Somos todos Italo

Nosso colunista Lalo Giudice exalta a vitória de Italo Ferreira no Pipe Masters e a sua conquista do mundial


Demorei, e como demorei para começar a escrever esta matéria. Precisava de um tempo. Precisava entender o que tinha assistido, fazer uma análise mais ampla deste desfecho espetacular que foi o Pipe Masters. Já sem emoção, sem nenhuma fúria de ansiedade e com a temperatura corpórea mais equilibrada, comecei a escrever, essa é a pura verdade.

Mesmo sabendo que teríamos um final feliz, não imaginei que poderia ser desta forma. Como dizem os gringos, "What a day!" Que dia para o surf mundial. Que dia para o surf brasileiro. Que dia para o surf nordestino. Que dia para o surf de Baia Formosa.

Italo Ferreira é nome da vez, da fera a ser batido, o melhor surfista do ano. Mostrou para o mundo como evoluiu e é o mais novo campeão mundial de surf profissional em ambas entidades, tanto pela WSL, quanto pela ISA. Começou o ano vencendo na Gold Coast e termina a temporada de forma espetacular, como um verdadeiro campeão, um real Pipe Masters.

Foi o surfista que mais evoluiu no Tour, mostrando que pode brigar por mais um titulo ano que vem sem sombra de dúvidas. Chegou cedo em Pipe, conseguiu admiração e respeito dos havaianos locais, como Shane Dorian, seu parceiro de equipe e este titulo inédito lhe dará mais confiança para as próximas temporadas. Bateu todos que entraram em seu caminho, inclusive o mito Kelly Slater nas semi finais e seu grande rival e amigo, Gabriel Medina, na grande final.

Medina mais uma vez bateu na trave. Um ano que parecia certo para o tri campeonato mundial foi por água abaixo, para mim, naquela fatídica bateria contra Caio Ibelli, em Portugal. Também não adianta chorar pelo leite derramado e o próprio Medina sabe disso. Não é a toa que desde seu primeiro titulo mundial em 2014, acumula além de dois títulos, dois vices e dois terceiros no ranking. É muito nível para um atleta de apenas 26 anos.

Em relação a suas atitudes como competidor, acho sensacional. Adriano era assim, Andy Irons, além de muitos outros, inclusive o próprio Kelly Slater. Precisamos parar de pensar que somos amigos e que somos uma tribo do surf, pois isso não existe há tempos. São cem mil doletas em jogo e um titulo. Engraçado é que todo brasileiro que venceu como surfista profissional tem um caso de superação, de sofrimento em algum período da vida. Dá boa sorte para seu oponente, mas quer “arrancar seu pescoço” dentro d´água. Claro, dentro de uma regra pré estabelecida. Isso pra mim não cabe mais. É cada um para um lado mesmo. Em qualquer esporte é assim. E isto também não quer dizer que os atletas precisam se odiar, mas precisam saber jogar o jogo, ser mais profissional, essa é a verdade. Vamos deixar a famosa frase "boa sorte, boas ondas" de lado e limitar apenas ao Beach Marshall, staff do evento, que tem a função de informar aos atletas o funcionamento das baterias e que normalmente solta esta famosa frase.

Jordy Smith e Kolohe precisarão de mais um ano para sonhar com o tão almejado titulo mundial. Não foi dessa vez. Filipinho então, precisa urgente treinar em ondas de consequência, pois esta fraqueza está o tornando mais vulnerável. Em linhas gerais, todos os competidores do CT já perderam o respeito pelo prodígio quando se trata de ondas pesadas. Se a etapa de Saquarema não der Barrinha, com G-Land no calendário, adicionando a esta indisposição para tal situação, não vejo nem um vice campeonato mundial em seu cartel, muito menos uma Olimpiada, já que não participará de Tóquio e a de 2024 na França, será realizada no Taiti, nas perigosas ondas de Teahupoo.

O mito também não arrumou muita coisa para este ano. Sim, o Kelly é uma lenda, o maior de todos os tempos, mas precisamos ser francos nos resultados, nos números. Para um atleta de 47 anos, o que ele esta fazendo é algo inimaginável, surreal. Se tiver 11 etapas do circuito
mundial, ele irá fazer frente com certeza, mas precisamos dizer, não ganha mais. Inclusive o antigo extra terrestre, quase intocável nos anos noventa e neste inicio de século, é um atleta mudado. Capaz de opinar para todos assuntos e situações, até mesmo sem ser chamado, em especial nos casos de Medina, onde o mesmo Slater publica sempre algo ou dá um pitaco em baterias que não lhe diz respeito. Para mim, sinais de cansaço, de impotência e uma dorzinha de cotuvelo. Assim como a experiência, que vem com o tempo, as frustrações e cicatrizes da vida também só aparecem com o tempo.

Ah, quase esqueço que ele foi campeão da Triplice Coroa Havaiana. Premiação e honraria dada ao campeão do ranking das três etapas realizadas no Hawaii, sendo duas de nível QS Prime e o Pipe Masters. Pra mim, titulo “mukifa” já que não é dada a mesma importância como era antes. O atleta ganha Haleiwa ou Sunset e não corre Pipe, pois não passa pela triagem. Além do que, os top surfers do CT, que estão na ponta do Ranking, também não se dão o luxo de participar destas etapas Prime com algum receio.

Perdemos Jessé, Willian e o Michael Rodrigues, mas ganhamos alguns reforços de peso, com a volta de Miguel Pupo e Alex Ribeiro.

Somos os maiores do mundo em qualquer condição. Aquela marolinha de Huntington Beach e aquela bomba de Teahupoo e Pipe serão sempre bem vindas, pois somos completos. E melhor do que isso, somos do Nordeste, dá onda de vento, do flat, da dificuldade, do êxodo para as cidades grandes, como Rio, São Paulo e Floripa. Somos das etapas de base de BF, dos nordestinos amadores e profissionais. Somos Fábio Gouveia, Alan Jhones e José Junior, o chupetinha.

Somos todos Italo Ferreira, campeão mundial de surf em 2020.

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