Teahupoo de cinema

Nosso colunista Lalo Giudice comenta o espetáculo de surfe na etapa do Circuito Mundial no Tahiti


Foi sensacional, memorável, inesquecível, um verdadeiro filme de surfe para quem pôde acompanhar a sétima etapa do Circuito Mundial da WSL, o Tahiti Pro, na mais temida onda do Tour, Teahupoo e vencida merecidamente pelo australiano casca grossa Owen Wright. Sim, foi um verdadeiro filme de surfe. Cenário perfeito, história espetacular, 36 atores, entre protagonistas, figurantes, casos de afirmação e superação, casos de decepção, além de alguns desajustes técnicos, o que não diminuiu em nada este filmaço, mas que precisam ser relatados.

Como toda boa película, seus críticos sempre buscam alguma falha em suas produções, sempre. No caso do Tahiti Pro, o filme, vamos chamar dessa forma, não precisamos ir tão longe assim ou ser um super especialista da sétima arte. A reincidência da reincidência da reincidência da reicidencia, se é que podemos ser redundantes ao fato das transmissões nunca começarem nos horário previamente estipulados, chega a ser um absurdo de amador. Esta lá, chamada 14:00, eles entram 14:11.

Você coloca no aplicativo, site oficial do evento e ninguém atualiza. Um absurdo. Está mais fácil ser informado por um amigo que more no local ou tenha uma informação privilegiada, do que esperar a entidade se pronunciar nos seus canais oficiais. Sem falar no App da WSL, que é “bug” todo santo dia. Do jeito que vão as coisas, o que aparenta é a falta de recursos da liga, que deverá sanear esses problemas fazendo com que nossas transmissões, hoje de graça, se tornem pagas, anota aí.

O Kieren Perrow, diretor deste filmaço, desta vez acertou, precisamos ser francos. Segurou alguns dias em que se teria uma boa condição de surf, inclusive na segunda-feira, onde alguns atletas chegaram a postar em suas redes sociais reivindicando o porque do não inicio do evento naquele dia. Outro ponto positivo foi ter colocado baterias no formato “overlapping heats” naquele cenário espetacular de Teahupoo. Quem pôde acompanhar, assistiu o melhor dia de surf dos últimos anos em eventos da WSL.

Chegamos ao cenário com paisagem exuberante, águas cristalinas que fascinam qualquer ser humano, além de altas ondas. Teahupoo quebrou grande, clássico e poderoso. Deu as caras nas triagens, tirou uma semaninha de descanso e acordou nervoso, para alegria de muitos e tristeza de vários atletas da elite do surf mundial.

OS PROTAGONISTAS - Foram muitos, muitos mesmo. Honremos o titulo de Owen Wright contra seu grande rival, amigo e defensor da etapa, Gabriel Medina, como auge desse grande desfecho em Teahupoo, sem tirar nem por. Foram os dois melhores e pronto. Owen mereceu demais essa vitória. Não falaremos de prioridades, remadas, estratégias. Foi como tinha que ser. Os dois maiores guerreiros na grande final e deu Owen.

Gabriel ficou em segundo, mas mostrou para o mundo mais uma vez que é o melhor surfista do Tour na atualidade. Se vem onda ele humilha, essa é a palavra. Se não vem, ele fabrica a bateria e faz coisas que só os maiores fazem. Remou nas maiores e a cada entrevista afirmava: “estou aqui pra isso, vivo pra isso”, tudo programado dentro do script deste super filme de surf.

Vem mais embalado que o ano passado e vai com tudo para o tri campeonato mundial. Já ganhou no Rancho duas vezes ( uma teste e ano passado ), na França três vezes, Portugal e Pipe uma, além de vice campeonatos nessas arenas, respectivamente.

Nosso Capitão Nascimento, Adriano de Souza, mostrou para o mundo por que é campeão mundial e arrebentou nas temidas ondas de Teahupoo. Foi um dos atletas que se manifestou sobre o não inicio do evento na segunda-feira, mas mostrou para o mundo como se faz. Fez a melhor bateria do evento contra Italo Ferreira e botou pra baixo nos slabs taitianos. Voltando de cirurgia, Mineiro deve estar mais confiante para este final de temporada. Falando em Italo, perdeu na melhor bateria do evento em minha opinião, para Adriano, mas mostrou mais uma vez que esta pronto para qualquer condição e brigar de igual pra igual para um tão sonhado titulo mundial.

Jordy Smith mostrou mais uma vez que se adapta a qualquer condição e junto com o rookie atirado, Seth Moniz, abocanharam a terceira colocação. Seth, que por sua vez mostrou que está no Tour pra ficar, fazendo outro grande resultado no ano.

Jeremy Flores, Julian Wilson, Joan Duru, Sebastian Zietz, Conner Coffin, Griffin Colapinto, Michel Bourez, Kauli Vaast, Jack Freestone, Jadson André e Caio Ibelli, principalmente esses dois últimos, representaram muito bem, botando pra baixo nas bombas do pico, mostrando ao mundo para que vieram.

Jadson e Ibelli então, são dignos de afirmação e superação. Caio correndo de alternate número um, devido seu afastamento do ano passado, tendo que galgar resultados a qualquer custo e Jadson vindo de um ano fraco na elite, com notas desvalorizadas em certas ocasiões. Escreveram o nome na historia do pico e para todos que acompanharam. Orgulho nacional.

FIGURANTES: Por outro lado, tiveram aqueles que não atuaram muito bem, não entederam o cenário ou o script. Um deles foi o maior de todos, Kelly Slater, que não se encontrou. Tinha uma grande chance de alavancar no ranking, até mesmo brigar por um titulo mundial, já que a próxima etapa será no seu Rancho e sucumbiu a um Jack Freestone inspirado. Sua maior motivação agora é tentar ultrapassar JJF no ranking e fazer uma Olimpiadas aos 48 anos de idade.

Outro foi Kolohe Andino. Vinha liderando o ranking, mas perdeu para a sensação local Kauli Vaast, de apenas 17 anos. Mesmo o maior dos otimistas ou torcedores, não acreditariam nesta permanência de liderança do limitado californiano.

O japonês Kanoa Igarashi, que também vinha bem no ranking, sucumbiu precocemente diante de um Jadson inspirado, dando a impressão de que não pertence aquele cenário, assim como fez em Bells. Michael e Wiliian, também tiveram bastante dificuldade, como havíamos dito na coluna de abertura do Tahiti Pro.

E, por incrível que pareça, o maior figurante deste episodio histórico do surf mundial, que não conseguiu e não consegue há tempos fazer uma bela apresentação neste tipo de cenário, é o agora líder do ranking Filipe Toledo. Mostrou pro mundo que não está pronto para esse tipo de surf ou melhor, nem tentou. Um voraz competidor, capaz de brigar por remadas, prioridades, fazer milagres, chover em ondas de 1 a 5 pés, apenas.

Sigamos os exemplos: Presenciamos desavenças com Tanner Hendrikson, após o havaiano ter vencido Toledo no Prime de Huntington, onde o brasileiro não cedeu sua mão para o companheiro de trabalho, chegando ainda a discutir com o havaiano.

Queria subir no palanque na etapa do mundial no Rio de Janeiro, onde ficou transtornado com os juízes, em uma intereferecia computada sobre o japonês Kanoa Igarashi, sendo penalizado. Uma discussão mais branda teria acontecido também, com o mesmo Kanoa, no Prime de Hungtinton, um ano anterior.

Inversamente proporcional a isso, quando temos ondas de consequência, as coisas se opõem. Seu ímpeto competitivo some, desaparece, se torna quase que inexistente.

Sigamos os exemplos: No titulo mundial de Medina em 2014, na etapa de Pipe, Gabriel saiu do mar pra comemorar, tomou cerveja, chorou, brindou, deu entrevista e ainda deu tempo de voltar e bater Filipinho nas quartas.

No ano seguinte, em Teahupoo, saiu da bateria contra Italo Ferreira sem se quer pegar uma onda, tomando uma lavada de 15,00 x 0. Ano passado, entrou na bateria com o Kelly em Pipe, mordendo os beiços, já dando sinais de que não dava e não deu. Esse ano, em The Box, deixou o também garoto, Jack Robinson, fazer quase dois dez na sua prioridade. E agora em Teahupoo, mais uma vez, deixa Jessé Mendes passar ele nas duas vezes em que aconteceu o famoso Paddle Battle, onde Filipe estava lá na frente, mas diferente de outras ocasiões, deixou Jessé ficar com a prioridade, como se estivesse pensando: “segura essa arapuca Jessé“. Passou essa, indo até longe demais para o que apresentou no Tahiti. Longe demais mesmo.

Temos várias justificativas para esses fracassos de Toledo nestes cenários. Que ele era muito novo, que está crescendo e amadurecendo no Tour, várias outras coisas. O fato é que o Griffin já aprendeu, o Seth Moniz, Caio Ibelli , Kauli Vaast, de 17 anos e ainda por cima, o localzinho taitiano de 13 anos, que no último dia do evento, botou pra baixo dos canudos de Choppes, mostrando para o mundo todo sua prancha partida ao meio. Magnífico.

O fato é que não vejo nehuma evolução no surf de Toledo para estas condições, ao contrário, me parece mais focado em suas estratégias na marola e pensando nos descartes nos eventos com ondas de verdade. Digo isso, pois não corre o Pipe Pro, evento super importante que acontece todo ano no Hawaii, além de não passar seus invernos por lá. Para se tornar campeão mundial de surf é necessário abdicar de muita coisa nessa vida, se blindar ou vocês já viram alguma vez na vida a filha de Kelly Slater, Taylor? E Mick, que perdeu dois irmãos ao longo de sua carreira? E Adriano com todas as deficiências, passava meses na casa de Jamie O´ Brien até se tornar Mister Pipe. Desse jeito não vai. “No pain, no gain”, já diz a mensagem de seu próprio patrocinador.

Com todo respeito as mulheres, se colocasse a Carissa Moore, a Tati e Courtney Conlogue, na bateria do prodígio de Ubatuba, ele perderia. As mulheres estão buscando, treinando e se doando.

Infelizmente é dessa forma que destacamos o brasileiro Filipe Toledo, atual líder do ranking, mas principal figurante no melhor filme de surf do ano, o Tahiti Pro. Protagonista principal nas ondas divertidas do Tour, com performances incríveis, como sempre exaltamos e enaltecemos , mas nesse filme, passou longe do estrelato.

Precisamos também entender o significado de destratar e fazer uma critica em cima de fatos que aconteceram. Não dá pra passar batido por esse fato, não dá pra passar a mão na cabeça. Vamos criticar sim e não destratar a pessoa, o trabalhador, o caráter, o pai de família que é Filipe Toledo. Mas também não somos obrigados a escrever que Filipinho não achou as ondas e perdeu em bateria de pouquíssimas oportunidades para um experiente Seth Moniz. Não mesmo. Acho que precisamos falar a verdade, acabar com essa informação limitada, não construtiva, parecendo que precisamos das amizades dos atletas, de estar naquele meio como verdadeiros papagaios de piratas e pior do que isso, com a remuneração menor do que a do Professor Raimundo, interpretado pelo saudoso Chico Anysio, na Escolinha do Professor Raimundo. Acho muito justo criticar, dizer que esse ou aquele não fez o melhor porque esporte sério é assim. Ou você acha que todo mundo que critica tinha que estar lá no Taiti, debaixo da arrebentação para poder falar alguma coisa? Se te deixam na cara no gol e você não faz, a critica cai em cima. Isso é normal em qualquer esporte do mundo. No surf não pode. Você tem que estar lá pra poder falar. Reflexo do que nosso esporte é hoje ainda, uma ervilha.

Essa pra mim foi a grande decepção que pude presenciar neste filmaco chamado Tahiti Pro. Faltou força de vontade, faltou atitude, faltou personalidade, faltou surf, faltou tudo. A mesma aula que ele dá nas marolinhas, tomou de todos em ondas maiores e sem esboçar se quer alguma reação negativa. Estava simplesmente amarradão de estar em terra firme. Segue o líder.

O Taiti Pro foi um show de surf de vários protagonistas guerreiros, que queriam escrever seus nomes na história do surf, na arena mais respeitada do planeta. Uns consiguiram, outros tentaram, se esforçaram, fizeram de tudo. Outros não. O legado que fica deste espetáculo que pudemos presenciar, é que o Circuito Mundial tem muita gente com surf no pé, muita mesmo. Parabéns Caio Ibelli, Adriano de Souza e Jadson André, vocês são verdadeiros gladiadores.

Para o nosso líder do ranking Filipe Toledo, uma melhor sorte para o resto da temporada e da carreira. Do jeito que vão as coisas, históricos resultados nas últimas etapas da temporada nos últimos anos, depender de Pipe para um titulo será complicado.

Neste filmaço chamado Tahiti Pro, daremos 2,83 para atuação de Filipe Toledo. Inclusive compartilhada nas suas redes sociais. Um tubão em pé avaliado em 2,83. “ No pain, no gain”.

Boa sorte a todos e que venha o Rancho!

Lá, eu acredito!

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