Memória clássica
Carlos Santiago relembra sessão inesquecível nas esquerdas do Havaizinho, em Ilhéus (BA)
O ano era 1996, estava no aeroporto de Ilhéus e esperava um táxi para levar umas pranchas para casa, antigas pranchas Blue & Sea do shaper Jaguara, marca a qual era o representante em Ilhéus.
De repente surgiu um conhecido Gurgel branco com prancha no teto e para minha surpresa, não era Paulety, surfista pioneiro ilheense e dono do veículo, mas sim Zé Marcos, outro dinossauro da nossa história salgada, me convidando para fazer uma sessão.
Vamos nessa! - respondi e logo arrumando as pranchas no teto do surfmóvel. Mas preciso levar essas pranchas até minha casa.
Tudo bem - disse Zeca (campeão baiano nos anos 70). No caminho fomos observando as condições de vento e ondulação, para pegarmos o melhor pico, já que havia encostado um belo swell naqueles dias e não poderíamos errar na queda.
Decidimos pela Zona Norte, ou North shore como o chamamos. A direção da ondulação favorecia as esquerdas e o norte ilheense tem por característica uma onda longa de paredes power.
Como bons ilheenses que somos, sabemos que não se passa em direção ao norte sem desviar o caminho para checar o Havaizinho.
Ficamos paralisados com o visual. Sabe aquela imagem de Chicama, no Peru? Ali, na nossa frente, inacreditável. Longas esquerdas sob um sol brilhante e água verde escuro (algo raro já que o pico fica numa saída de rio e na maior parte do ano é de coloração amarronzada).
Quando voltei a si, saindo do estado de êxtase, impactado pela imagem que mais parecia aquelas de revista, despenquei morro abaixo abraçando minha 6’1.
Já no outside, um crowd de mais ou menos dez cabeças, pouco para um swell daquela qualidade, mas acredito que era pequeno devido ao swell ter entrado em toda costa ilheense.
Olho para o lado e vejo o local Fabio Nico, com suas longas madeixas e com um sorriso de orelha a orelha. Fabinho tem uma cabana bem em frente ao point e pegava uma atrás da outra, já que a ondulação não parava de mandar series com pequenos intervalos de remanso.
Fizemos um dos melhores surf da minha vida. Drop rápido, 4 a 5 pés na série que quebrava sobre um banco de areia muito raso. Sem opção de cutback, errar nem pensar, era só linha rápida, tubos e rasgadas em toda a sua longa extensão.
No retorno ao line up, contemplava o crowd vindo, cada um na sua onda, que acredito eu, deve ter sido uma das melhores sessions realizadas naquele lugar por todos naquele dia sensacional.
Havaizinho, pico que aparece pelo Facebook numa clássica foto tirada pela equipe da Fluir de passagem pelo sul da Bahia.
Obrigado Jesus, obrigado Zeca!