Adrenalina solitária

Adrian Vilas Boas, juiz da FBSurf, relata session divertida e perigosa no Picolino


Pois é, como disse Fau "Forest Gump", depois de um fevereiro flat com ondas de no máximo 1 pé, vem a semana do carnaval, parece supertição ou coincidência, mas toda semana de carnaval quebram boas ondas, e esse ano não foi diferente!
 
Tem 3 anos seguidos que tenho pego sempre na véspera do carnaval no Tonnys, que é uma onda boa e rara no bairro da Ondina. Pra quem nunca surfou ali, é um point break de esquerda com fundo raso de pedra revestida de pinaúna.

O pico é especial, apesar de urbano, tem um visual diferente, é adrenalina pura! As vezes, quando a maré começa a secar, o surf fica parecendo aquele jogo do Atari, RiverRaid, onde você tem que desviar o seu avião dos obstáculos, só que no Tonnys o avião é você e sua prancha e os obstáculos são os calhaus, três pedronas que aparecem na extensão da onda.

Adrena, por isso o surf lá é recomendado próximo do pico da maré alta. Na segunda-feira (1/3) peguei com meu amigo Zé lá, meio a um metro, com séries maiores de até 1.,5 metros. Deu pra tirar a cara! O Tonnys é um pico que, devido a longa remada, exige um certo preparo físico. Com 1 hora e meia de surf eu já tava no bagaço.
 
Na terça (2/3) surfei sozinho no auge da maré seca, praticamente suicídio, mas não resisti ver o pico quebrando sozinho, e como só tinha aquele horário disponível, me joguei!

Maró ficou filmando das pedras séries de até 2 metros, mas pelo fato da maré estar no osso, o posicionamento para poder aproveitar essas séries sem se acabar nas pedras era difícil de encontrar e quase que acabo me dando mal em algumas situações. Várias vezes tive que puxar o bico, pois na base do drop a bolha virava um pedrão, mas deu para pegar as de 1 metro, peguei várias e me diverti apesar da adrenalina.

Maró caiu no melhor horário e pegou altas! Na quarta-feira (3/3) resolvir escoltar alguns picos para cair na melhor condição possível, os picos da zona sul estavam todos quebrando altas, um crowd monstro no Espanhol, Farol (todos os Longboarders do Sesc foram parar lá), Barravento, Tonnys, praia da Onda, Torrefação bombando com poucos na água. Entrei em contato com Gil (ASPI) e ele me disse que pegou altas em Aleluia (cerca de 2,5 metros) no dia anterior (nessa mesma queda que Fau comentou) e aí comi a pilha.

Munido de minha "gunzeira" 6.5, encaminhei para Pituaçu para conferir o Alex / Picolino, local que tem um reef de outside que lembra Scar Reef! Tinha altas, bombando expressos que de fora pareciam ter cerca de 2 metros.
 
Liguei para Fau para saber alguma notícia sobre os picos da região de Stella, pois estava na dúvida se subia mais ou caia no Alex, depois de várias ligações finalmente ele atendeu e me falou que tinha acabado de sair do Aleluia e que tava bom lá.

Acho que ali cometi o primeiro vacilo do dia, ou seja, continuei subindo o litoral, passando pela Terceira Ponte, Jaguaribe, Piatã, depois Corrente, Stella e finalmente Aleluia. Todos esses picos sem canal e com arrebentação considerável! Ao observar Stella, vi um boa onda sendo surfada e fiquei empilhado a cair ali, mas fui conferir Aleluia e no meio do caminho encontrei Fau.

Fiquei analisando Aleluia, que naquela hora já estava meio empapuçada, a parede mais deitada, sem o mesmo power que vi em Stella. Voltei para Stella e me preparei para cair, enquanto isso de olho no mar que pocava uma atrás da outra, e naquele momento fechando a maioria, bem diferente da onda boa do cara que eu tinha testemunhado meia hora antes.

Já na beira pensando se realmente valeria a queda ali, vi um cara malhadão passar o maior perrengue pra entrar, simplesmente o cara não conseguiu varar o quebra-coco, e em poucos minutos a correnteza jogou ele lá na frente da casa de Rocão e o cara acabou desistindo (para não dizer expulso), e veio até a mim: "Man, tá difícil, quando o mar dá um refresco e parece que você tá chegando ao outside, vem uma bomba e te amassa, e toda a remada que você deu já era".

O cara tinha disposição, tentou novamente mas não conseguiu! Isso durou mais ou menos uns 20 minutos e nesse tempo o único cara que estava lá dentro não desceu em nenhuma onda, daí decidi voltar para o Alex em Pituaçu.
 
Chegando lá, ninguém no pico e as linhas perfeitas, de fora pareciam ter 2 metros. Arrebentação difícil, menos agressiva que a de Stella (shorebreak), mas com um percurso de remada muito mais longo para se chegar no pico - é como um Scar Reef sem canal, o surfista tem que varar os espumões a partir da beira, mas com um refresco legal.

Calculei que dava pra chegar, olhando da pista que está em um nível muito mais alto que o do oceano, parecia menos difícil do que era na realidade. Fui, me joguei na hora do refresco, me senti confiante, mentalizando o mantra de Ganesha, o removedor dos obstáculos, e fui passando as ondas sem dificuldade, já estava bem pra dentro do mar achando que já tinha passado toda zona de impacto e comecei a remar mais na diagonal para me posicionar no pico com referência no posto do salvamar de Pituaçu, e nessa hora é que o horizonte virou um tsunami.

Remei pra caramba e passei toda a série de cinco ondas no limite, com o coração batendo na boca, arrependido de estar ali naquela situação com um medo incrível, sozinho em um pico de outside varando uma ondulação de 2.5 metros (não sei se motivado pela circunstância, mas me pareceu que as ondas tinham cerca de 9 a 10 pés, mas a paranóia maximiza tudo!).

Não tomei nenhuma onda dessa série na cabeça, mas rolou uma adrenalina de cabreragem, não me sentia confortável ali, pensei em minha filha, o que fez aumentar a vontade de sair dali. Consegui me acalmar relativamente, controlando a respiração, desacelerei um pouco o coração. Já surfei ondas maiores e mais radicais, com maior grau de dificuldade, 9 pés no platô de Stella, Corrente, Cacimba, Boldró, mas ali, naquele momento, o pânico vinha do lance de estar sozinho e muito longe da praia.

Comecei a remar ainda mais pra fora e inacreditavelmente surgiu, bem lá fora, uma série linda, fui remando a todo gás em direção ao paredão no dilema se virava para tentar pegá-la, mas amarelei, e acabei tomando a segunda onda da série na cabeça tentanto furar, nisso grudei na prancha, rodei no fundo com o turbilhão, mas não larguei a prancha com medo e na real acabou que foi até tranquilo, o medo é que deixava a situação mais crítica potencializando o drama.

Pra me tranquilizar, depois disso veio outro intervalo e remei bem pra fora, e melhor posicionado peguei a primeira da próxima série, doido pra estar em terra firme. Foi uma direitona de 2 metros estilo Sunset, sai riscando a parede só fazendo curvas a mil, turns, alisando, surfei quase uns 100 metros de extensão até a parede virar um espumão enorme, então deitei na prancha e fui com o espumão até a areia em frente ao posto do salvamar, sentido o paradoxo conflito de emoções: extase de surfar um onda daquela e o medo de ficar lá fora sozinho novamente correndo o risco de tomar uma série na cabeça.

Essa foi a session mais rápida e intensa da minha vida - 27 minutos de doidera!
 
Fui em direção ao posto para tomar banho de chuveiro, e os salva-vidas me cumprimentaram, amarradões com minha atitude, sem saber do cagaço que passei. Trocamos uma idéia e falei que o medo me dominou lá fora, sozinho, blá, blá, blá, e ai um deles disse: "ontem dois caras tentaram surfar aqui nessas condições e se deram mau, tomaram várias na cabeça, perderam as forças e tivemos que entrar em ação, você entrou e saiu numa boa".
 
Conclusões:

O medo é uma droga, o psicológico abalado lhe bota no terror;
Hoje tenho muito mais respeito do mar do que antes;
Não surfo mais sozinho em um pico de outside desse nível, mas se tiver um parceiro...
Vou comprar um leash para onda grande...
Hoje prefiro um mar de 1,5 a 2 metros divertido do que algo maior e mais arriscado;
O que me arrasa em mares maiores é a falta de um canal e o fato de você estar sozinho.
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