Sonho indonésio
Grupo de amigos baianos relata surf trip inesquecível para as Ilhas Mentawai
Qual a viagem dos seus sonhos? Nove entre dez surfistas na hora que leram essa pergunta pensaram em Mentawai.
Como ela ficaria perfeita? Também nove entre dez surfistas responderiam a essa pergunta que seria com mais um ou dois amigos e que pudesse passar um mês em um resort ou em um desses super barcos que fazem as trips nas Mentawai.
Meu amigo e irmão Flávio Augusto realizou esse sonhos com mais dois de seus amigos, Alex, o Meleca e Daniel, o Rato.
Greenbush, Macaronis, Hollow Trees, Keramas e Uluwattu foram as pistas de treinos para esses três aventureiros durante um mês. Locais da Pedra do sal, Sítio e Camping, sempre tiveram a sorte de surfar na porta de casa picos como Rock Point, Paraíso e Munga. E para aqueles que não sabem, enquanto nós nem imaginávamos a potência e tubos da esquerda do Farol de Itapuã, no início dos anos 90, eles, com mais alguns amigos já desbravavam o pico tirando altos tubos, e a quilometragem na Pipeline baiana fez a diferença nas Mentawai.
Os três ficaram um mês na Indonésia hospedados em Macaronis Resort e Ombak Losmen em Lances. Surfaram ondas de sonho de 4 a 10 pés. Meleca e Flavinho são regulares e Rato é goofy, mas isso não afetou nenhum pouco a disposição dos caras para encararem direitas e esquerdas muito power e perigosas.
Conversando com Flávio ele me disse: "Fui na atitude, me joguei em tudo que vinha", disse Flávio. E os gringos reconheceram isso quando a noite conversavam jantando e vendo os vídeos do dia. As fotos dos seus tubos sem as mãos falam mais do que qualquer texto. O que também vale para Meleca, que encarou os tubos como se fosse o Havaizinho de Itapuã, dropando e colocando para dentro.
E o que falar de Daniel Castillo, o Rato? Flávio me contou que quando falaram para os fotógrafos que eles iriam encaram o power de Greenbush, os caras deram um sorriso de canto de boca sem acreditar muito neles. Dentro da água a história foi outra. Todos encararam com atitude e entubaram fundo, mas Rato era um show à parte.
Destaque todos os dias em todos os mares com gringos, brasileiros, competidores e freesurfers.
Para aqueles que não conhecem Rato, é um dos maiores talentos de todos os tempos que a Bahia já produziu. Tube rider do nível de Heloy Júnior e inovador como foram Hilton Issa e Léo Hereda em suas épocas. Quando moleque foi elogiado por ninguém menos que o ultra radical Dadá Figueiredo como o futuro do surf brasileiro. Talvez por ironia do destino não tenha se adaptado as competições, assim como o próprio Dadá, Matt Archbold e Christian Fletcher, mas no freesurf, com mar grande e tubular, ele é imbatível.
No Farol de Itapuã, em um dia muito grande, sentei e assisti o show de Rato em conjunto com Heloy, que eram os únicos a conseguir entubar na primeira seção, ficando mais fundo que todos. Por isso entendi o que Flávio me contou, quando eles chegaram em Greenbush na hora que Rato vinha numa série e todos os fotógrafos viravam suas lentes para ele, com a galera parada para assistir.
Era um drop seco, uma estolada, um tubo fundo e a saída com as mãos para cima depois da baforada.
Depois desse primeiro dia, todos os fotógrafos queriam saber onde Rato iria surfar e todos os gringos passaram a cumprimentar ele. Vou deixar que ele mesmo, o pintor das telas chamadas ondas, descreva a sua viagem, com as suas impressões, no belo depoimento que você pode ler agora.
"A realização da onda perfeita para aqueles que precisam planejar uma trip com maior antecedência, pode se tornar uma grande incerteza. Tempo, expectativa, investimento, todos são elementos que pesam, ainda mais quando não se pode aguardar os preciosos forecasts para a execução da viagem.
A ansiedade da escolha das datas no escuro foi se dissipando quando as previsões, já próximo às datas agendadas, indicavam condições excelentes para a janela escolhida.
Dias após nossa saída de Salvador e depois de transportados por ar, terra e mar, havíamos chegado ao paraíso das Ilhas Mentawai, na Indonésia, mais precisamente na ilha de North Pagai, onde quebra a cobiçada onda de Macaronis. A despeito de um fim de tarde mediano, a caída rendeu a primeira conexão com a onda e uma reciclada importante na nossa já dissipada energia durante a longa jornada. O dia seguinte seria o dia de acordo com tudo e todos, seria?Foi, mas antes de ser, tudo ainda era especulação e a noite que antecede o mar esperado, como todo surfista sabe, não é bem dormida.
Na madrugada os acordes que vinham da bancada (localizada ao lado do resort) alimentavam a alma e o imaginário. A necessidade da luz tomou outra dimensão.
Com a chegada do sol, o impacto visual. As ondas perfeitas ali, quebrando na cara, numa bancada repleta de vida e cores, e em condições de qualidade de direção e tamanho de swell, sem interferência do vento. A comparação a uma máquina de onda não é superlativa.
Tubos e paredes como telas em branco à espera da expressão pura de liberdade e interação que o surfista imprime na sua forma de conexão com o que há de maior para nós – o mar. Três dias intensos de liberdade expressiva que renderam os melhores momentos até então experimentados dentro d’água, compartilhando o line up com meus amigos e um crowd que a despeito de intenso a todo e qualquer momento, pode ser considerado “honesto”.
Nossa energia parecia estar conectada à onda já na primeira queda e o resultado foi uma condição de interação intensa e divertida durante o primeiro swell, com alguns bons tubos e curvas para todos.
No curso da semana, caímos em Greenbush em condições não ideais de swell (avisados de tais condições), tendo rendido um primeiro contato com a onda, que mesmo em condições desfavoráveis, exibiu sua capacidade de produzir canudos nervosos.
Com uma breve janela, nossa sorte mais uma vez bateu à porta e um novo swell entrou ainda no curso da semana, viabilizando além de Macca’s de qualidade, mais uma queda em Greenbush, agora em condições quase ideais.
Com o posicionamento do barco na baía que abriga a onda, a entrada de uma série operou a mágica em nossas almas e em instantes estávamos na água. Mesmo faltando um pouco de intensidade de sul na direção do swell, o vento estava terral e a onda estava funcionando com algumas raras conectando a complicada segunda sessão.
A disposição do Alex “Meleca” Giacomin, que de backside andou por dentro dos rápidos e mutantes canudos da respeitada esquerda que quebra sobre rasa e afiada bancada de coral foi destacada pelos que compartilharam o pico na sessão. Ao final deste dia tive a sensação concreta de ter atingido a expressão da liberdade que buscava com a trip numa esquerda que trazia o meu nome nela e que me permitiu as duas sessões em um só tubo.
Encerrada a etapa em North Pagai, decidimos pegar um barco de pescadores locais e rumar para a Ilha de Sipora, mais ao norte e lar de ondas como Lance’s Right, Left e a respeitada onda de Hollow Trees ou HT’s. Após as esquerdas, uma direita desafiadora e a notícia de um swell de boa intensidade para a semana nos impulsionaram para a outra ilha. A logística nunca é fácil, mas com boa vontade e um sorriso no rosto, portas se abrem com maior facilidade e conseguimos arrumar tudo, ainda que no meio de uma crise de abastecimento de combustível, o que por pouco não inviabilizou a viagem de 3 horas de canoa motorizada para o pico.
Na nossa chegada, percebemos que o swell havia se antecipado e já quebravam pesadas direitas sobre a bancada de HT’s, em frente ao pico que estávamos hospedados. As condições estavam desfavoráveis e as ondas fechavam em subsequentes double-up sem razão da fraca influência de oeste na direção do swell. A previsão dos locais e demais surfistas que ali já estavam, pessoas de vários cantos do mundo, era de dias melhores a seguir, o que acabou se confirmando nos 3 dias seguintes, com condições que variaram de razoáveis a excelentes, em janelas de horas.
Sem dúvida esta onda é um desafio para qualquer surfista, independentemente da sua base. Rasa, por vezes até demais na temida “Surgeon’s Table” (Mesa do Cirurgião) a bancada elevada onde acaba a onda é extremamente rápida. A quantidade de água que a onda drena da bancada impressiona.
Neste cenário e após todos nos ralarmos na bancada, literalmente, começamos a decifrar os contornos daquela onda mágica que nos fora descrita como uma mulher em seus mais variados humores. Deveríamos tratar a onda respeitando sua leitura, oscilações e mudanças, sempre intensas e integradas a outros elementos como maré, corrente e vento (algumas ondas exigem maiores esforços para a sua leitura). Flávio “Flavéuris” Santos soube melhor lidar com as condições desta onda arrancando tubos ocos nas direitas que vinham empenando na bancada muito rasa. Presenciei algumas negociações duríssimas que ele teve com o reef, sem que isso o impedisse de atingir seu objetivo estabelecido – por dentro.
No outro dia caminhamos para a onda de Lance’s Left, situada do outro lado da ilha e que tinha condições de vento favoráveis. Após a caminhada de quase duas horas pela vila bastante humilde e repleta de pessoas grandiosas, nos deparamos com boas condições de surfe numa longa onda de esquerda sobre bancada de coral, muito divertida e que talvez o surf mais soul da trip para mim, com arcos mais longos, alguns tubos e seções para colocar o drifting em ação. O surfe é antes de tudo, uma conexão, não uma performance.
Encerrada esta passagem pela Ilha de Sipora e consequentemente pelas Ilhas Mentawai, rumamos para Bali, onde tivemos a oportunidade de pegar mais um swell, agora de proporções mais intensas, ainda que em apenas três dias, em picos como Uluwatu, Impossibles e Keramas.
Uma viagem de surfe não se trata apenas de ondas e do desejo do surfista em pegar a onda perfeita ou sonhada. Mesmo que o surfista não especule tanto das pessoas que irá encontrar na viagem, quanto das ondas que pegará, percebe-se rapidamente que não se trata de uma viagem somente surf, mas numa interação entre homem, natureza, cultura e pessoas.
As pessoas, a começar com as que viajam juntas, são fundamentais para a manutenção do equilíbrio da trip. Neste aspecto acertamos em cheio e conseguimos fazer a coisa fluir sem percalços desnecessários. Quanto às demais pessoas com as quais tivemos o prazer de encontrar de uma forma ou de outra, eis a riqueza maior que se colhe de uma viagem. Em especial a simplicidade, educação, felicidade e grandeza espiritual do povo da Indonésia e as amizades formadas com todos aqueles que deixaram sua marca na trip. Obrigado e deixem que as fotos falem mais do que o texto", descreveu Daniel “Rato Mico” Castillo.