e só retornarei com o projeto vendido" comentei.
"Tá louco Torres, filho, tá muito em cima, tô sentindo dor no ombro e sem treinar a um tempo. Torre, você se empolga muito", me respondeu.
"Meu irmão, tô indo com Marcão de carro, ele tá aqui em Salvador com Sandra e Victorinha, e retornará amanhã pra Porto, vou aproveitar a carona", emendei.
Por um lado, compreendia Hamiltinho, sempre muito racional, mas também compreendia que a Lemurian Expedition nunca teve razão, se me deixasse levar por ela, não teria dado nem o primeiro passo há quase dois anos atrás.
No dia seguinte, viajei com Marcão e sua linda família, uma jornada agradável onde o tema do diálogo girava apenas em torno dos sonhos e aventuras no mar.
Fui recebido com muito carinho por Marcão, Sandra e Victorinha ao longo dos treze dias em que permaneci por lá. Foi muito trabalho, Marcão parou sua vida em função da nossa expedição, que se fundiria com o 14º Passeio Náutico do Descobrimento, Brasil 514 anos, evento organizado pelo mesmo desde 2001. Seria a cereja no topo do bolo, remaríamos numa longa jornada em homenagem ao descobrimento do Brasil e chegando em Porto Seguro, nos juntaríamos aos velejadores do centro Náutico Flotilha Mutá, num lindo passeio entre a praia do Mutá e a das Pitangueiras, onde acontece a famosa missa em celebração ao dia do descobrimento, 22 de abril.
Durante o período em que estive lá para a captação financeira do projeto, gostaria de destacar o carinho de Toninho, proprietário da empresa Residenciais Tonziro, o principal patrocinador da expedição. Sua receptividade e honestidade me emocionaram. Um destaque também para o Porto Plaza Shopping, através da pessoa do Sr. Sérgio, que também acreditou no nosso projeto desde o princípio. Não poderia deixar de citar o nome do Secretário de Esportes, o Roló, cara muito simpático, que apesar de algumas limitações do seu cargo municipal, nos deu confiança e o suporte necessário para a realização da expedição. E por fim, homenagear previamente meu grande amigo e incentivador Marcos Oliveira, o incansável Marcão, que de maneira contagiante, acreditou na Lemurian Expedition quando ainda remávamos em caiaques de plástico. Sua garra e determinação foram determinantes para que pudessemos partir com confiança para essa jornada.
Apesar de captarmos apenas 20% do planejado, decidi realizar a expedição com o que tínhamos em mãos. Uma dose certa de risco, coragem e força de vontade, já que no total entre viagens de captação e a expedição em si, ficaria quarenta dias fora da minha empresa e Hamiltinho vinte dias fora do seu trabalho. Ainda havia a problemática de viajarmos em abril, um mês perigoso, onde os swells de sul entram com força, trazendo grandes ondulações e ventos contrários ao nosso percurso. Se alguém me perguntasse se eu tinha certeza de êxito, com certeza eu diria que não. Foi simples assim, como fechar os olhos e seguir adiante.
O que aconteceria depois com nossas vidas pessoais e profissionais, não sabíamos, mas tínhamos a certeza que precisávamos partir.
*Fiquem ligados nos próximos capítulos dessa aventura