Sekão, a lenda viva
Marcos Conceição diverte internautas do SurfBahia em entrevista hilária
Por: Derô José
Marcos Conceição é um legend ilheense que nunca despontou no cenário mundial de surf, mas, por onde passa, fica famoso.
Conhecido como “Sekão”, ele é filho de um ex-capitão da marinha e seu contato com o mar foi desde cedo. Muito agradecido ao seu pai por isso e pelos ensinos sobre o mar, Sekão é um surfista de muitas fases e transformações.
Já foi surfista profissional, empresário do ramo de laticínios, dono de lanchonetes, modelo, ator, chefe de cozinha e professor de Educação Física.
O snowboard é a sua nova paixão, como revela nesta entrevista. Sua maior fama mesmo foi no surf, principalmente nos campenatos disputados na década de 80 e início de 90. Quando subia ao palanque para receber a premiação, os juízes e organizadores suavam de medo de suas afiadas palavras que muitos queriam dizer, mas não tinham coragem.
Então, aqui vai um pouco deste verdadeiro nômade do surf que atualmente reside na França.
Sekão, surfista ex-top 8 da Bahia, figura carimbada nos campeonatos e no outside em todo o país. Um cara conhecido aqui na região, totalmente surf, e agora mora em uma lugar que não tem onda. Como é encarar isso?
Como você disse, ex-top 8 da Bahia conhecido em toda a região e em todo Pais, figura carimbada nos eventos e nos picos de surf de todo o país. Agora chegou a hora de correr atrás de outros sonhos que tenho, porque todo sonho que tive no surf já realizei, graças a Deus. Isso rolou quando minha querida irmã Katia, com quem trabalhei nos tempos da Dähler, me convidou para fazer uma escola de língua alemã na Alemanha. Eu topei, já que havia encerrado minha carreira como surfista profissional. Agora estou no nível C, já escrevo e falo com fluidez. Tenho amigos lá, posso dizer que sou nativo. É claro que morar num lugar que não tem praia, para um surfista como eu ou qualquer outro, é difícil. Imagina como é dificil, ainda mais com o frio. É preciso muita disciplina e fé, ainda mais para se integrar a um pais com a cultura totalmente diferente da nossa tupiniquim. Mas, é claro, quase todo mundo tem o sonho de vir para a Europa e conseguir algo. Estou feliz por chegar onde cheguei, muito feliz.
Sabemos que você tem feito viagens internacionais. Quais os destinos?
Quando casei com minha querida esposa Florine, ela me disse que iríamos viajar para todos os picos que sempre sonhei. Agora, já fui até para lugares que nunca pensávamos em ir. São muitos, prefiro não citar, mas posso lhe dizer que surfei como criança e ela fez lindas fotos e filmes. Prometo mostrar isso ai pra vocês quando voltar, ok?
Marco Conceição, o “Sekão”. Competidor, ex-top, free surfer, o “Dahler”, empresário, modelo, chefe de cozinha, ator, professor... Está atacando de que no momento?
No momento estou fazendo uma escola de personal trainer em reabilitação. Estou fazendo estágio em alguns países Brasil (Rio de Janeiro), França e Estados Unidos, em clínicas de reabilitação. Graças ao surf, elaborei novos exercícios de estabilização e ganhei prêmio por isso. Ainda faltam dois anos para me formar e para que possa trabalhar e ganhar uma grana, mas para mim é um trabalho muito interessante. Posso ajudar a curar surfistas com problemas nos joelhos, costas, etc. Tenho planos para o surf de Ilhéus no futuro.
Como foi seu início no surf?
Comecei a surfar no Espigão e Cadetral com prancha de isopor, na época era conhecida como Guarujá. Depois tive um amigo na minha escola, o IME, chamado Alexandre, irmão de Aurélio Dentinho. Ele me emprestou a primeira prancha de surf de fibra. Surfei das 6 da manhã até 3 da tarde, sem sair da água. Quase tomei uma surra quando cheguei em casa. Surfei um bom tempo com pranchas emprestadas de Luciano, que hoje é pagodeiro, Gustavo, Jânio Argolo e outros, até meu irmão Carlos comprar minha primeira prancha. Daí em diande não parei de vencer eventos. Consegui o patrocínio da Stella Mares, que era de Joe Silva na época, e não parei mais de competir.
Fale mais sobre essa caminhada.
Minha caminhada no surf quem viu sabe. Olha, quando comecei a surfar no Espigão e via aqueles caras (Zé Marco, Herval Soledade, Dirceu Góes, Menandro, Aurélio Dentinho, César Falcão, entre outros) surfando ondas gigantes, vocês não sabem o que era aquilo, só quem viveu sabe. Eu só tinha um sonho em minha vida que eu sempre dizia a meu falecido pai: um dia eu quero ser um dos melhores surfistas de Ilhéus e fui muito mais adiante do meu sonho. Sou três vezes campeão ilheense de surf profissional na gestão de Jabes Local - uma vez por antecipação por ter vencido três eventos consecutivos. Podia ficar na areia olhando a galera se matando para conseguir o segundo lugar. Em uma etapa, depois de vencer Duda Barreto, tive de voltar para a água porque ele disse que ainda faltavam três minutos no relógio dele. Eu disse tudo bem, voltei e peguei a melhor onda do ano, três tubos perfeitos numa mesma onda. Figurei entre os top 8 do circuito baiano, quase cheguei a ser campeão e fiquei entre os top 30 do circuito brasileiro durante anos. Conquista maior que essa não queria, nem imaginava que fosse tão longe.
Lembro-me de uma vez, em um evento em Olivença (Interbrasil de Surf) em que eu estava na final nervoso e meu pai me perguntou “Sekão, você está nervoso, meu filho?”. Eu disse que sim, ele disse “Dá um golinho nessa cuba libre aqui” e eu disse “Mas, meu pai, isso é álcool, não combina com surf”, e ele me disse “Esqueceu que seu pai é atleta, capitão da marinha de guerra?”. Eu dei um golinho e venci o evento. Essas e outras coisas guardo em minha vida, não as vitórias, mas sim as pessoas que torceram por mim, as amizades que fiz nesse tempo maravilhoso de minha carreira que ainda não parou, ainda vem mais. Sekão vive!!!!! E minha maior satisfação é ser nativo de Ilhéus e poder passar anos fora e chegar nos picos como Backdoor, Avenida, Cadetral, e ver garotos que eu vi na barriga da mamãe deixando ondas para mim - e que não deixe, não!!!!!!!
Como está o surf na Suíça?
Olha, boa pergunta! Se eu falar a verdade de como está o surf na Suíça, posso até falar que está demais. Tenho surfado loiras gigantes com larga extensão, curvas perfeitas e olhos azuis!!! (risos)! Nunca me senti tão bonito e em tão boa forma em minha vida. Faço jiu-jitsu, muay thai, boxe e capoeira. Sempre depois da escola vou à academia treinar! No fim de semana é hora sparring, porrada pra todo lado. Isso tem me ajudado nos estudos e me dado alta confiança. Meu corpo está perfeito, recebo muitos elogios todos os dias, isso me deixa mais que feliz. É como se estivesse surfando. Na Suíça não existe praia, existe um rio que se chama Bremgartem. Ali tem uma onda de meio a 1 metro que fica parada no mesmo lugar. Tem 4 metros de extensão e dá pra fazer várias manobras.
Ali é meu parque de diversões, já fiquei mais de meia hora em cima da onda; cutback, 360, aéreo, floater em água doce. Já venci um evento da Quiksilver ali. Venci também o brasileiro de snowboard, sou o melhor brasileiro de snowboard na Suíça. Adoro, amo snowboards. Certa vez estava andando para a montanha com a mochila e o snow nas costas porque não tinha dinheiro pra pagar o lift (elevador) que leva até o topo. Encontrei um homem no caminho e ele me perguntou porque estava andando. Eu disse porque não tenho grana pra pagar ele me perguntou se eu estava feliz na Suiça. Disse a ele que a Suíça é um paraíso, um sonho. Ele é o dono de quase todos os alpes onde se fazem ski e snow, e disse “você vai surfar todas as montanhas, venha comigo”. Fui com ele e sua esposa, ele todos os anos manda um cartão pra mim, com o qual posso ir todo inverno fazer snow de graça. Sorte ou destino, tudo vale o esforço.
Sei que a adrenalina de competição ainda rola nas veias. Como foi o campeonato de surf aí que você competiu e sei que a galera pirou no seu surf, pois nunca tinham visto aéreo e 360?
No campeonato em Bremgartem, o locutor não parava de falar em estilo orceanigo. Eles têm estilos diferentes, aprenderam no rio, não tem estilo! Mas tem um moleque que quebra, ele é o melhor na minha opinião, melhor que eu no rio!! Ele dá aéreo 360, o moleque quebra, o Martin Suter. Aqui, o esporte é muito valorizado. Se você é atleta, é admirado, idolatrado. Eu tenho moral aqui só pelo meu curriculo no surf. O campeonato de snow rolou em Engelberg, 4 mil metros de altitude, uma onda branca sem fim com um drop interminável e em pé. Rolaram as baterias e na final estavam eu, o Indio e o DJ Rob. Ele pega onda bem, é big rider, boa gente. O Indio começou bem, ele tem um estilo bonito (é grande e é modelo, casado com uma médica). Aprendi snowboard com minha esposa e ela voa, é ninja, aí já viu, né? Não podia dar essa decepção para ela... Cheguei em primeiro, o Indio em segundo com o Rob em terceiro. Ganhei um snow novo e um cartão para toda sessão de inverno com almoço pago. Show, temporada garantida. Depois rolou a festa na discoteca com DJ Rob no comando e a disco lotada.
Amante da boemia, você chegava aos campeonatos depois da night e ganhava da galera. Acha que existia muita inveja de você por conta disso e muitos juízes te prejudicavam?
Olha, Derô, se eu fosse ligar para inveja já estaria morto!!! Sempre fui um cara polêmico, sou guerreiro de Deus, da vida! Tudo o que consegui até hoje foi com esforço do meu suor. Saí de casa com 17 anos!!!! Assim foi nas competições. Como falei antes, eu já tinha chegado onde queria e fui mais longe ainda. Isso eles não sabiam porque tinham, e os que estão vivos ainda têm a cabeça pequena!!! Quem me prejudicou hoje eu perdoo!! Pode dormir em paz!!!! Só te desejo o bem!!!! Mas posso lhe dizer que o que fizestes não me maltratou nem me prejudicou em nada!!!! Só fez pessoas que gostam de mim e me amam tristes por ter visto eu ganhar e ser roubado!!! Porque eles, os juízes, que não eram só os juízes, sabiam que no free surf, sem estar atrás da proteção da mídia e da polícia, eu sou o chefe. Nunca foi por noites ou festas, pois saía e não bebia, só ia atrás das mulheres. Adoro mulheres lindas e Ilhéus só tem lindas!!!
Tinham inveja por eu, no free surf, ser chato, ser o dono do pico. Sou até hoje! Quem estava em Olivença, no ano retrasado, viu. Se quiser saímos pra fora, para a porrada!!! Mas não vou ficar deixando neguinho dominar a praia que eu acordo cedo pra catar o lixo que eles deixaram do dia anterior. Haole é haole, local é local, tem que ser respeitado! Sei chegar e sair em qualquer pico do mundo, pego sempre as maiores sem arrumar problemas, porque sei me colocar no meu lugar e gosto de ver gente como eu, se for assim, onde eu estiver vai pegar todas as ondas que quiser. A questão é que eles não me prejudicaram, eles prejudicaram o surf de Ilhéus, por isso Ilhéus é uma cidade com uma estrutura turística enorme, não está figurando no calendário mundial para que tudo fique sempre entre eles. Ilhéus tem que estar no calendário do World Tour, mas em breve eu volto e vamos lutar juntos para isso. Parabéns à minha querida galera de Olivença por manter o localismo vivo!!! Se respeitar eu te respeito, se não respeitar não volte aqui nunca mais!!! Abraço aos caboclos queridos de minha querida Olivença.
Na sua época havia uma galera muito boa de surf em Ilhéus e em Salvador. Você não chegou a ser campeão, mas foi a pedra no caminho e atrapalhou muita gente no surf, ganhando baterias decisivas. Como foi isso?
Realmente venci baterias decisivas, mas a que mais ficou marcada em minha carreira foi em Santa Catarina, o OP Pro 87, uma bateria nas oitavas-de-final contra o futuro campeão brasileiro Ricardo Toledo, Ivan Jungs (campeão catarinense) e Guto de Carvalho (campeão do intercâmbio Brasil EUA no Rio de Janeiro). Havia muitas expectativas, mais de 100 pessoas de Ilhéus ali e senti neles a tristeza e preocupação de que eu não passaria a bateria, pois Gabriel Macedo era guri e eu consegui para ele e Culão o patrocínio da Surfing Series. Ele disse para mim “Não olhe o surf dele, faça seu surf, você vai quebrar tudo. Vá, Marco. Eu fui, falei com todos na areia antes de cair, “Boa sorte e boas ondas”. Quando fui falar com Toledo, ele não me respondeu e virou a cara. Aquilo me deixou com raiva e disse “Vou massacrá-lo, nunca desafie Sekão!!”.
Entrei e na minha primeira onda dei um snap back e depois entrei num tubo sem fim. Saí rasgando e fui bater na beira, só caí porque os gritos da galera de Ilhéus eram tão altos que me assustei. Depois voltei ao pico, sentei do lado dele e não o deixei mais pegar ondas. Quando ele pegou uma, eu tinha a preferência e entrei. Ele fez interferência e ficou dando soco na água e gritando, dizendo que ia me matar. Eu remei pra cima dele e disse “Se vai matar, mata agora, senão eu mato você”. Eu peguei três ondas e ganhei a bateria, deixando o Guto de Carvalho em segundo. Depois fui atrás dele na areia, o pai dele estava com ele e me disse “Você ganhou, parabéns”. Deu um tapa nele e mandou entrar no carro. Fiquei em sétimo no evento.
Quais os surfistas que mais te impressionaram em sua época?
Bom, esses nomes jamais serão esquecidos, pelo menos por mim. Já vi muitos surfistas de minha geração quebrando, como "Larry Bertlemann", assim eu o chamo até hoje, Nego Adilson, Barrão, Dão, Adalvo, Brício e Jânio Argolo, que para mim sempre foi o melhor dos irmãos, Hilton Issa - esse cara de Salvador ele quebra até hoje, sem comentarios - falecido Alipio Guerra dava pauladas de cabeça para baixo no Espigão gigante; Ronaldo Fadul não era da minha geração, mas já vi em ondas gigantes em Itacaré colocando para dentro e batendo no olho. São muitos, não dá pra citar todos, desculpe se esqueci alguém. (risos). Gostaria de agradecer a todos aqueles que acreditaram no meu sucesso como surfista profissional e todos aqueles que estiveram nas areias de nossa querida Ilhéus torcendo muito por mim. Obrigado. Aloha, mahalo, kapua pono!
É verdade que você já deu muitos 360's na mesma onda? Explique essa história.
Bremgartem é uma onda parada, ela fica ali no mesmo lugar. Tinha muita água no rio e quando tem muita água a onda fica maior. Eu cheguei, só havia dois caras lá e entrei na onda e fiquei só dando 360 e contando quantos foram! Não sei bem se foram 37 ou mais, acho que tinha que entrar no livro de recordes. Uma vez, na Catedral, cheguei cedo e encontrei na areia, tomando sol, minha amiga Taninha Carneiro, hoje mãe de Nando e Andrea, meus sobrinhos. Disse a ela "Amiga, vou dar doze 360's em sua homenagem! Bom, se desejam provas, podem perguntar a ela. Entrei numa direita de um pouco mais de 1 metro e dei doze 360's em uma onda só. Saí, ela me agradeceu, ficou amarradona e pagou um sorvete para mim. Nessa época a Catedral era o pico, quebrava altas e não havia um dia sem ondas.
Conhecido como “Sekão”, ele é filho de um ex-capitão da marinha e seu contato com o mar foi desde cedo. Muito agradecido ao seu pai por isso e pelos ensinos sobre o mar, Sekão é um surfista de muitas fases e transformações.
Já foi surfista profissional, empresário do ramo de laticínios, dono de lanchonetes, modelo, ator, chefe de cozinha e professor de Educação Física.
O snowboard é a sua nova paixão, como revela nesta entrevista. Sua maior fama mesmo foi no surf, principalmente nos campenatos disputados na década de 80 e início de 90. Quando subia ao palanque para receber a premiação, os juízes e organizadores suavam de medo de suas afiadas palavras que muitos queriam dizer, mas não tinham coragem.
Então, aqui vai um pouco deste verdadeiro nômade do surf que atualmente reside na França.
Sekão, surfista ex-top 8 da Bahia, figura carimbada nos campeonatos e no outside em todo o país. Um cara conhecido aqui na região, totalmente surf, e agora mora em uma lugar que não tem onda. Como é encarar isso?
Como você disse, ex-top 8 da Bahia conhecido em toda a região e em todo Pais, figura carimbada nos eventos e nos picos de surf de todo o país. Agora chegou a hora de correr atrás de outros sonhos que tenho, porque todo sonho que tive no surf já realizei, graças a Deus. Isso rolou quando minha querida irmã Katia, com quem trabalhei nos tempos da Dähler, me convidou para fazer uma escola de língua alemã na Alemanha. Eu topei, já que havia encerrado minha carreira como surfista profissional. Agora estou no nível C, já escrevo e falo com fluidez. Tenho amigos lá, posso dizer que sou nativo. É claro que morar num lugar que não tem praia, para um surfista como eu ou qualquer outro, é difícil. Imagina como é dificil, ainda mais com o frio. É preciso muita disciplina e fé, ainda mais para se integrar a um pais com a cultura totalmente diferente da nossa tupiniquim. Mas, é claro, quase todo mundo tem o sonho de vir para a Europa e conseguir algo. Estou feliz por chegar onde cheguei, muito feliz.
Sabemos que você tem feito viagens internacionais. Quais os destinos?
Quando casei com minha querida esposa Florine, ela me disse que iríamos viajar para todos os picos que sempre sonhei. Agora, já fui até para lugares que nunca pensávamos em ir. São muitos, prefiro não citar, mas posso lhe dizer que surfei como criança e ela fez lindas fotos e filmes. Prometo mostrar isso ai pra vocês quando voltar, ok?
Marco Conceição, o “Sekão”. Competidor, ex-top, free surfer, o “Dahler”, empresário, modelo, chefe de cozinha, ator, professor... Está atacando de que no momento?
No momento estou fazendo uma escola de personal trainer em reabilitação. Estou fazendo estágio em alguns países Brasil (Rio de Janeiro), França e Estados Unidos, em clínicas de reabilitação. Graças ao surf, elaborei novos exercícios de estabilização e ganhei prêmio por isso. Ainda faltam dois anos para me formar e para que possa trabalhar e ganhar uma grana, mas para mim é um trabalho muito interessante. Posso ajudar a curar surfistas com problemas nos joelhos, costas, etc. Tenho planos para o surf de Ilhéus no futuro.
Como foi seu início no surf?
Comecei a surfar no Espigão e Cadetral com prancha de isopor, na época era conhecida como Guarujá. Depois tive um amigo na minha escola, o IME, chamado Alexandre, irmão de Aurélio Dentinho. Ele me emprestou a primeira prancha de surf de fibra. Surfei das 6 da manhã até 3 da tarde, sem sair da água. Quase tomei uma surra quando cheguei em casa. Surfei um bom tempo com pranchas emprestadas de Luciano, que hoje é pagodeiro, Gustavo, Jânio Argolo e outros, até meu irmão Carlos comprar minha primeira prancha. Daí em diande não parei de vencer eventos. Consegui o patrocínio da Stella Mares, que era de Joe Silva na época, e não parei mais de competir.
Fale mais sobre essa caminhada.
Minha caminhada no surf quem viu sabe. Olha, quando comecei a surfar no Espigão e via aqueles caras (Zé Marco, Herval Soledade, Dirceu Góes, Menandro, Aurélio Dentinho, César Falcão, entre outros) surfando ondas gigantes, vocês não sabem o que era aquilo, só quem viveu sabe. Eu só tinha um sonho em minha vida que eu sempre dizia a meu falecido pai: um dia eu quero ser um dos melhores surfistas de Ilhéus e fui muito mais adiante do meu sonho. Sou três vezes campeão ilheense de surf profissional na gestão de Jabes Local - uma vez por antecipação por ter vencido três eventos consecutivos. Podia ficar na areia olhando a galera se matando para conseguir o segundo lugar. Em uma etapa, depois de vencer Duda Barreto, tive de voltar para a água porque ele disse que ainda faltavam três minutos no relógio dele. Eu disse tudo bem, voltei e peguei a melhor onda do ano, três tubos perfeitos numa mesma onda. Figurei entre os top 8 do circuito baiano, quase cheguei a ser campeão e fiquei entre os top 30 do circuito brasileiro durante anos. Conquista maior que essa não queria, nem imaginava que fosse tão longe.
Lembro-me de uma vez, em um evento em Olivença (Interbrasil de Surf) em que eu estava na final nervoso e meu pai me perguntou “Sekão, você está nervoso, meu filho?”. Eu disse que sim, ele disse “Dá um golinho nessa cuba libre aqui” e eu disse “Mas, meu pai, isso é álcool, não combina com surf”, e ele me disse “Esqueceu que seu pai é atleta, capitão da marinha de guerra?”. Eu dei um golinho e venci o evento. Essas e outras coisas guardo em minha vida, não as vitórias, mas sim as pessoas que torceram por mim, as amizades que fiz nesse tempo maravilhoso de minha carreira que ainda não parou, ainda vem mais. Sekão vive!!!!! E minha maior satisfação é ser nativo de Ilhéus e poder passar anos fora e chegar nos picos como Backdoor, Avenida, Cadetral, e ver garotos que eu vi na barriga da mamãe deixando ondas para mim - e que não deixe, não!!!!!!!
Como está o surf na Suíça?
Olha, boa pergunta! Se eu falar a verdade de como está o surf na Suíça, posso até falar que está demais. Tenho surfado loiras gigantes com larga extensão, curvas perfeitas e olhos azuis!!! (risos)! Nunca me senti tão bonito e em tão boa forma em minha vida. Faço jiu-jitsu, muay thai, boxe e capoeira. Sempre depois da escola vou à academia treinar! No fim de semana é hora sparring, porrada pra todo lado. Isso tem me ajudado nos estudos e me dado alta confiança. Meu corpo está perfeito, recebo muitos elogios todos os dias, isso me deixa mais que feliz. É como se estivesse surfando. Na Suíça não existe praia, existe um rio que se chama Bremgartem. Ali tem uma onda de meio a 1 metro que fica parada no mesmo lugar. Tem 4 metros de extensão e dá pra fazer várias manobras.
Ali é meu parque de diversões, já fiquei mais de meia hora em cima da onda; cutback, 360, aéreo, floater em água doce. Já venci um evento da Quiksilver ali. Venci também o brasileiro de snowboard, sou o melhor brasileiro de snowboard na Suíça. Adoro, amo snowboards. Certa vez estava andando para a montanha com a mochila e o snow nas costas porque não tinha dinheiro pra pagar o lift (elevador) que leva até o topo. Encontrei um homem no caminho e ele me perguntou porque estava andando. Eu disse porque não tenho grana pra pagar ele me perguntou se eu estava feliz na Suiça. Disse a ele que a Suíça é um paraíso, um sonho. Ele é o dono de quase todos os alpes onde se fazem ski e snow, e disse “você vai surfar todas as montanhas, venha comigo”. Fui com ele e sua esposa, ele todos os anos manda um cartão pra mim, com o qual posso ir todo inverno fazer snow de graça. Sorte ou destino, tudo vale o esforço.
Sei que a adrenalina de competição ainda rola nas veias. Como foi o campeonato de surf aí que você competiu e sei que a galera pirou no seu surf, pois nunca tinham visto aéreo e 360?
No campeonato em Bremgartem, o locutor não parava de falar em estilo orceanigo. Eles têm estilos diferentes, aprenderam no rio, não tem estilo! Mas tem um moleque que quebra, ele é o melhor na minha opinião, melhor que eu no rio!! Ele dá aéreo 360, o moleque quebra, o Martin Suter. Aqui, o esporte é muito valorizado. Se você é atleta, é admirado, idolatrado. Eu tenho moral aqui só pelo meu curriculo no surf. O campeonato de snow rolou em Engelberg, 4 mil metros de altitude, uma onda branca sem fim com um drop interminável e em pé. Rolaram as baterias e na final estavam eu, o Indio e o DJ Rob. Ele pega onda bem, é big rider, boa gente. O Indio começou bem, ele tem um estilo bonito (é grande e é modelo, casado com uma médica). Aprendi snowboard com minha esposa e ela voa, é ninja, aí já viu, né? Não podia dar essa decepção para ela... Cheguei em primeiro, o Indio em segundo com o Rob em terceiro. Ganhei um snow novo e um cartão para toda sessão de inverno com almoço pago. Show, temporada garantida. Depois rolou a festa na discoteca com DJ Rob no comando e a disco lotada.
Amante da boemia, você chegava aos campeonatos depois da night e ganhava da galera. Acha que existia muita inveja de você por conta disso e muitos juízes te prejudicavam?
Olha, Derô, se eu fosse ligar para inveja já estaria morto!!! Sempre fui um cara polêmico, sou guerreiro de Deus, da vida! Tudo o que consegui até hoje foi com esforço do meu suor. Saí de casa com 17 anos!!!! Assim foi nas competições. Como falei antes, eu já tinha chegado onde queria e fui mais longe ainda. Isso eles não sabiam porque tinham, e os que estão vivos ainda têm a cabeça pequena!!! Quem me prejudicou hoje eu perdoo!! Pode dormir em paz!!!! Só te desejo o bem!!!! Mas posso lhe dizer que o que fizestes não me maltratou nem me prejudicou em nada!!!! Só fez pessoas que gostam de mim e me amam tristes por ter visto eu ganhar e ser roubado!!! Porque eles, os juízes, que não eram só os juízes, sabiam que no free surf, sem estar atrás da proteção da mídia e da polícia, eu sou o chefe. Nunca foi por noites ou festas, pois saía e não bebia, só ia atrás das mulheres. Adoro mulheres lindas e Ilhéus só tem lindas!!!
Tinham inveja por eu, no free surf, ser chato, ser o dono do pico. Sou até hoje! Quem estava em Olivença, no ano retrasado, viu. Se quiser saímos pra fora, para a porrada!!! Mas não vou ficar deixando neguinho dominar a praia que eu acordo cedo pra catar o lixo que eles deixaram do dia anterior. Haole é haole, local é local, tem que ser respeitado! Sei chegar e sair em qualquer pico do mundo, pego sempre as maiores sem arrumar problemas, porque sei me colocar no meu lugar e gosto de ver gente como eu, se for assim, onde eu estiver vai pegar todas as ondas que quiser. A questão é que eles não me prejudicaram, eles prejudicaram o surf de Ilhéus, por isso Ilhéus é uma cidade com uma estrutura turística enorme, não está figurando no calendário mundial para que tudo fique sempre entre eles. Ilhéus tem que estar no calendário do World Tour, mas em breve eu volto e vamos lutar juntos para isso. Parabéns à minha querida galera de Olivença por manter o localismo vivo!!! Se respeitar eu te respeito, se não respeitar não volte aqui nunca mais!!! Abraço aos caboclos queridos de minha querida Olivença.
Na sua época havia uma galera muito boa de surf em Ilhéus e em Salvador. Você não chegou a ser campeão, mas foi a pedra no caminho e atrapalhou muita gente no surf, ganhando baterias decisivas. Como foi isso?
Realmente venci baterias decisivas, mas a que mais ficou marcada em minha carreira foi em Santa Catarina, o OP Pro 87, uma bateria nas oitavas-de-final contra o futuro campeão brasileiro Ricardo Toledo, Ivan Jungs (campeão catarinense) e Guto de Carvalho (campeão do intercâmbio Brasil EUA no Rio de Janeiro). Havia muitas expectativas, mais de 100 pessoas de Ilhéus ali e senti neles a tristeza e preocupação de que eu não passaria a bateria, pois Gabriel Macedo era guri e eu consegui para ele e Culão o patrocínio da Surfing Series. Ele disse para mim “Não olhe o surf dele, faça seu surf, você vai quebrar tudo. Vá, Marco. Eu fui, falei com todos na areia antes de cair, “Boa sorte e boas ondas”. Quando fui falar com Toledo, ele não me respondeu e virou a cara. Aquilo me deixou com raiva e disse “Vou massacrá-lo, nunca desafie Sekão!!”.
Entrei e na minha primeira onda dei um snap back e depois entrei num tubo sem fim. Saí rasgando e fui bater na beira, só caí porque os gritos da galera de Ilhéus eram tão altos que me assustei. Depois voltei ao pico, sentei do lado dele e não o deixei mais pegar ondas. Quando ele pegou uma, eu tinha a preferência e entrei. Ele fez interferência e ficou dando soco na água e gritando, dizendo que ia me matar. Eu remei pra cima dele e disse “Se vai matar, mata agora, senão eu mato você”. Eu peguei três ondas e ganhei a bateria, deixando o Guto de Carvalho em segundo. Depois fui atrás dele na areia, o pai dele estava com ele e me disse “Você ganhou, parabéns”. Deu um tapa nele e mandou entrar no carro. Fiquei em sétimo no evento.
Quais os surfistas que mais te impressionaram em sua época?
Bom, esses nomes jamais serão esquecidos, pelo menos por mim. Já vi muitos surfistas de minha geração quebrando, como "Larry Bertlemann", assim eu o chamo até hoje, Nego Adilson, Barrão, Dão, Adalvo, Brício e Jânio Argolo, que para mim sempre foi o melhor dos irmãos, Hilton Issa - esse cara de Salvador ele quebra até hoje, sem comentarios - falecido Alipio Guerra dava pauladas de cabeça para baixo no Espigão gigante; Ronaldo Fadul não era da minha geração, mas já vi em ondas gigantes em Itacaré colocando para dentro e batendo no olho. São muitos, não dá pra citar todos, desculpe se esqueci alguém. (risos). Gostaria de agradecer a todos aqueles que acreditaram no meu sucesso como surfista profissional e todos aqueles que estiveram nas areias de nossa querida Ilhéus torcendo muito por mim. Obrigado. Aloha, mahalo, kapua pono!
É verdade que você já deu muitos 360's na mesma onda? Explique essa história.
Bremgartem é uma onda parada, ela fica ali no mesmo lugar. Tinha muita água no rio e quando tem muita água a onda fica maior. Eu cheguei, só havia dois caras lá e entrei na onda e fiquei só dando 360 e contando quantos foram! Não sei bem se foram 37 ou mais, acho que tinha que entrar no livro de recordes. Uma vez, na Catedral, cheguei cedo e encontrei na areia, tomando sol, minha amiga Taninha Carneiro, hoje mãe de Nando e Andrea, meus sobrinhos. Disse a ela "Amiga, vou dar doze 360's em sua homenagem! Bom, se desejam provas, podem perguntar a ela. Entrei numa direita de um pouco mais de 1 metro e dei doze 360's em uma onda só. Saí, ela me agradeceu, ficou amarradona e pagou um sorvete para mim. Nessa época a Catedral era o pico, quebrava altas e não havia um dia sem ondas.
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