Evento controverso

Nosso colunista Lalo Giudice comenta todas as polêmicas da etapa de Bells Beach


Havaiano John John Florence vence em Bells e é o líder do ranking. Foto: WSL


Toda coluna, resenha, dissertação, livro, filme, arte, tudo na vida tem seu início, meio e fim. A introdução serve como apresentação do tema proposto de forma clara. O desenvolvimento, a estrutura, o corpo do assunto tratado e a conclusão, onde são propostos as soluções e resultados obtidos daquilo que foi exposto, desenvolvido e estruturado.

Porém, se o assunto em questão é a segunda etapa do Circuito Mundial de Surf Profissional, vencida pelo havaiano John John Florence, a vontade que dá é esquecer todo o início do evento, com inúmeros day offs, parecendo que seria mais uma etapa decidida na marola.

Esquecer completamente a derrota de Jessé Mendes, ainda no round 2, para um Mikey Wright, que continua sendo supervalorizado em suas notas.

Deletar as previsões errôneas do Surfline, divulgando por toda a semana a entrada de um swell épico, clássico, como o de 81 ou de 2006, sendo que tal ondulação vinha com 20 nós de vento maral - e de clássico, apenas o último dia da janela.

E por fim, tentar jogar um "liquid paper", de alguma maneira, na bateria entre o skimboarder Tom Curren e o touro indomável Mark Occhilupo, que ainda conseguiu salvar os 30 minutos mais monótonos do ano com uma bela manobra de backside.

Fatos estes que poderiam ter sidos relevantes em qualquer evento do Circuito Mundial, com talvez um maior destrinchamento dos mesmos. Porém, o acontecimento com o maior destaque e relevância no evento mais tradicional do circuito foi uma tremenda lambança na bateria mais aguardada do campeonato, o duelo entre o brasileiro Gabriel Medina e o havaiano John John Florence.

Há tempos não via erros tão grotescos e amadores como os que aconteceram nessa bateria. Algumas lembranças rápidas, até porque aberrações não fogem da cabeça facilmente: a bateria com Tanner Gudauskas em Trestles em 2016, a final em Portugal com Julian Wilson em 2012, a semi no Tahiti com o próprio John John em 2016.

Na fatídica e histórica bateria de quartas de final, me senti um idiota sendo enganado na cara dura. Passei a noite assistindo essa bateria e persisti depois, o que gerou mais indignação e revolta. Como pode uma onda ser avaliada em 8,87 com início e fim incompletos? Se o havaiano acerta essas duas manobras seria um 12,90? Como pode essa onda ser mais bem avaliada do que o 8,50 de Gabriel, com duas manobras gigantes, uma de início e uma de finalização?

A verdade é que John John já vinha sendo muito valorizado no decorrer do campeonato. Surfando o fino, isso ninguém pode negar, Florence vinha esbanjando fluidez e radicalidade, além de uma dose extra de borda em seus movimentos. Entretanto, algumas ondas do havaino no decorrer do evento já estavam sendo inflacionadas, sempre com alguns pontinhos a mais.

Em certas situações, o príncipe havaiano não definia a manobra em outside. Vinha dando as famosas manobras "set up", de ajuste de posicionamento na onda, sendo agressivo apenas em sua finalização. Na onda do 8,87, por exemplo, John John começou errando a manobra, ficando preso no lip, acertou a prancha e mandou o que seria a primeira manobra da onda, um cutback de ajuste. A onda armou em sua frente, o que lhe deu projeção pra acertar um grande layback (falaremos dos laybacks). Voltou do layback e consegui mandar uma grande rasgada, usando bastante a borda. Em seguida, uma outra rasgada usando o fundo de sua prancha e uma finalização incompleta. Sem tirar nem pôr, esta é a onda do 8,87.

Outro assunto que também precisa ser mencionado foram os famosos e repetitivos laybacks do havaiano. Inicialmente me chamou bastante atenção, quando este era muito bem executado, "pegava na veia". No decorrer do evento, fui analisando tal manobra a ponto de achar que já era uma manobra de jeito, de segurança.

Observe que em 90 por cento dos laybacks de JJF ele subia na horizontal, manobrava antes da junção, o que permitia uma maior segurança na volta da manobra, devido à ladeira que se formava na onda, sem "free fall", sem queda livre. Inclusive virou a manobra padrão de finalização de todos os regulares do evento, sem exceção.

Se o 8,87 do havaiano fosse 7,0 pontos, o que seria uma nota bastante razoável por sinal, com apenas duas manobras executadas com comprometimento, a vitória nessa bateria seria do fenômeno brasileiro Gabriel Medina. Gabriel, que vem surfando demais, melhor que o ano passado, a meu ver, mesmo ficando em quinto, tem um melhor começo de ano em relação à temporada passada. Surfou muito o evento inteiro e é, sem dúvida, o melhor e mais completo surfista do mundo na atualidade. Fico imaginando John John Florence de backside, em uma onda semelhante a Bells. Pode ser na esquerda do Mainbreak, em Margaret River. Como diz meu vizinho de 8 anos, "não faz nem cócegas".

Outro fato marcante na etapa de Bells foi a eliminação, também nas quartas de final, do potiguar elétrico Italo Ferreira, por interferência. Italo de fato pegou a onda sem prioridade, porém viu antecipadamente que Jordy viria na onda, decidindo sair da mesma. Esta saída, cruzando o caminho que o sul-africano iria percorrer, é que indicou a punição.

Recebi inúmeras mensagens, até com numeração do artigo do livro de regras da WSL, que indica a punição para este tipo de situação. O fato é que a própria entidade não cumpre com seus procedimentos internos, estatutos e livros de regras, o que nos dá brecha para interpretação. Seguiu a risca neste caso especifico de Italo e não segue com afinco no que diz respeito aos alternates da entidade, afinal de contas, o que o Mikey Wright está fazendo ali? E se Reef Heazlewood ganha de Medina em Bells, iriam jogá-lo no Tour também? E os critérios, livro de regras? Lembrei, a WSL é uma empresa privada com interesses e anseios diferentes do seu regimento interno. Na minha opinão, Jordy "cavou o pênalti", ou foi mais uma "bola na mão" dentro da área, sujeito a interpretação. Talvez também fosse um recado da entidade para o ano todo, neste tipo de situação de interferências.

A verdade é que com todas essas contradições e alguns erros gritantes, quase ganhávamos o campeonato. E desta vez, Filipinho Toledo não era o grande favorito desta final. Veio correndo pelas beiradas, fazendo bateria por bateria até chegar à grande final. Pela primeira vez, perde uma final em baterias homem a homem, já que também perdeu pra Medina no Rancho ano passado, em baterias por apresentações. Grande resultado para Toledo neste início de ano.

Ao restante dos brasileiros, uma menção muito positiva ao paranaense Peterson Crisanto, que vem fazendo um bom início de ano, muito maduro por sinal, além de Willian Cardoso, que já mostrou que merece ficar mais tempo na elite.

Que venha Bali, com suas ondas quentes, culinária rica e resorts super aconchegantes. Pra WSL, nem adquirindo muitos toldos ou alguns guarda chuvas, conseguiriam parar de alguma maneira a tempestade brasileira. Talvez, seria mais apropriado uma previsão do tempo com uma grande empresa neste segmento. De repente, a mesma que previu o swell épico de Bells esta semana. Será?

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