Papo de Longboard

Peterson Sitônio bate um papo com o longboarder baiano Joca Alcântara


De uma brincadeira de criança na ilha de Itaparica para o cenário competitivo no começo do ano 2000, o baiano Joca Alcântara participou dos tempos do romantismo da categoria longboard na Bahia. Admirador de pessoas como o legend Bernardo Mussi, Joca vê com preocupação os rumos que a categoria e os atletas do longboard tomaram. Nosso colaborador Peterson Sitônio bateu um papo descontraído com essa figura chamada Joca.

Peterson Sitônio - Para começar nossa entrevista, gostaria que contasse como tudo começou. Quando começou a surfar?

Joca Alcântara - Tudo começou no verão de 1984, na Ilha de Itaparica, mais precisamente na praia da Taipoca, então uma pequena vila nativa de pescadores espremida entre Barra do Gil e Coroa, com algumas casas alugadas a veranistas de Salvador. Eu tinha 11 anos. Numa destas de dois quartos, com meia parede e sem forro, meu pai firmou aluguel de verão e lá fomos passar as férias da escola.

Enquanto meu velho vivia sua paixão por sua namorada da época, o mar se abriu para mim. Vivi aquele verão solto entre os filhos humildes dos pescadores e os “mauricinhos” do Condomínio Praia dos Orixás, que ficava logo ali ao lado. Tudo era na praia: caiaque, pesca, barco a vela... Na maré seca, surgia um banco enorme de areia e o futebol rolava solto. Quando esse banco se cobria na enchente, rolavam pequenas ondas e as crianças mais privilegiadas do Orixás apareciam com pranchas de surf.

Aquilo brilhou em meus olhos. Insisti demais e meu pai comprou no Bompreço da Ilha, então Paes Mendonça, uma preciosidade de isopor chamada “Guarujá”. Foi numa destas que fiquei em pé pela primeira vez. Quebrei três dessas ao meio naquele verão, contrariando o orçamento das cervejas de meu pai.

Um ano depois ganhei de presente do meu velho uma prancha de verdade: uma O’Neill 6’2, enorme para mim e meus 11 anos, que passou a dormir comigo na cama.

PS - Quando se interessou e o que te fez se aproximar do longboard?

JA - Em 1996, após ficar meio louco de admiração com algumas fotos que eu via do surf de longboard nas edições da Fluir, resolvi experimentar. Consegui uma prancha usada, um 9’ pés pintado por Wagner Lancelotti. Só que ainda moleque e sem carro, caminhar de casa, no Farol de Itapuã até Jaguaribe, ficou inviável após uns seis meses. Vendi a prancha! Só em 2001, já incentivado pelo amigo Fernando Araújo, shaper da Surfboards Hawaii no Brasil, voltei a surfar de longboard.

PS - Teve alguma influência para entrar no mar? Quem te inspira?

JA - Meus grandes influenciadores e inspiradores são até hoje dois "jovens": Bernardo Mussi (Salvador) e Alde Vieira (Itacaré). Entre dicas e shows dentro do mar, esses caras me fizeram ficar apaixonado definitivamente pelo surf de longboard.

PS - Quando começou a competir longboard? Quais são seus principais títulos e qual foi que marcou para você?

JA - Comecei a competir em 2002, na última etapa do Circuito do Clube Baiano de Longboard, promovido por Bernardo Mussi e Zé Augusto. Era um verdadeiro encontro de amigos. Fui campeão Open naquela edição de 2002. Em 2003, corri esse mesmo circuito desde a primeira etapa e terminei o ano como campeão baiano amador. Fui vice campeão baiano da categoria Super Master em 2004 e 2006. Quando Alde fez o primeiro campeonato de longboard de Itacaré, na praia da Engenhoca em 2004, tive a oportunidade de ser o segundo colocado na Open. Entre 2003 e 2006 estive entre os Top 8 profissionais baianos.

O título baiano de 2003 foi o que mais me marcou. Em janeiro daquele ano perdi meu pai. E já vivia um momento de vida bastante quieto e reservado. Lembro que ia para as etapas do baiano sozinho em Imbassaí, Itacimirim e lá me juntava com amigos. Os bons resultados e as interações me injetaram muita esperança e sentimento de superação.

PS - O que você acha que mudou na modalidade longboard, desde que começou até hoje?

JA - A amizade verdadeira e simples, descomprometida. Em 2002 e 2003 pude viver entre amigos que mais se divertiam do que competiam. Viajávamos para as etapas e sempre estávamos juntos, confraternizando. Vi isso mudar bastante quando as competições passaram a premiar em dinheiro, trazendo inclusive atletas de pranchinha para a categoria Longboard. Hoje a dispersão das competições de longboard é intensa. Os atletas sumiram, os incentivos e patrocínios perderam o foco nesta modalidade.

PS - Sente falta dos campeonatos de longboard em Salvador? O que acha que precisa para voltar a ter boas competições na capital?

JA - Claro que sinto falta. A competição é uma motivação especial para o atleta ou freesurfer se desenvolver dentro das regras e regulamentos. Inclusive, vale destacar o quanto meu surf ganhou em conforto, segurança e qualidade, principalmente fora das competições, entendendo melhor os critérios de julgamento, o posicionamento no outside, a percepção das ondas e prioridades para pega-las.

PS - Qual seu equipamento? Pranchas, quilhas, etc…

JA - Uso pranchas entre 7’6 e 9’2, todas focadas em preservar a condição de surf clássico, proporcionando também fácil troca de borda para situações mais radicais. Fernando Araújo (RJ) é meu shaper desde 2001. Uso quilhas FCS modelo fat boy (7’ e 9’) e Rainbow Fins modelo rake (9’).

PS - Qual foi sua melhor onda até hoje? Descreva!

JA - Foi minha primeira esquerda na minha primeira surf trip para Pavones, Costa Rica. Entrei por trás do pico, pois o intervalo estava bem espaçado entre as séries de cerca de 2,5m. Estava tudo liso e parado, quando me aproximei da bancada vejo um muro sem fim no horizonte (risos). Havia apenas um cara no outside, que logo gritou “good wave for you!”. Nem parei de remar e nem pensei. Dropei com minha Surfboards Hawaii 8’4 monoquilha de rabeta round! Pense numa esquerda sem fim! Eu fazia os movimentos de base e lip e só pensava em acelerar. Foi foda! Dali em diante, Pavones me marcou para sempre. Já voltei lá umas três vezes, e quero voltar muito mais.

PS - O que você recomenda hoje, para aqueles que estão começando e já têm aquele espírito competidor e querem se jogar nos campeonatos?

JA - Estudem geografia! Estudem as regras de competição! Façam meditação e melhorem a respiração!

Nada pior do que um atleta que não sabe descrever o vento, ou a corrente marítima e perde ondas mal posicionado. Conhecer o local da competição, entender as ondas previamente, as variações do pico, tudo isso vai fortalecer a competitividade do atleta. A competição é como um jogo de xadrez muitas vezes. Estratégia é fundamental e ela deve ser elaborada antes da bateria começar, fora do mar. Sem conhecer bem o livro de regras fica impossível. O atleta pode perder pontos preciosos cometendo interferências, ou gastar muita energia em busca de ondas sem potencial. Por isso a calma e a boa respiração ajudam dentro da bateria.

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