A verdadeira essência

Ingrid Topolanski descreve os três meses de aventuras percorrendo as ilhas da Indonésia


Uma viagem que marcou minha vida, um divisor de águas. Por três meses na Indonésia, pude experimentar sensações que nunca tinha sentido antes, como atleta e como ser humano. Cheguei ao êxtase surfando ondas incríveis, mas também achei que ia morrer após um alerta de tsunami.

Tudo começou com uma ligação do meu sogro dizendo que esse ano eu tinha que ir pra Indonésia, pois eu viveria uma das melhores aventuras da minha vida. Ele é um cara sábio, meio guru e tinha toda a razão. Apesar das dificuldades, era uma oportunidade de vida imperdível. Viajar pela Indonésia durante 3 meses, podendo viver a verdadeira essência de cada lugar, aguardar o swell entrar em cada pico, era um sonho, era diferente do que vivi na temporada anterior, era diferente de qualquer coisa que já vivi. Me organizei, me desdobrei e fui com meu namorado, as pranchas, a cara e a coragem.

Depois de passar três dias viajando de Cabrália a Bali, a primeira aquisição da trip foi uma barraca de camping e uma bela feira saudável. Em Bali nos encontramos com a família e amigos e com um motorhome e um carro alugado, partimos pro primeiro destino da trip: Desert Point.

Eita Desert Point! Já comecei a trip logo com o meu maior desafio. Ainda não conhecia a onda pessoalmente, mas sabia da sua perfeição e perigo. Nunca vou esquecer a cena que vi logo quando cheguei: uma cabra cabeluda caminhando de boa pelo vilarejo, um cara entubando numa esquerda grande e perfeita e na areia meu sobrinho Antônio Pedro correndo de volta pro mar com o queixo recém costurado. Foi uma chegada épica, um espécie de it´s on. Já era final de tarde e a primeira missão foi armar a barraca lá no Ziggy, logo em frente ao Grower. Quero aproveitar pra agradecer a esse cara incrível, que nos acolheu tão bem. Sem dúvidas, Desert foi a onda mais desafiadora. Teve um mar que eu entrei e lá de dentro eu pensei: "misericórdia, como é que eu vou sair agora?" (risos, de nervoso). Foi lá que eu presenciei o espetáculo mais incrível de surf que já vi pessoalmente, os maiores swells dos últimos tempos na Indo, grandes nomes do surf dando show dentro d’água, foi demais! A galera me incentivava muito e isso me ajudou bastante a evoluir naquela onda. A vibe em Desert estava tão especial, que rolou até casamento, o Pedro Tojal e a Bombom celebraram o amor numa cerimônia muito emocionante nas areias do Grower. Eu me esforcei para pegar o buquê, porém fui nocauteada pelo Gordo (Felipe Cesarano), que figura! (risos). Depois de 17 dias acampados em Desert, nosso próximo destino era a Ilha de Sumbawa.

Acampar tornou-se natural, esquecer um pouco as vaidades femininas, lavar os pratos no mar, dormir com o som das ondas, sentir medo, sentir liberdade. Eu e o meu namorado dormíamos na barraca e a galera no motorhome. Dividíamos as funções do dia-a-dia, os gastos, as alegrias e os perrengues. Estes últimos foram vários, como uma boa surf trip que se preze. O gerador do motorhome deu ruim, esquecemos a chave dentro do carro, o motorhome atolou, e por aí vai. Mas perrengue brabo mesmo, a gente passou foi com os terremotos.

Numa noite tranquila, acampados na praia de Scar Reef, em Sumbawa, estávamos jantando, quando de repente, o chão começa a se mexer de um lado para o outro. A gente se olhou e vimos que a parada era séria. Como no local não tinha internet pra checarmos a gravidade do sismo, tínhamos que sair dali por medida de segurança e para buscar informações. Ou seja, não tinha como saber se havia um tsunami a caminho naquele momento, simples assim. Eu tremia igual vara verde, era a primeira a pular no carro (depois a resenha era certa). Chegando em cima do morro, aguardamos e até então não havia alerta de tsunami. Decidimos descer e encontrar alguns amigos brasileiros. Conversa vai, conversa vem, quando de repente, toda a cidade começa um processo de evacuação. Um alerta de tsunami tinha acabado de ocorrer na cidade vizinha e poderia atingir o local que estávamos. Foi um dos momentos mais tensos de toda a minha vida, eu realmente achei que poderíamos morrer ali. O pânico se instalou, toda a população corria ao mesmo tempo em direção ao morro, crianças chorando, pessoas desesperadas em choque, um terror. A gente não sabia a real proporção do que estava acontecendo, se a maré já tinha secado, se o tsunami já estava a caminho, só queríamos sair dali. Com o carro lotado, subimos o morro em alta velocidade, sem saber direito pra onde ir. O trânsito estava uma loucura, tudo era incerto. Até que chegamos em um local bem alto e decidimos passar a noite ali, na beira da estrada, sem saber o que íamos encontrar quando descêssemos de volta à praia. Foi uma longa noite, de medo, mas também de muita gratidão e aprendizado, estávamos vivos. O alerta de tsunami foi retirado e pudemos voltar para o acampamento. Os próximos dias depois desse acorrido também foram marcados por terremotos, de proporções menores, porém o procedimento era o mesmo: subir o morro e aguardar. Foi o período mais difícil da trip.

Mas como depois de toda a tempestade vem a calmaria, logo depois passamos dias de sonho explorando os paraísos da ilha. Um dos picos de surf que mais marcou a trip foi Lakey Peak. Versatilidade e performance definem bem o lugar. Esquerda, direita, tubo e uma escola de manobras. Pra resumir os dias em Lakey Peak, como meu amigo Marcelinho Alves sempre me dizia: lavei a jega!

Cruzamos as ilhas de Sumbawa e Lombok, voltamos para Bali e começamos uma nova etapa da trip. O motorhome seguiu com nossos sobrinhos Antônio Pedro, Jurgen Marinho e o pai Bruno Robles para G-Land e nós estávamos com passagem marcada pra Nias. Antes de embarcar para a minha direita preferida, não podia deixar de conhecer Ubud. Foi um lugar que me marcou muito espiritualmente. Visitamos os templos, os arrozais e os mercados locais. Aproveitamos muito a gastronomia e também curtimos a vibe nas clássicas Uluwatu e Padang. Bali é uma ilha mágica, onde tudo acontece.

Outra ilha cheia de magia é Nias e eu tenho uma conexão muito forte com esse lugar. É uma relação de gratidão. Nias me fez sentir os maiores êxtases no surf, me ensinou muito e as pessoas sempre nos receberam como uma família. Nessa temporada passamos 25 dias lá e rolaram altas! Eu me senti mais confiante por ser minha segunda vez na ilha e também por já estar no final da trip. Estava treinada físico e psicologicamente para pegar ondas um pouco mais pesadas do que na temporada passada. Foram as melhores sessões de surf da trip pra mim, inesquecível. Nias marca pelo surf, mas também pelo amor. Muitas crianças fizeram parte do nosso dia-a-dia e tornaram tudo mais especial, assim como os donos da pousada que nos hospedamos, a Eka e o Rick.

O amor sempre é a melhor parte da viagem, e da vida. Conheci muitas pessoas especiais ao longo dessa jornada, de vários cantos do mundo. Conheci muitos lugares incríveis. Me superei enquanto atleta e pessoa. E essas conexões, descobertas e superações me fizeram conhecer uma nova versão de mim mesma. Quando dizem que viajar é renovar a roupa da alma, que abre a cabeça, é bem verdade. Me sinto renovada pra iniciar uma nova fase da vida e só tenho a agradecer por todas as "ondas" que passei. Mahalo!

*Para conhecer mais sobre a atleta, confira seu perfil @ingridtopolanski no Instagram.

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