Tubo paga

Freesurfer Jonathas Filho relata experiência nas direitas perfeitas de Nias


Qual surfista, principalmente um regular, que nunca sonhou em surfar a direita de Nias?

5 de junho de 2017, exausto depois de 24 horas de viagem para chegar na tão sonhada direita de Pantai Sorak, Nias. Ao mesmo tempo da minha chegada, no mesmo dia, também tinha chegado um swell enorme, que explodia em toda Indonésia. As bombas estavam sendo avaliadas facilmente em 12 pés, logo no primeiro dia da minha primeira vez em Nias, o dia da bomba. Liguei ainda do aeroporto para o Barriga, folclórico nativo e proprietário da pousada Barriga Feliz, perguntando como estavam as condições, e o Barriga me dizia no telefone: "ten feet, twelve feet my friend, c... na mão, c... na mão!"

Ao chegar na pousada, o lendário Felipe Dantas, o qual possui exímio conhecimento daquela onda e que me deu várias dicas sobre a mesma, me alertou como estava perigoso. Mesmo sentindo o peso de uma noite não dormida no aeroporto de Medan, isso sem contar as duas horas e meia de carro do aeroporto para Lagundry Bay, e ainda sentindo o peso da viagem de três dias de Ilhéus para Bali, já estando contente por já ter surfado três bons dias iniciais de 4 a 6 pés em Uluwatu, ainda assim não resisti a fissura de entrar naquele mar, conhecer aquela direita, mesmo gigante e maral, e mesmo quebrando meu próprio protocolo de ir devagar, degrau por degrau no pico.

Resolvi logo depois do almoço entrar no mar com a minha 7 pés, carinhosamente apelidada de "jegona", pois segundo o gráfico que eu havia consultado, dizia que aquele horário seria o auge do swell e só tinha quatro pessoas na água.

Em Nias é muito fácil entrar pelo canal, mas no dia 5 de junho durante a maré cheia, o risco de ser lavado na bancada era eminente, foi quando escuto uma voz familiar chamando meu nome: "John, vai pra onde? vá por aí não, tá muito perigoso, vamos lá pelo começo da baía, eu vou com você". Era Léo Xerife, local do Barravento, com uma 7'7 quilha fixa, que seu amigo big rider Cly Loly havia lhe dado no Brasil.

Ele estava observando as séries, calculando um momento mais favorável quando me intercedeu, na hora colei com ele. Após quase sermos lavados, enfiando a perna inteira em buracos na bancada, entramos no mar, e Leo sempre dizendo "John, rema pro meio da baía, rema pro meio da baía, não toma na cabeça!", adrenalina a mil, ondas realmente impressionantes, tanto em beleza, quanto em força e tamanho.

Na água três brasileiros: eu, Léo Xerife e Lucas Silveira e mais quatro gringos. Depois de um remadão pela baía, e muita remada no pico, pois a movimentação de água a cada onda era muito intensa, cada onda sugava muita água, não parávamos de remar, quando derrepente sobrou uma da série pra mim, aí vem a primeira pergunta: como é que dropa uma caverna dessas? Double up com drop negativo, a coisa tava realmente séria, um gringo já havia quebrado o osso acima do olho (voltou comigo no avião dias depois), outras pessoas já haviam se machucado. Explodi na remada e dropei a primeira, dropezão enorme e veloz, e na sequência veio Leo.

Depois levei um tempo pra surfar outra onda, algumas horas observando muito como funciona aquela direita ressaqueada, peguei mais três ondas, e já fatigado, sem a mesma remada de explosão, não consegui entrar no que seria a minha saideira, quando tomei a temida série monstruosa na cabeça, após três ondas, sendo jogado bem pro fundo e escalando a cordinha 10 pés "cabo de telefone, fio de poste" que eu havia comprado. Minha prancha, que resistiu bem as porradas, sem dúvidas me salvaram de um afogamento. Sim, de um afogamento, não me lembrava de quando tinha bebido água em um caldo, e bebi muita, e não foi por falta de preparação, pois meses antes, busquei fazer treinamento de natação, apnéia e mergulho livre, o que também foi fundamental naquele momento.

Sobrevivi e estava amarradão, apesar de exausto, tinha surfado umas duas bombas, vi atuações incríveis de Lucas Silveira naquelas cavernas, também amarradão pela parceria com Léo naquela aventura inédita para nós. No dia seguinte o mar continuava monstro, séries de 9 a 10 pés, com algumas maiores, mas eu já estava mais familiarizado com o pico, e nos dias seguintes foi baixando gradativamente, proporcionando um dos melhores dias de surf da minha vida.

Na sequência voltei pra Bali e Middles, Uluwatu e Canggu foram os picos escolhidos, e no swell seguinte fui a Nusa Lebongam, "Bali dos anos 70", lugar lindo. Surfei ShipWreck e a tubular direita de Lacerations. Em Lebongam torci o joelho, ainda me recupero, e mesmo machucado, valeu os passeios de final de trip com minha esposa e os velhos e novos amigos, muita vibe positiva naquele lugar mágico.

Quero agradecer sempre a Deus por mais essa oportunidade, a todos os amigos nesses bons momentos, a Felipe Dantas pelas boas palavras e amizade, a Madinho de Floripa pelas dicas, Léo Xerife, a maravilhosa companhia de minha esposa Marta, e a Blue Sea Surfboards.

* O "cara do áudio" disse tudo!

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