Monstros da remada
Maurício Abubakir e Genauto França descrevem prazer da remada oceânica
Por: Maurício Abubakir e Genau
Na etapa brasileira de SUP, promovida no início do mês em Fortaleza (CE), foi feita uma apresentação do paddle board (prancha oceânica) pela primeira vez em um circuito brasileiro de SUP.
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Embora não esteja oficialmente colocado na etapa, a participação do paddle lembrou as grandes travessias clássicas no Hawai, como Malokai-Oahu, em que as duas categorias não disputam por serem modalidades diferentes.
Por outro lado, isso traz um brilho especial à prova, na medida em que simbolicamente permite resgatar o espírito dos verdadeiros watermen que marcaram na história os primeiros desafios com pranchas paddle boards de madeira, como Duke Kahanamoku e Tom Blake, que remavam com os próprios braços.
Um dos organizadores locais da prova, Flávio Ramalho, entendeu a beleza da união de duas modalidades de remada. A participação do paddle board, representada por Maurício Abubakir e Genauto França, foi bem recebida pelos atletas e mesmo sendo não oficial proporcionou uma energia positiva entre os participantes.
O paddle board agradece e já convida o SUP para participar na Bahia da Farol-Farol (25 km) em dezembro, assim como da Mar Grande-Salvador (12km).
Fora uma prova dura, de 12 km sob condições de vento e mar fortes, o que exigiu de todos os atletas muita explosão e técnica para superação do percurso nos seis primeiros quilômetros (metade da prova) de forte vento contra. São exatamente essas condições naturais de maior adversidade que nós, praticantes do paddle, mais nos sentimos atraídos. Assim, nos sentimos “em casa”, pois o paddle é uma prancha feita para qualquer condição de mar.
Na prova, largamos ligeiramente afastados do pelotão principal do SUP. Avançamos mais afastados do quebra mar, para evitar colisões, e com cerca de 7 minutos Maurício já liderava, seguido pelo numero 1 do ranking (conhecido como Luis Carlos “Animal”, de São Paulo) e Genauto em terceiro, logo atrás do “Animal”. Abrimos uma boa vantagem em relação aos demais competidores nestes primeiros 5 quilômetros de vento forte contrário.
Sentindo-se confiante na liderança da prova e ousando estar à frente da figura mítica do circuito, Maurício imprimia ritmo forte e ia distanciando-se do “Animal”. Enquanto isso, estabilizado na terceira colocação e também distanciando-se dos demais, Genauto seguia de perto e atentamente aquelas “remadas animalescas” logo a frente dele. Porém, no trecho em direção à penúltima boia, Maurício não a enxerga, desviando-se em direção oposta e paralela cerca de 2 quilômetros.
Num gesto de grande virtude e ética esportiva, digna dos verdadeiros campeões, o “Animal” ainda tentou alertar Maurício do seu erro, num grito em vão. Maurício, conhecido na nossa comunidade como “o Monstro”, fora alertado pelo barco de acompanhamento, e fazendo valer seu apelido dispara numa remada de recuperação impressionante.
Ele perde a primeira colocação, mas ainda chega logo a frente de Genauto na virada da penúltima boia e continua a abrir vantagem do terceiro colocado. Até pouco antes da virada da última boia, Genauto, em terceiro, foi alcançado por outra “fera” do circuito, Alex (CE). Atleta muito generoso, dentro e fora d`água, Alex não poupou atenção e apoio sempre que precisávamos. Ele fez uma prova digna de um grande campeão. O terceiro e quarto colocados viraram a última boia praticamente juntos, com Alex ligeiramente a frente de Genauto.
Desse momento em diante eram mais 6 quilômetros de prova, dessa vez “descendo com o vento” (down wind). Tendo sido vencida a parte mais dura da prova, chegava a hora da recompensa, quando é possível seguir sendo empurrado pelo vento e ondulações favoráveis. Nestas condições o SUP leva nítida vantagem sobre o paddle, pois o corpo em pé do atleta forma uma área vélica. A esta altura, já tínhamos mais de uma hora de prova.
Sob tais condições, “Animal” aumentava sua dianteira, sendo Maurício alcançado ainda por Alex (CE), Magno (SC) e Gustavo Costa (BA). Esse último merece destaque pela impressionante corrida de recuperação e pelo modo de “surfar” as ondas com uma prancha 16’1’’, sendo vencedor da categoria Unlimited.
Ao final, e no geral, tivemos a vitória do “Animal” (1h 37min 33seg), com Alexander Araújo em segundo (1h 44min 07seg), Magno Matoso (1h 45min 47seg) em terceiro, Gustavo Costa (1h 49min 32seg) em quarto, Maurício (1h 50min 37seg) em quinto e Genauto (1h 52min 47seg) em sexto. A prova contou com cerca de 25 atletas de diferentes partes do Brasil.
Vale destacar, ainda em relação à participação baiana, a excelente performance de Barbara Brasil (“Monstrinha”), vencedora com louvor da categoria feminina, com impressionante tempo de 2h, 15min. Além disso, merecem menção especial os atletas Pedrinho (2h 24min 44seg), Pará (2h 37min 45seg) e Ptolomeu (2h 50min 12seg). Merecem menção honrosa também os atletas Zé Augusto e Mario Vilas Boas, que sofreram contusões e tiveram de abandonar a prova.
Quem também fez bonito foi Adriana Munford, que representou a Bahia em grande estilo no SUP-Surf, ficando em segundo lugar na prova que teve o total de quatro quilômetros.
Para concluir, gostaríamos de levantar uma reflexão sobre o sentido do desafio que uma prova desse tipo impõe aos que dela participam. Em nossa compreensão, não parece que o desafio principal dessa prova é de se opor aos outros, como dentro de uma lógica de competição qualquer.
São dois os maiores desafios que encontramos neste tipo de prova. O primeiro é consigo mesmo. Trata-se de um desafio de auto-superação, de tentar reconhecer nossos limites, nossas fronteiras, tanto físicas quanto mentais.
A prova requer, portanto, um certo estado de espírito. Ela nos permite nos reconhecermos de outra maneira, é como se fosse uma viagem interior, de auto-descoberta, de percepção diferente de nós mesmos, de nossas possibilidades, de nossas capacidades, numa síntese fusional de nosso corpo e mente.
O outro desafio é com a natureza. Aqui o desafio não é aquele de uma vã e arrogante tentativa de domar a natureza, mas ao contrário de pedir permissão para estar com ela, em harmonia. Este é o desafio de conseguir fazer um percurso num ambiente natural repleto de dificuldades (condições de vento, correntes marinhas, ondulações).
Neste sentido, acreditamos que nos misturamos ao próprio mar ou à própria natureza num esporte como este. Sabendo-se que isso requer, antes de tudo, um profundo respeito dela, a natureza.
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Embora não esteja oficialmente colocado na etapa, a participação do paddle lembrou as grandes travessias clássicas no Hawai, como Malokai-Oahu, em que as duas categorias não disputam por serem modalidades diferentes.
Por outro lado, isso traz um brilho especial à prova, na medida em que simbolicamente permite resgatar o espírito dos verdadeiros watermen que marcaram na história os primeiros desafios com pranchas paddle boards de madeira, como Duke Kahanamoku e Tom Blake, que remavam com os próprios braços.
Um dos organizadores locais da prova, Flávio Ramalho, entendeu a beleza da união de duas modalidades de remada. A participação do paddle board, representada por Maurício Abubakir e Genauto França, foi bem recebida pelos atletas e mesmo sendo não oficial proporcionou uma energia positiva entre os participantes.
O paddle board agradece e já convida o SUP para participar na Bahia da Farol-Farol (25 km) em dezembro, assim como da Mar Grande-Salvador (12km).
Fora uma prova dura, de 12 km sob condições de vento e mar fortes, o que exigiu de todos os atletas muita explosão e técnica para superação do percurso nos seis primeiros quilômetros (metade da prova) de forte vento contra. São exatamente essas condições naturais de maior adversidade que nós, praticantes do paddle, mais nos sentimos atraídos. Assim, nos sentimos “em casa”, pois o paddle é uma prancha feita para qualquer condição de mar.
Na prova, largamos ligeiramente afastados do pelotão principal do SUP. Avançamos mais afastados do quebra mar, para evitar colisões, e com cerca de 7 minutos Maurício já liderava, seguido pelo numero 1 do ranking (conhecido como Luis Carlos “Animal”, de São Paulo) e Genauto em terceiro, logo atrás do “Animal”. Abrimos uma boa vantagem em relação aos demais competidores nestes primeiros 5 quilômetros de vento forte contrário.
Sentindo-se confiante na liderança da prova e ousando estar à frente da figura mítica do circuito, Maurício imprimia ritmo forte e ia distanciando-se do “Animal”. Enquanto isso, estabilizado na terceira colocação e também distanciando-se dos demais, Genauto seguia de perto e atentamente aquelas “remadas animalescas” logo a frente dele. Porém, no trecho em direção à penúltima boia, Maurício não a enxerga, desviando-se em direção oposta e paralela cerca de 2 quilômetros.
Num gesto de grande virtude e ética esportiva, digna dos verdadeiros campeões, o “Animal” ainda tentou alertar Maurício do seu erro, num grito em vão. Maurício, conhecido na nossa comunidade como “o Monstro”, fora alertado pelo barco de acompanhamento, e fazendo valer seu apelido dispara numa remada de recuperação impressionante.
Ele perde a primeira colocação, mas ainda chega logo a frente de Genauto na virada da penúltima boia e continua a abrir vantagem do terceiro colocado. Até pouco antes da virada da última boia, Genauto, em terceiro, foi alcançado por outra “fera” do circuito, Alex (CE). Atleta muito generoso, dentro e fora d`água, Alex não poupou atenção e apoio sempre que precisávamos. Ele fez uma prova digna de um grande campeão. O terceiro e quarto colocados viraram a última boia praticamente juntos, com Alex ligeiramente a frente de Genauto.
Desse momento em diante eram mais 6 quilômetros de prova, dessa vez “descendo com o vento” (down wind). Tendo sido vencida a parte mais dura da prova, chegava a hora da recompensa, quando é possível seguir sendo empurrado pelo vento e ondulações favoráveis. Nestas condições o SUP leva nítida vantagem sobre o paddle, pois o corpo em pé do atleta forma uma área vélica. A esta altura, já tínhamos mais de uma hora de prova.
Sob tais condições, “Animal” aumentava sua dianteira, sendo Maurício alcançado ainda por Alex (CE), Magno (SC) e Gustavo Costa (BA). Esse último merece destaque pela impressionante corrida de recuperação e pelo modo de “surfar” as ondas com uma prancha 16’1’’, sendo vencedor da categoria Unlimited.
Ao final, e no geral, tivemos a vitória do “Animal” (1h 37min 33seg), com Alexander Araújo em segundo (1h 44min 07seg), Magno Matoso (1h 45min 47seg) em terceiro, Gustavo Costa (1h 49min 32seg) em quarto, Maurício (1h 50min 37seg) em quinto e Genauto (1h 52min 47seg) em sexto. A prova contou com cerca de 25 atletas de diferentes partes do Brasil.
Vale destacar, ainda em relação à participação baiana, a excelente performance de Barbara Brasil (“Monstrinha”), vencedora com louvor da categoria feminina, com impressionante tempo de 2h, 15min. Além disso, merecem menção especial os atletas Pedrinho (2h 24min 44seg), Pará (2h 37min 45seg) e Ptolomeu (2h 50min 12seg). Merecem menção honrosa também os atletas Zé Augusto e Mario Vilas Boas, que sofreram contusões e tiveram de abandonar a prova.
Quem também fez bonito foi Adriana Munford, que representou a Bahia em grande estilo no SUP-Surf, ficando em segundo lugar na prova que teve o total de quatro quilômetros.
Para concluir, gostaríamos de levantar uma reflexão sobre o sentido do desafio que uma prova desse tipo impõe aos que dela participam. Em nossa compreensão, não parece que o desafio principal dessa prova é de se opor aos outros, como dentro de uma lógica de competição qualquer.
São dois os maiores desafios que encontramos neste tipo de prova. O primeiro é consigo mesmo. Trata-se de um desafio de auto-superação, de tentar reconhecer nossos limites, nossas fronteiras, tanto físicas quanto mentais.
A prova requer, portanto, um certo estado de espírito. Ela nos permite nos reconhecermos de outra maneira, é como se fosse uma viagem interior, de auto-descoberta, de percepção diferente de nós mesmos, de nossas possibilidades, de nossas capacidades, numa síntese fusional de nosso corpo e mente.
O outro desafio é com a natureza. Aqui o desafio não é aquele de uma vã e arrogante tentativa de domar a natureza, mas ao contrário de pedir permissão para estar com ela, em harmonia. Este é o desafio de conseguir fazer um percurso num ambiente natural repleto de dificuldades (condições de vento, correntes marinhas, ondulações).
Neste sentido, acreditamos que nos misturamos ao próprio mar ou à própria natureza num esporte como este. Sabendo-se que isso requer, antes de tudo, um profundo respeito dela, a natureza.
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