Viajar purifica a alma

Binho Bandeira conta sua história de viajante e revela o prazer de conhecer a Indonésia


Todo surfista que é tocado pelo "soul surf" sonha em surfar as ondas que o levará a realizar seu instinto desbravador e pacifico.

Para mim essa aventura começou em 2005, quando trabalhava como professor de natação na extinta Nado Livre, em Salvador, e quando conheci meu amigo Daniel, baiano de nascença e australiano por opção.

Depois de algumas conversas, floresceu em meu coração de surfista a ideia, real e possível, de conhecer a Austrália e poder surfar as ondas só conhecidas através das fotos de revistas.

O sonho tomou conta da minha realidade, pois acordava e dormia pensando ?Austrália é possível?. Tudo que eu sabia da Austrália naquele momento não era muito: cangurus, língua inglesa, altas ondas (perfeitas) e onde um dos meus ídolos, Luke Egan, nasceu.
 
Daí para a realização do sonho foi um pulo, pois juntei uma imensa e determinada vontade com o tal do destino. Resolvi toda a parte burocrática de visto, passaporte, formulários, grana emprestada para curso e passagem aérea (como professor não tinha nem um pé de meia) e, sem falar uma palavra em inglês, desembarquei em Sydney no dia 7 de outubro de 2005, com o visto de estudante pelo período de 6 meses. Ah, e 500 dólares no bolso! Dinheiro para, no máximo, duas semanas.

Início difícil. Fiquei perdido com todo aquele povo falando outra língua que eu não podia entender, sem falar na necessidade urgente de arrumar um trabalho para manter as despesas mínimas e pagar minhas dívidas no Brasil.

Bateu a tristeza, especialmente pela incapacidade de comunicação, e quase desisto do sonho. Saudades da filha, da família, dos amigos, do acarajé e do vatapá. Da água quente do mar, do conforto do lar.

Através de telefonemas, ia amenizando o sofrimento. Palavras amigas de incentivo e consolo foram me deixando mais forte e confiante. Assim pude ultrapassar a fase do banzo e tudo foi ficando mais claro. Trabalho duro, correria e muita fé em Deus iam preenchendo o vazio do peito. Fazendo de tudo um pouco: cuidando de cavalos, limpando estábulos, limpando escolas e prédios, lavando pratos na noite..., e, de três anos para cá, armando ferro na obra, o chamado "steel fixing".
 
Com o aperfeiçoamento do inglês e ganhando melhor, pude mudar para um apartamento ao lado da praia, onde surfo praticamente todos os dias após o trabalho. Sem contar as amizades que fiz durante esse tempo, que são gratificantes quando se pode partilhar bons momentos, alegrias e experiências com pessoas de diferentes partes do mundo, dentro e fora d?água.
 
Sim, porque a Austrália é um país multicultural. Aqui realmente se anda nas ruas ouvindo pessoas falando japonês, árabe, chinês, alemão, francês, português, e inglês, é claro.

Assim, estando com a casa em ordem, pude fazer minha primeira grande viagem, a Nova Zelândia. Foram 25 dias viajando por todo o país de carro com minha esposa. Primeiro a ilha norte, onde curtimos as perfeitas ondas de Raglan em pleno reveillon de 2008.  Ainda conhecemos as ondas de Monte Maunganui e de toda a região de Bay of Plenty.

No Sul, as ondas de Kaikoura, Dunedin, Saint Clair, e os deslumbrantes lugares que são Te Anau, Queestown, Milford Sounds. Este país é de uma beleza inesquecível.

De volta para Austrália, trabalhamos mais 8 meses juntando grana para outra viagem. Dessa vez para o sonho chamado Indonésia. Desembarcamos em Bali onde curtimos as ondas locais de Uluwatu, Padang Padand, Impossible, Dreamland, Balangan, ufaaa.... depois partimos numa aventura de carro para Sumbawa, passando por Lombok.

Em Sumbawa, nos instalamos numa pousada em frente ao Lakey Peak, e daí foram 10 dias de pura emoção, diversão e muito surf. Ondas perfeitas para esquerda e direita, além do pico ao lado, Lakey Pipe, com uma onda mais tubular.

Na volta paramos em ScarReef, Lombok, onde existe uma pousada bem maneira em frente ao pico, confortável, boa comida e bom atendimento. Fizemos uma parada em Kuta, também em Lombok, onde surfamos em Maui, linda praia.

Em Lombok o surf não foi dos melhores, mas a energia estava sempre em alta. De volta para Bali, curtimos mais cinco dias de ondas na Uluwatu sempre constante.  E assim completamos um mês de férias bem curtidas e voltamos para casa com a alma lavada e a cabeça feita para enfrentar a realidade da rotina de trabalho.

A busca pelas ondas perfeitas não para. Ano passado passamos nosso reveillon em uma van viajando por toda a costa norte australiana de ponta a ponta. Saímos de Sydney e percorremos mais de 1000 km de costa, surfamos lugares lendários como: Crescent head, Noosa, Lenox Head, Snapper Rocks, Cofs Harbour, Newcastle e etc.

Gosto muito de viajar e conhecer novos lugares, culturas locais, ondas diferentes, fazer novas amizades e aprender um pouco com as pessoas. As viagens fortaleceram ainda mais meu amor pelo surf e me direcionaram para outras formas de explorar o surf, numa abrangência de estilo de vida, no ataque ao lip de uma onda, num simples Hang Five, no experimento de outros equipamentos, ou de buscar felicidade numa simples caída para se divertir num body surf (o famoso jacaré!).

Então, como de costume, voltei à rotina novamente. Acordar cedo e trabalhar, mas sempre no intuito de surfar boas ondas nas folgas e nos feriados. Foi então que chegou o feriado da páscoa, que coincidiu com minhas férias na escola, e não pensei muito: comprei minha passagem para Indonésia e parti em busca das ondas da ilha de Bali.

Desta vez fiquei somente em Bali e surfei os picos ao redor. Deu tudo certo, peguei boas ondas todos os dias em todos os picos que optei surfar, inclusive Uluwatu, que em minha opinião é a onda mais constante do mundo. Podem acreditar, 1 metro de onda, no mínimo, todos os dias, água quente, fundo de pedra e variedade de picos como, Inside Corner, Temple, Secret e Outside Corner.

Permaneci 12 dias no paraíso, onde surfei alguns dias por 4, 5 horas sem sair da água e ainda tinha gás para fazer sempre um final de tarde em algum lugar diferente para ver o pôr-do-sol de dentro d?água.

A Indonésia purifica a alma de qualquer surfista. Hoje, após duas semanas que voltei de Bali, as ondas que peguei e os lugares em que passei continuam na minha mente como se fosse ontem.

Gostaria de agradecer ao portal SurfBahia por ter me dado a oportunidade de contar um pouco da minha história de vida e amor pelo surf e aproveitar o espaço para mandar uma vibe positiva para todos os surfistas e pessoas que tive a oportunidade de conhecer em todos os lugares onde passei, em especial a toda galera da Cidade Baixa (Salvador), pois foi onde tudo começou!
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