Parque indonésio
Luis Machado e amigos desfrutam do parque de diversões em Mentawai, Indonésia
No início de abril, viajamos para a Indonésia. Eu e mais quatro amigos deixamos esposas e filhos e partimos rumo a um dos pontos mais celebrados do surf mundial.
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Na mala, todos os equipamentos para surfar - pranchas, roupas e acessórios -, e na cabeça as imagens e informações que durante um ano de planejamento foram tomando conta do nosso dia-a-dia.
Foi um ano de treinamento, de preparo, treinamento que começa com o contato com a família (sem o apoio deles esse sonho seria impossível) e os outros parceiros que nos treinaram fisicamente e psicologicamente, por isso não poderíamos esquecer os amigos Adson e Alan Bonfim. A Indonésia é o sonho dos amantes do surf, é o intercambio perfeito, inclusive para camaradas que, como nós, já carregam anos de experiência.
Saímos de Salvador no dia 12 de abril à tarde, voos com parada em São Paulo e Dubai, para finalmente no dia 14 de abril aterrissar em solo indonésio. Chegamos à capital da Indonésia, Jacarta, e saímos para Padang no dia seguinte. Daí em diante só nos restava o mar até Mentawai, considerada pelos surfistas profissionais a Disneylândia do surf. O percurso de “speed boat” durou cerca de 6 horas (o dobro do convencional por falha de um motor), pois quem quer surfar tem pressa e era noite do dia 15 de abril quando fomos recepcionados pela natureza local. Era tempo de desfrutar da comodidade do Kandui Resort antes de ver o paraíso que a claridade do dia seguinte iria nos mostrar.
Mentawai é um conjunto de ilhas que fazem parte da província de Sumatra, situada no oeste da Indonésia. Com 70 ilhas, Mentawai é o caldeirão do surf mundial, e isso revistas e filmes sobre o surf já haviam nos mostrado. Agora era hora de experimentar, era o momento do sonho se casar com a realidade.
Depois de cada sessão de surf era hora de reabastecer o corpo, e uma boa alimentação é um item indispensável para quem se propõe a surfar de forma tão intensa como foi essa nossa aventura. Diferente da realidade do Brasil, com nosso rico cardápio em carnes, verduras, frutas, variedades de acompanhamentos, Mentawai não pode oferecer tanto. O cardápio era restrito, porém percebemos que isso era algo que fazia parte da viagem, afinal o que era preciso era entender os limites, e com um misto de coragem e humildade, desfrutar da beleza natural e da alegria da população local, pois o povo na Indonésia, especialmente em Mentawai, é de uma riqueza no trato com as pessoas que deixa para trás até nós, baianos.
Uma cultura com mais de 2.500 anos, com múltiplos dialetos, com herança cultural de holandeses, indianos, ingleses e tantos outros povos. Alguns lugares da Indonésia efetivamente passam para o turista a ideia do seu lema nacional “unidade na diversidade”, um lema bom também para o surf, pois com tantas ilhas e ondas diversas, apresenta uma unidade em beleza e força.
E falando em surf, começamos a nosso trip pelas direitas, surfando Nipussi, onde encontramos uma onda com muito volume, mas muito confortável de surfar, e também nos esbarramos no primeiro crowd e nos códigos de boas maneiras existentes em Mentawai, muitas vezes não respeitados por alguns surfistas desavisados.
Nos dias seguintes nos deslocamos para 4-Bobs, um reef em frente ao resort, local com ondas fáceis de serem surfadas, e Last Resort, uma onda tubular, perfeita, mas muito rasa e com uma correnteza muito forte.
No terceiro dia, ansiosamente conhecemos as esquerdas de Mentawai e conseguimos formar uma mini trip que seguiu até quase o fim da nossa estadia com as chegadas de Bassi, Robot e Greg, funcionários do Kandui que estenderam o tapete vermelho para nós e nos apresentaram Beng Beng, Hideways, Dog Reef e Good Times, picos eletrizantes e que nos deixaram a pampa de tanto surfar e nos fazendo acreditar que nas ilhas Mentawai você pode cair de uma onda e vem outra igualzinha atrás.
No quinto dia, chegou a hora da verdade quando o swell chegou ao ápice e surfamos Riffles, um pico sinistro, mas ao mesmo tempo desafiador e perfeito, pelo tamanho e pelos primeiros cortes em todos, e depois Bankvaults, onde as ondas mais difíceis ainda e com um tamanho maior ainda, e por último Burgerworld, Last Resort, Pistols, entre outros da região de Playgrounds. E assim concluímos nossa passagem por Mentawai, com a certeza de que criamos uma ponte para um possível retorno num futuro próximo.
Na madrugada do dia 26 de abril, chegamos a Bali, a famosa ilha com rica cultura hindu e com templos maravilhosos como o de Uluwatu e o de Ubud, que nos deu de presente o contato com a arte e religião local, especialmente para quem considera o surf uma forma de ligar o homem a Deus, pois o “surf é o mais natural que um esporte pode ser, é quando você se torna um só com a natureza” (palavras de Kelly Slater).
Como essa história obrigatoriamente tinha que ter um final eletrizante. O mar mais uma vez subiu e tivemos o prazer de conhecer a onda de Uluwatu com um tamanho elevado e que nos deixou fascinado com suas três seções e com tubos alucinantes, sem falar nos fotógrafos que não deixam de registrar nada do que foi executado no mar, e do agito nas escadarias de Uluwatu, misturando na mesma cidade o religioso e o profano de uma forma única com uma pitada de loucura dos que enfrentam a garganta deste pico tanto para entrar como para sair do pico, mostrando que mesmo assim vale muito a pena dropar nas ondas de Temples, Inside Corner, The Peak e Race Tracks.
No dia 2 de maio chegamos ao Brasil, com as marcas no corpo, tatuagens (cicatrizes) dos corais, mas com o coração carregado de saudade. Para finalizar, deixamos uma frase que víamos no resort em Mentawai que ajuda a definir a experiência: “O mundo é um livro e aqueles que não viajam leem apenas uma página” (Saint Augustine).
Não sei quantas páginas conseguimos ler, é difícil dizer quantas páginas a Indonésia representa no livro da vida, mas temos a certeza de que conseguimos, com essa viagem, ler páginas marcantes e ter a certeza que essa história está somente começando.