Entendendo a coluna

Yordan Bosco aborda mitos e cuidados com a coluna vertebral


Tachada como uma das epidemias deste século, as lesões na coluna vertebral vêm apavorando a humanidade. No Brasil, segundo dados do IBGE, são mais de 5 milhões de pessoas que sofrem com hérnia de disco.

Entre os praticantes do surf, sejam atletas de final de semana ou profissionais, o castigo normalmente vem na região lombar. Conversamos com muita gente sobre o assunto e descobrimos que nem tudo está perdido.

Não só é possível prevenir ou curar as lesões degenerativas dos discos vertebrais, como também existe possibilidade de um convívio tranquilo com a patologia, sem que ela interfira na sua qualidade de vida

O sociólogo Thiago Mascarenhas, 33 anos, tem uma rotina puxada para conciliar trabalho, família, surf e atividades físicas. Cai no mar quase todos os dias, treina capoeira de vez em quando e segue um roteiro de alongamentos e exercícios em casa, além de tratamentos fisioterapêuticos no Hospital Sarah Kubitschek, de Salvador.

Mascarenhas tem uma hérnia de disco na vértebra lombar, mais precisamente na L5/S2 (a primeira da parte inferior da coluna, na região do cóccix).

A patologia o fez sofrer de fortes dores durante muito tempo, porém, depois que começou a frequentar a Rede Sarah, há 5 anos, aprendeu a ter uma rígida disciplina de fortalecimento muscular e de elasticidade que o possibilitou voltar a praticar esportes sem dores e ter uma melhor qualidade de vida. O fortalecimento da musculatura do abdômen e da região lombar contribui para que não haja dores e inflamações e faz com que a hérnia de disco não evolua.

“No Sarah, após os seis meses de hidroterapia, fui para a ala de fisioterapia. Lá eles usam o conceito de Independência Funcional, ou seja, o indivíduo aprende a lidar com o seu problema. Aprende as técnicas de alongamento, RPG, pilates, entre outras, tudo sob orientação dos terapeutas. “Um fato curioso é que lá os terapeutas não tocam em você. Eles te ensinam e te acompanham durante meses, até que você se torne independente”, complementa o sociólogo.

Problemas na coluna lombar são mais comuns aos praticantes de surf do que se imagina. As lesões, que vão de simples inflamações a hérnias de disco, não atingem apenas os surfistas de final de semana, mas também atletas profissionais.

É o caso de um dos maiores ícones do surf brasileiro e ex-integrante da elite mundial Fábio Gouveia. Em 2005, ele conquistou o bicampeonato brasileiro com muitas dores na lombar, provocadas por uma hérnia de disco, e no ano seguinte sofreu uma intervenção cirúrgica.

Embora não existam estudos que apontem a quantidade de pessoas que sofram com contusões dessa natureza, no universo de cerca de 800 mil surfistas brasileiros é muito comum encontrar pessoas que já tenham deixado de cair no mar algumas vezes por causa de dores.

O ortopedista e especialista em cirurgia na coluna Maurício Gusmão explica que as posições do corpo e as constantes flexões e rotação vertebrais da região lombar durante a prática do esporte sobrecarregam os discos intervertebrais.

“Mas isso não quer dizer que o surf seja inadequado, muito pelo contrário, é um esporte saudável e recomendável. Mas é preciso que as pessoas façam atividades extras para fortalecer a musculatura e evitar que problemas mais sérios aconteçam”, alerta o médico baiano.

O médico catarinense especialista em quadril Marcos Contreras também alerta, em matéria publicada na revista Fluir, de setembro do ano passado, que a posição do tronco durante a remada força a musculatura do pescoço e das costas, além da coluna vertebral, o que também pode causar dores crônicas e hérnia de disco.

Além das dores localizadas na coluna, as hérnias e as protrusões (lesão no disco, preliminar à hérnia) lombares provocam a compressão do nervo ciático, responsável pelos movimentos dos membros inferiores e se localiza próximo aos discos. Por isso, as crises de coluna geralmente vêm acompanhadas de fortes dores nas coxas e nas panturrilhas, além de paralisação temporária em alguns movimentos das pernas e dos dedos dos pés.

De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 5,4 milhões de brasileiros sofrem com hérnia de disco. Com média de 3 a 4 cirurgias realizadas por semana, o doutor Maurício Gusmão explica que 70% das ocorrências de hérnias de disco em seus pacientes acontecem na região da coluna lombar, 20% na coluna cervical e 10% na região torácica.

As contusões dessa natureza, a exemplo de estiramentos, protrusão e hérnias, têm afastado muitas pessoas das ondas e levado parte delas para as mesas de cirurgias. Doutor Maurício Gusmão explica que em apenas 10% dos pacientes que sofrem com hérnia de disco há necessidade de intervenção cirúrgica.

“A cirurgia só é indicada para pacientes que têm sua qualidade de vida afetada com dores crônicas e que os tratamentos terapêuticos não apresentam nenhum resultado”, explica Gusmão. “O procedimento cirúrgico será de acordo com o estado do paciente e com a combatividade do quadro radiográfico. Não há uma fórmula mágica para todos e eles devem ser individualizados”, complementa.

De acordo com o cirurgião, há vários tipos de intervenção. Os que estão mais em evidência são os procedimentos minimamente invasivos, que são feitos por meio de pequenas incisões na região lombar, onde podem ser retiradas hérnias discais e inclusive colocação de suportes de titânio, a exemplo de parafusos entre as vértebras, se necessário. Vale ressaltar que estes procedimentos nem sempre são possíveis de ser realizados, depende da patologia do paciente. Neste casos, acontecem o procedimento convencional, através de cortes.

Após sete anos de sofrimento com uma hérnia na coluna lombar, o surfista e diretor administrativo da empresa baiana Metta Comunicação Joca Alcântara, 37 anos, não teve mais saída para as fortes crises na lombar e teve de cair na maca para fazer uma cirurgia minimamente invasiva.

“A decisão de fazer a cirurgia foi um processo lento. Com muito medo, insisti em tentar escapar das dores através de medicamentos fortes, como Tramadol, corticoides e morfina”, explica Alcântara, que também é músico.

O longboarder conta que seu quadro era lastimável. Sentia muita dor, só conseguia andar mancando, arrastando a perna esquerda. A situação o afastava do esporte e prejudicava no trabalho e nas relações sociais.

“Decidi visitar dois grandes neurocirurgiões de Salvador e entender o que podia ser feito no centro cirúrgico”, explica. ”De repente, tudo parecia fácil: a microdiscectomia seria feita em cerca de 40 minutos, não fixaria vértebra alguma e, mesmo com anestesia geral, prometia me levar para casa em menos de 24 horas, andando sem mancar. Assim, entrei na sala de cirurgia”.

Passado dois anos da intervenção cirúrgica, Alcântara surfa normalmente, mas, segundo ele, a performance ainda não voltou a ser a mesma. “Sofri muito com os meses mancando, restringindo movimentos. Não realizo as manobras da mesma forma, com a mesma linha. Ainda tenho alguma 'memória de dor', que também me coloca mais reservado em relação ao mar e às condições mais fortes, atrapalhando melhores desempenhos”, analisa.

Maurício Gusmão explica que há muitos casos de pacientes seus que voltam a ter uma vida absolutamente normal, livre de qualquer tipo de dor na região da intervenção. Fábio Gouveia também atesta o sucesso de sua cirurgia. Mesmo tendo um problema na cervical posteriormente à intervenção na lombar (que não tiveram nenhuma relação), ele diz que continua surfando normalmente, “ao lado de duas sessões semanais de pilates, para sempre deixar os músculos do abdômen e lombar fortificados”.

Doenças que podem causar dores na coluna vertebral

- Distensão muscular, tendão, ligamentos, fraturas e hérnias discais
- Malformações congênitas
- Postura viciosa, obesidade, encurtamento dos músculos posteriores das pernas
- Fibromialgia, dor miofacial
Artrose e outras doenças degenerativas
- Artrite reumatóide, artrite reumatóide juvenil, pelvespondilite anquilosante, artrite psoriática, Síndrome de Reiter, entre outras
- Tuberculose e outras bactérias;
- Osteoporose e outras doenças metabólicas
- Tumores benignos e malignos;
- Psicogênica: de ordem emocional.

Fatores de risco para a dor na coluna vertebral

- Obesidade
- Distúrbio mecânico/estrutural
- Tensão emocional: ansiedade, depressão
- Esforços excessivos
- Má postura
- Atividade profissional

Curiosidades

- O custo total com dor lombar nos EUA excedem US$ 100 bilhões por ano. Dois terços dos custos são indiretos, a exemplo de faltas e diminuição de produção no trabalho.
- 10% das pessoas apresentam hérnia disco lombar sintomático durante a vida nos EUA
- 200 mil cirurgias são realizadas por ano dos EUA
- 5,4 milhões de brasileiros possuem hérnia de disco, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e estatística (IBGE).

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