Águas de março

Preocupada com o Rio Jaguaribe, Maíra Azevêdo critica politica de saneamento de Salvador


Março, mês das águas aqui em terras tropicais, também marcando o fim do verão. Essas referências fazem mais parte do nosso imaginário do que da realidade, pois a cada ano fica mais difícil separar cada estação.  

Este mês uma notícia estampou os jornais de nossa cidade: várias praias de nossa orla com manchas de esgoto, descargas de efluentes em áreas nobres, praias em bairros onde os investimentos em saneamento são tão alardeados.

Fiquei intrigada com a repetição das notícias durante o mês. Nossas praias, enfim, em vez das barracas, parecem estar sendo mais valorizadas pela população, o que talvez despertou a atenção para esses lançamentos e empoçamentos de esgoto na orla que, convenhamos, não são tão novidade assim.

Um mês de março menos chuvoso denunciou de forma mais gritante essa poluição “institucionalizada”. Menos água é igual menos diluição. Resultado: problema mais evidente.

Na sequência, vieram as explicações da EMBASA: problemas na rede de captação, lançamentos domésticos na rede pluvial em áreas de risco, sempre por causa das ocupações irregulares, e o papo de costume. Sem esquecer a captação em tempo seco, que, segundo dizem, é feita para “limpar” os rios e evitar essa sujeira nas praias.

Verdade seja dita, Salvador tem mesmo um grave problema de expansão sem planejamento, não só causada pelas ocupações irregulares e nem só restrita às áreas de maior vulnerabilidade socioambiental, vide os engarrafamentos sem fim por toda a cidade e os problemas de impacto de vizinhança.

Porém, não dá mais para aceitar isso como desculpa para tudo. É preciso ação, experimentação, responsabilidade.

Saneamento, nesse caso, falando de limpeza de água, não deve se restringir a obras de captação de esgoto. Se o dinheiro for apenas investido nisso, nunca teremos os rios limpos.

Depois, isso serve como desculpa para passar asfalto por cima, cimentar e fazer bares, pistas de cooper, etc. A captação em tempo seco, aliás, tem uma lógica bem louca: admite a descarga de esgotos nos rios e córregos para então captar em pontos de interceptação e direcionar através da rede, para tratamento e emissão “adequada” no mar.

Um tratamento bem feito deveria devolver a água para o sistema de maneira mais inteligente. Não somente menos suja, mas realmente limpa, a ponto de ser possível direcionar para reaproveitamento em atividades produtivas como irrigação de áreas verdes, produção de mudas florestais, atividades industriais ou de serviços como lavagem de ruas e automóveis. Água é energia, não dá para desperdiçar.  

Saneamento é responsabilidade municipal, porém por aqui, esse serviço foi concedido à EMBASA no século passado e não há regulamentação nem fiscalização pelo município. A política de saneamento de Salvador ainda está em discussão.

Salvador, uma cidade que fica numa península, totalmente irrigada e recortada por rios, córregos, cheia de fontes, deveria ser uma cidade mais fresca e com uma paisagem mais interessante, se observássemos a presença da água limpa e rodeada de verde correndo pelos nossos bairros. As mesmas pistas de cooper e bares próximos poderiam inclusive existir, respeitando essa paisagem, e com certeza o cheiro seria mais agradável.  

Não entendo como correr, pedalar, beber ou se exercitar sentindo aquele mau cheiro vindo debaixo das obras de pavimentação. Temos exemplos de cidades no mundo onde as ciclovias margeiam exatamente os cursos d’água, e se pedala num ambiente fresco, limpo, bonito, sem mal cheiro e longe dos carros.

Essa lógica do deixa esculhambar para vender mais caro depois para as empreiteiras com uma imagem completamente torta do que é limpeza já é tão comum que a gente nem percebe. Acha até bom, porque fica mais bonito e valoriza nossa rua.

Bom, o que quero dizer com isso tudo é que fiquei com muito medo do que pode vir acontecer na orla de Jaguaribe daqui uns tempos. Esse riozão, esse verde que ainda refresca a vizinhança, essa brisa perto da praia que adentra pelas ruas mais de trás, a paisagem que a gente aprecia passando pela orla, antes ou depois da corridinha ou de dar aquela caída no mar, quero muito que permaneça, limpo e belo.

Pense num corpo seco, desidratado, de alguém que não bebe água limpa. É a mesma coisa do nosso solo sem cobertura vegetal e cheio de cimento em cima. Não respira bem, não circula bem, não distribui os nutrientes. Só fica com mais e mais impurezas concentradas.

O Rio Jaguaribe faz parte de uma das maiores bacias hidrográficas da nossa cidade. Ela nasce em Águas Claras, passa por vários bairros da Estrada Velha do Aeroporto, atravessa a Avenida Paralela, nas imediações da Av. Orlando Gomes, até desaguar na praia da Terceira Ponte.

Essa bacia vem sofrendo muito com o desmatamento e a expansão imobiliária desorganizada. Essas manchas de esgoto na orla dizem muito sobre a situação dos nossos rios e sinalizam as consequências do que pode vir mais adiante. Para cada problema, existe uma solução. Não existe uma fórmula única. Existe fazer diferente, experimentar com responsabilidade e tratar cada detalhe na sua particularidade.

Jamais uma rede de captação vai dar conta de todas as áreas da cidade. Tratamentos localizados, biossistemas integrados podem ser uma solução alternativa eficaz e adequada para algumas áreas e tranquilamente se somar a soluções tradicionais, já implantadas ou não.

Lembrem-se: quanto menos verde, menos chuva teremos nos próximos meses de março. Em vez de água limpa vinda do céu, água suja concentrada nas areias.

PUBLICIDADE

Relacionadas

Com apenas 10 anos, Davi Lucca ganha apoio de Ivete Sangalo e tem trajetória exibida no Esporte Espetacular, na TV Globo.

Projeto Eco Garopaba promove orientações sobre reciclagem e reutilização do lixo

Escola de surfe Pacific Surf School abre vagas para instrutores brasileiros em San Diego (EUA)

Prêmio Brasileiro Ocyan de Ondas Grandes conta com disputa entre surfistas que levaram o pior caldo no País na última temporada

Bodysurfers reforçam Prêmio Brasileiro Ocyan de Ondas Grandes

Fotógrafo baiano Thiago Sampaio lança livro de fotografias Brisa Baiana

Marca baiana Blu se consolida como o protetor favorito dos esportistas no Brasil

Segunda edição do Nóisérider Festival acontece nos dias 14, 15 e 16 de outubro em Itacimirim