Desfecho histórico

Lalo Giudice comenta todos os momentos marcantes da etapa de Bells Beach


Italo Ferreira e Mick Fanning fizeram a final do evento histórico em Bells. Foto: Kelly Cestari / WSL


A segunda etapa do Championship Tour terminou de forma histórica na cultuada onda de Bells Beach, no estado de Victoria, Austrália. Antes de falarmos sobre a vitória esmagadora do potiguar Italo Ferreira e das performances de todos os brasileiros, precisamos enumerar alguns acontecimentos que marcaram este evento em sua 57a edição.

Assim como na primeira etapa, na Gold Coast, conseguimos observar também, mais visivel nos primeiros rounds, notas muito achatadas, ondas que seriam anteriormente na casa dos 8 pontos, se transformarem em 6 baixos. A nova comissão técnica da WSL está realmente disposta a dar uma nova cara aos critérios de julgamento. Speed, Power and Flow (velocidade, força e fluidez) estão sendo falados e divulgados a todo instante entre os especialistas da própria WSL e canais abertos por todo mundo. Segundo a própria entidade, esta “escala baixa” em relação às notas dos atletas serve para puxar o nível dos mesmos, elevando ainda mais o esporte.

Não acredito que seja a melhor estratégia para a elevação do esporte. Quem não se lembra, antes eram as quatro melhores ondas no somatório, depois passou pra três ondas, e agora duas. As baterias hoje, a depender do mar, chegam a ter 40 minutos de duração. As janelas de espera de cada evento com 11 dias, nas melhores ondas do mundo, no famoso Dream Tour (circuito dos sonhos).

Já que o surfe está buscando afinco, profissionalização, e até iremos participar dessa Olimpíada de Tóquio (lembrando que o surfe não virou esporte olímpico e ingressou apenas nesta Olimpíada), teremos que nos moldar a outros esportes, talvez até como o UFC, que bonifica o atleta pela suas performances, como melhor nocaute, luta da noite, performance da noite.

Bonifique um atleta de surfe, dê dinheiro a ele em cada evento com a melhor manobra, a melhor performance, a melhor bateria do evento, e você verá uma evolução muito maior do que simplesmente baixar as notas de um julgamento subjetivo. Quem assistiu à transmissão pela WSL pôde acompanhar os desajustes que essa nova escala está trazendo.

Os próprios comentaristas da WSL na web, especialistas a longo prazo - um inclusive foi juiz da entidade por longas datas - não conseguiam diferenciar uma onda boa de uma excelente, então é preciso muito cuidado com essa nova abordagem.

Ezekiel Lau utiliza estratégia agressiva para eliminar bicampeão John John Florence. Foto: WSL / Sloane.


Outro fato que também entrou em destaque nos principais meios de comunicação do mundo foi a bateria no round 3 entre o havaiano bicampeão mundial John John Florence e o também havaiano Ezekiel Lau.

Logo no início do embate, sem a primeira prioridade definida, Lau literalmente impregnou John John na remada, não deixando espaço nem para se mover. Isso aconteceu também no meio da bateria, quando Lau, sem a prioridade, colou novamente em John John, dando-se ao luxo de remar em volta do bicampeão mundial, que se intimidou com as ações de seu compatriota.

Ao término da bateria, em sua entrevista, Zeke explicou que realmente foi uma estratégia para tirar a concentração do campeão, e que deu muito certo. Mas, o que de fato me chamou atenção, foi o entendimento positivo que a imprensa internacional deu para essa “estratégia agressiva” de Lau.

A própria Stab Magazine (site australiano) publicou que achou muito importante e interessante para o surfe atual. As expressões "It was Fun, I´m pretty stocked" (Foi divertido, estou amarradão) não cabem mais para um esporte profissional. Você está enfrentando um adversário que treinou muto para estar ali, você não vai se divertir com ele, e sim, para vencê-lo, aniquila-lo dentro de uma regra e princípios.

Engraçado que nós, brasileiros, já compartilhamos este sentimento de batalha há muito tempo e fomos até criticados por isso. Peterson Rosa e Neco Padaratz já tinham esse espirito competitivo no fim dos anos 90 e 2000.

Adriano de Souza então, foi criticado inúmeras vezes pela imprensa internacional e atletas, dentre eles Taj Burrow e Kelly Slater, pela sua marcação e comemorações excessivas. Hoje em dia, não sei qual atleta não faz o tão famoso "claim" ao fim de uma onda boa. Vamos torcer por mais baterias deste tipo.

Etapa marca a despedida de Mick Fanning. Foto: WSL / Sloane.


Voltando ao emblemático evento de Bells, que marcou a despedida do maior surfista do mundo naquela onda, e sem dúvida um dos maiores competidores da história do surf mundial, o australiano Mick Fanning, o que se viu foi um espetáculo do potiguar Italo Ferreira, que se encaixou com maestria nas poderosas direitas de Bells. Começou o último dia de competição humilhando o havaiano Ezekiel Lau, que não conseguiu sair da combinação.

Já nas semis, bateu de frente com o campeão mundial de 2014, Gabriel Medina, que vinha de uma bela apresentação contra o português Frederico Morais e que já havia vencido o próprio Italo duas vezes nesta etapa. Com uma escolha de onda melhor e um pouco mais encaixado, Italo superou Medina e seguiu em frente para a grande final contra o australiano tricampeão do mundo, Mick Fanning.

Na grande final, que começou um pouco morna e alguns erros primários por parte dos dois finalistas, Italo conseguiu se encaixar em duas boas direitas, fazendo as tradicionais batidas retas, o que lhe credenciou como o melhor sufista do evento, levando a melhor sobre Mick, estragando a festa australiana da torcida lotava as areias de Bells Beach.

Para Medina, o melhor resultado nesta onda desde que entrou no Tour. Surfando muito e com uma das melhores abordagens de backside do mundo, se não for o melhor, vai para Margaret com muita confiança. Um grande resultado lá pode ser crucial para o resto do ano.

Nosso Capitão Nascimento, Adriano de Souza, que sempre teve grandes resultados em Bells Beach, fez uma das piores baterias de sua carreira contra o americano Conner Coffin. Pegou ondas boas para fazer os scores que precisava e errou movimentos simples, como na última onda, que precisva de um 3,19 e fez apenas 2,90, e realmente a nota era essa.

Filipinho, surfando muito como sempre, mais uma vez no ano competiu contra Italo Ferreira no round 3 e desta vez se deu mal. Mesmo com Filipe passando da casa dos 15 pontos, Italo mostrou que realmente estava em sintonia com as ondas, despachando o ubatubense.

Caio Ibelli mais uma vez perdeu para Wilian Cardoso e continua sem passar uma bateria este ano, amargando duas 25º colocações. Vai ter que correr atrás e Margaret pode ser um bom lugar para ele fazer um grande resultado no ano. Já o Panda surfou muito bem, como era de se esperar, sendo barrado por Medina no round 3, vendendo caro sua derrota.

Michael Rodrigues e Tomas Hermes também não conseguiram repetir as grandes atuações que tiveram na primeira etapa na Gold, perdendo no round 2 em Bells. Torcer para que em Margaret voltem a aprontar e passar boas baterias. Um grande resultado nessa arena seria muito importante para a confiança de ambos em ondas de consequência.

Já Yago Dora continua sem passar baterias em 2018. Surfou até acima do esperado, fazendo um somatório na casa dos 13 pontos e perdendo por detalhe. Margaret será outra onda em que Yago terá muita dificuldade.

Já o paulista Jessé Mendes surfou bem o primeiro round, fazendo linhas bem feitas e arcos bem desenhados. Acredito que o resto do ano será mais interessante para esse talentoso surfista.

Italo Ferreira vence a etapa com um backside afiadíssimo. Foto: WSL / Sloane.


Por fim, Ian Gouveia, que ainda não se encontrou este ano no Circuito Mundial. Muito trabalho pela frente para este pernambucano, que entuba muito e radicaliza nos aéreos, porém precisa melhorar seu approach no famoso base lip, além do link entre uma manobra e outra.

Não podemos deixar de exaltar a performance da nossa única atleta no CT, Silvana Lima, que surfou muito, desbancanado a tricampeã mundial e favorita ao evento, Carissa Moore, nas quartas de final, finalizando a prova em 3º lugar.

Por fim, agradecer infinitamente a um dos maiores surfistas de todos os tempos, o tricampeão mundial Mick Fanning. Ídolo de uma geração que redefiniu as linhas das ondas em movimentos plásticos, arcos perfeitos, cirurgicos e uma velocidade jamais alcançada, comprovada pela própria WSL, em seus testes com chips em pranchas.

Parecia que os deuses estavam a seu favor. Utilizando o emblemático símbolo da Rip Curl, The Search, famosa nas pranchas do Tom Curren, tudo estava dando certo em Bells.

Mick foi crescendo de produção à medida que passava as baterias, qualidade só de campeão, e só foi parado pelo melhor surfista da etapa, Italo Ferreira, na grande final.

Mesmo assim, mostrou que é um verdadeiro campeão e com muita elegância e simplicidade, curtiu seu vice-campeonato como se fosse mais uma vitória em sua carreira, sem palavras.

Clique aqui para participar do nosso grupo no Fantasy da WSL (senha surfbahia2018).

PUBLICIDADE http://bit.ly/1ZEkdaJ

Relacionadas

Nosso colunista Lalo Giudice analisa a vitória de Gabriel Medina no Surf Ranch Pro

Nosso colunista Lalo Giudice comenta a expectativa para o início do Surf Ranch Pro

Nosso colunista Lalo Giudice conta a história competitiva do ilheense Rudá Carvalho

Lalo Giudice fala sobre mais uma brilhante vitória de Gabriel Medina em Teahupoo

Nosso colunista Lalo Giudice analisa os candidatos ao título do Tahiti Pro em Teahupoo

Nosso colunista Lalo Giudice comenta a vitória de Filipe Toledo em J-Bay

Nosso colunista Lalo Giudice comenta a vitória de William Cardoso em Uluwatu, na Indonésia

Nosso colunista Lalo Giudice comenta a vitória de Italo Ferreira em Keramas, na Indonésia