Música, arte e adrenalina

Fissurado por música, arte, skate e ondas grandes, baiano Rick Brayner conta sua história direto de Maui, Havaí


Cenário de momentos espetaculares na história do surfe em grandes ondas, a ilha de Maui, no Havaí, tem uma forte conexão com os baianos. Foi lá que os Mad Dogs revolucionaram o surfe na remada em em Pe´ahi, pico também conhecido como Jaws. Assim como o trio, outros baianos também criaram uma bonita história com a ilha e já se aventuraram nas bombas de Pe´ahi, como Rick Brayner.

Antes de seguir o caminho do irmão, Muck, e arrumar as malas para se mandar para o Havaí, Brayner se dedicava à faculdade de Arquitetura na UFBA e à banda Superfly, que o projetou na música como guitarrista e compositor.

Fissurado por esportes como o surf e o skate, Brayner era frequentador assíduo da praia do SESC, em Jaguaribe, nos anos 90, e, nos dias de ondas mais perfeitas, costumava dar uma “escapada” das aulas para surfar em Scar Reef e outros picos do litoral norte. “Na época, pouca gente conhecia essas bandas e as ondas dali. Ia sozinho na maioria das vezes, e curtia esse lance de ficar na minha e não ter ninguém em volta, que tenho até hoje”, conta o baiano.

O primeiro big swell na Bahia

Em 98, no Farol de Itapuã, Rick Brayner teve a sua primeira experiência em ondas pesadas. Ele tinha 22 anos e pegou uma prancha 7´6 shapeada a mão pelo lendário havaiano Gerry Lopez. "Foi com essa prancha que Muck surfou em Pipeline e acabou sofrendo um acidente em um mar gigante, com ondas de 12 pés plus. Devido a isso, teve que voltar ao Brasil antes da data prevista. Talvez ele nunca voltasse pra lá se não fosse por isso", diz Rick.

Chegando ao Farol, o baiano se deparou com um cenário desafiador. Apenas o legend Maurício Abubakir estava na água. Ninguém mais. Rick Brayner nem sabia por onde entrar. "Peguei a prancha e me joguei pelas pedras. Fui arrastado pra muito longe e tomei várias séries na cabeça, mas finalmente consegui entrar", lembra. "Quando cheguei lá fora, nunca vou me esquecer da cena de Maurício dropando uma bomba na minha frente. Foi surreal, nem parecia que eu tava em Salvador. Parecia um filme do Hawaii!", diz Brayner.

Depois de batalhar para se encontrar no pico, Rick Brayner finalmente partiu em direção a uma série e pegou uma das maiores ondas que já surfou em Salvador. "Anos depois, já aqui em Maui, entrei em contato com Maurício e relatei esse dia pra ele. Para a minha surpresa, ele se lembrava de tudo. Me disse que eu ´tava com cara de assustado´. É verdade, eu tava. Mas encarei e dropei uma bomba sem nem ter muita noção do perigo que era estar ali. Eu me jogava nos dias maiores na época, mas aquele tamanho era bem maior do que eu tava acostumado", revela Brayner.

No mesmo swell, no dia seguinte, e já um pouco mais confiante, o baiano foi surfar na Pedra que Ronca, logo ao lado. Estava ainda maior e com poucas cabeças na água. Estranhamente ele se sentiu muito à vontade e estava com uma prancha havaiana nos pés, perfeita pro dia. "Peguei várias, mas lembro que já quase de noite, resolvi pegar uma última pra sair, e foi quando vaquei pela primeira vez naquele dia. Foi horrível. A prancha quebrou no meio e dois surfistas me ajudaram, pois o caldo foi forte, já quase na pedra. Quando saí do mar, eu tava na altura da Pedra da Sereia e já estava tudo escuro. Foi um sufoco, mas a sessão foi inesquecível. Nunca mais vi daquele jeito, igual àquele dia", recorda.

Da Bahia para a Europa

Os anos foram passando e Rick Brayner acabou escolhendo a música como profissão e largou a faculdade de Arquitetura em 2002, no auge da banda Superfly, entre viagens, clipes e festivais pelo Brasil.

No ano seguinte, ele optou por se desligar da banda e encarar a música de uma outra forma. "Resolvi ir para a Espanha estudar música. Fiquei 5 anos em Barcelona estudando no conservatório Liceu e surfando quando dava, em Barceloneta e nas viagens pela Espanha e pela Europa quando ia tocar. Mas não era uma prioridade, meu foco era a música", diz Brayner.

Já nessa época, nesse período entre 2007 e 2012, ele se correspondia com Yuri Soledade e Danilo Couto através de mensagens, e dizia aos amigos que “um dia, quando acabar a escola de música”, iria para Maui surfar ondas grandes, que era seu sonho. "Eu me lembro que, em uma dessas mensagens, Yuri me respondeu: 'Primeiro termine sua missão ai'. Incrível como isso ajudou na época", lembra Brayner.

Rick Brayner retornou de Barcelona para Salvador em 2012, e imediatamente voltou a surfar quase todos os dias. Começou a trabalhar com música e viajava direto com a banda Asa de Águia como guitar tech de Durval Lellis. "Aliás, ele sempre se amarrou no fato de eu surfar, pois ele pegou muita onda no SESC também e eu me lembro dele lá várias vezes quando era moleque ainda", diz Brayner.

Trip solitária

Depois de juntar uma grana por uns anos, finalmente, em 2014, Brayner resolveu mudar o rumo da sua vida novamente e fazer o que sempre quis: ir para Maui surfar e viver a cultura do surf como estilo de vida, e viver de arte.

Em Barcelona, ele já tinha tomado gosto pela fotografia, por influência do seu pai, que é artista plástico. Então, antes de ir pra Maui em 2014, decidiu fazer uma viagem de 6 meses, sozinho, pela América do Sul, Austrália e Indonésia. "A ideia era coletar material sobre a cultura do surf, conheçer pessoas, shapers, surfistas, enfim, todos aqueles que eu só conhecia em revista", conta Brayner. "Levei 3 pranchas, meu violão, câmera e uma interface de áudio pra compor música onde eu estivesse".

Rick Brayner surfou em Punta de Lobos, Chile, depois foi direto pra Austrália, onde encontrou os amigos André Teixeira, na Gold Coast, e Dimas, em Perth. Na costa oeste, o baiano pôde se aprofundar muito mais na cultura local. Na mesma trip, visitou a fábrica original da Bennett Foam, conheceu e surfou em vários picos das praias do norte de Sydney. De lá, foi pra Indonésia e ficou viajando por mais 3 meses em diversos lugares, primeiro em Bali, depois Sumbawa e, por último, Sumatra. Sempre documentando tudo.

"Foi uma realização pessoal e uma guinada ao mesmo tempo. Tudo ficou mais claro pra mim, e pude, enfim, me programar pra ir a Maui com uma ideia mais formatada do que eu iria fazer dali em diante", explica Brayner.

Rumo ao sonho havaiano

Na sequência da Indonésia, foi a Salvador por 20 dias e logo embarcou para Maui. "Foi uma sensação boa rever amigos antigos na ilha depois de tanto tempo, e pude ver com os meus próprios olhos tudo aquilo que meu irmão ficou me contando durante anos. Parecia que eu morei aqui a vida inteira, essa era a sensação", conta o free surfer.

Yuri Soledade, Danilo Couto e Márcio Freire já eram conhecidos como os “Mad Dogs”. Eles e Jojoba já estavam completamente estabelecidos e reconhecidos no Hawaii.

"Cheguei com muita vontade e encantado com o lugar e sua magia incrível. Caí em todos os mares grandes que tive oportunidade, mas sempre cutucando os Dogs pra me levarem a Jaws. A galera, inicialmente, achava que não era uma boa, e que faltava um pouco mais de experiência, então continuei surfando e ganhando confiança a cada sessão no North Shore de Maui", lembra Brayner.

A primeira vez em Jaws

No dia 23 de janeiro de 2015, em Jaws, um dia depois de o pico quebrar grande, a galera estava toda reunida na casa de Yuri e Brayner mais uma vez pediu pra ir junto com os Mad Dogs. "O report do dia era que tinha caído pra uns 15 pés, tamanho médio, então Danilão achou que eu poderia ir com a condição de ficar no canal só vendo o 'movimento', sem tentar surfar ainda", lembra Brayner. "'Ok', eu disse (risos)".

Como Rick Brayner estava sem prancha e equipamentos adequados, eles foram ao depósito de Yuri, que achou uma 9’4” velha que ele nunca usava. Não era a melhor opção, mas era o que tinha. Só faltava um vest, ou wet suit com pads, pra ao menos ajudar na flutuação num possível caldo, mas não havia um disponível. Mesmo assim, Brayner decidiu ir "no couro".

"´Pelas pedras!´, disseram os três, o chamado ´old school´. E eu topei claro!", conta Brayner.

Quando chegaram a Jaws, eles notaram que o swell não havia diminuído tanto, o que deixou Danilo preocupado. "Quando eu cheguei lá embaixo nas pedras foi que eu tive a real noção de como aquilo era cabuloso. Cena de horror vendo neguinho saindo quebrando prancha e tudo mais", revela Brayner.

Mas, sem dar tempo pra pensar, Danilo Couto se jogou primeiro e Rick Brayner era o segundo da fila. Márcio Freire estava logo atrás dele e o filmmaker Kako Lopes também estava com o grupo. Tudo foi registrado das pedras por Bruno Lemos.

"Eu respirei fundo e me joguei e remei como nunca na vida. Passei no limite, o que já foi uma vitória. Como eu estava sem nenhuma proteção, nem mesmo um wetsuit, eu sabia que não podia errar", continua. "Entrei e segui a recomendação de Danilo. Fiquei ali um pouco à frente dos barcos, 'no rabo' do west bowl", comenta Brayner.

Quando viu a primeira série entrando, ele ficou impressionado. "É grande a diferença de um mar grande pra um gigante. É outra escala", conta.

Depois de um tempo, ele resolveu se aproximar mais da zona de arrebentação. "Remei cada vez mais próximo das ondas. Lembro que passei a minha primeira série. Nesse ponto, todo mundo tava disperso e eu já tava no bolo... Depois de um tempo ali tentando me achar, acho que bateu aquele lançe que rolou lá atrás, no Farol de Itapuã. Foi quando entrei mais pra baía e remei forte pra uma onda", lembra Brayner. O drop foi animal, no timming certo. Ao mesmo tempo em que eu não acreditava que aquilo era possível, eu tava ali deslizando naquela montanha. Foi pra sempre aquilo, mudou tudo, eu acho. Lembro que dei um grito no fim da onda, já no canal. Acho que essa onda me mostrou que tudo era possível".

De lá pra cá ele não parou mais, e a cada ano eu ganha mais confiança e sobe um degrau.

Acidente em Jaws

Ironicamente, neste ano de 2020, ele caiu pela terçeira vez na temporada, na mesma data em que surfou pela primeira vez em 2015, no dia 23 de janeiro. "Essa última temporada foi especial, pois foi a que eu me senti mais à vontade, e foi a que eu peguei mais onda e estava com um condicionamento melhor", diz Brayner.

Mas, no dia 23, ele teve um acidente horrível. "Fui com meu parceiro de Jaws, Márcio Viana, e o mar estava grande e muito perfeito. Eu estava bem tranquilo. De cara, remei pra uma bomba, mas infelizmente não consegui entrar, e quando olhei pra trás, vi aquela parede se armando e tomei a série toda na cabeça", lembra Rick Brayner. "Meu resgate, já do lado das pedras, foi crítico e teve algumas tentativas por parte da equipe local de salvamento, que se esforçou muito pra me tirar dali. Na segunda vez em que o jet ski se aproximou, eu peguei errado no sled e enganchei meus dedos nas cordas, daí o jet-ski acelerou rápido e me puxou, fraturando dois dedos da mão esquerda e dois da mão direita".

O baiano vê tudo como aprendizado. "Faz parte. Tomei a série toda e fiquei calmo o tempo todo, e achei irônico quebrar os meus dedos já depois de ter passado por aquela situação toda. Podia ter me afogado facilmente depois de cinco ondas na cabeça, mas o que aconteçeu foi o contrário, eu resisti em momento nenhum fui ao limite. Mas a gente sempre aprende algo", fala Brayner.

Paixão pela arte

Em Maui, Rick Brayner passou a fotografar profissionalmente, e teve até uma exposição de fotografia em outubro de 2017 chamada “Colors Of Maui”, que dá nome a um dos seus canais no Instagram, @colorsofmaui. Ele ainda tem as contas @tomorrowrise, @squeezethelight, @maddogssurf, @underthevault, @paiarat, @6ftbossa, @braynerarte, e por aí vai.

"Faço também trilhas pra marcas de surf, tenho duas bandas, e também voltei para o design através do desenho gráfico, uma paixão que eu tenho. Gosto de trabalhar com marcas e fotografar coleções, dar ideias de logos e, se possível, criar videos com trilhas originais quando tenho oportunidade", conta Brayner.

Para o baiano, o sonho está mais vivo que nunca. "Recentemente eu me casei, e isso só fez confirmar o bom momento que eu venho passando e definitivamente isso tem ajudado muito na minha jornada. Minha esposa também surfa e pegamos onda quase todos os dias juntos. Um verdadeiro sonho!", celebra.

Segundo Brayner, tudo começa com um primeiro passo. "Eu sempre levei isso a sério e batalhei muito pra conseguir manter a chama acesa. Não é fácil. Mas acho que estou no melhor momento da minha vida e fico amarradão de poder compartilhar isso com todos, pois acredito na nossa fé e, quem sabe, isso possa ajudar a outras pessoas a batalharem por seus sonhos", finaliza o baiano.

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