Exemplo de superação

Fabrício Fernandes presta homenagem ao amigo Jerze David, local de Stella Maris nos anos 80


O ano era 1987 e, em conjunto com um amigo, organizei o primeiro campeonato de surf do Corrente, que na verdade foi realizado no Secret.

Nessa época o pico era mesmo secreto. Não existia quase nada em Stella Maris, nem ônibus ia até lá. A praia só tinha uma barraca e ninguém se preocupava com assaltos ou violência.

As ondas quebravam em torno de 4 a 6 pés, lisas e extensas. Muito boas mesmo.

A final era composta por quatro competidores: Ricardo Camundongo, Duda Nescau, Bruce Kamonk e Jerze David.

Jerze e Bruce se revezavam na liderança, mas, faltando cinco minutos para o fim da bateria, Jerze acha uma direita, desfere três pauladas de backside e fica com o troféu de primeiro colocado.

A maioria das pessoas do meio do surf não chegou a conhecer Jerze Davi, o “Jegão”! Seu surf era baseado na força e seu estilo muito parecido com o de Wayne “Rabitt” Bartholomew.

Jerze era um desses adolescentes hiper ativos que estava sempre zoando todo mundo, se dando bem com as meninas nas festinhas e surfando o tempo todo.

Em um dia, voltando de carro de uma fazenda com seu amigo Cacau, sofreu um grave acidente de carro. Cacau, um grande cara, veio a falecer e Jerze ficou em coma por um período. Para desespero da família, por não terem encontrado seus documentos, só foi identificado alguns dias depois.

Entre a vida e a morte, Jerze não desistiu de lutar. Resistiu e sobreviveu. Mas a vida jamais seria a mesma para ele.

O acidente havia deixado várias sequelas e por um bom tempo Jerze viveu em cima de uma cama, sem poder movimentar seus membros ou ao menos falar. Nessa hora nascia o guerreiro Davi que queria viver, e com o apoio da sua família enfrentava a sua mais difícil batalha.

O gigante Golias que agora estava à sua frente, como na história bíblica, era a vida, que testaria a sua vontade de vencer, sua força e fé em si mesmo.

Entre fisioterapias difíceis, fonoaudiólogas, dores e tristezas que só ele e sua família sabem, Jerze David aos poucos foi recuperando alguns movimentos, saiu da cama para a cadeira de rodas e, mesmo com enormes dificuldades, até voltou a se comunicar através da fala. Claro que faz isso com grande esforço, mas com muita alegria.

Nessa sua dura batalha que já dura em torno de duas décadas, o momento mais fantástico que tive notícia depois do acidente foi ver sua foto no Facebook andando na esteira.  

Não acreditei naquilo, e quando abri vi muitos comentários de apoio e incentivo. Ao ver aquilo, não tive como conter algumas lágrimas que teimavam em escorrer. De novo Davi enfrentava Golias e vencia!

Jerze se casou, teve uma filha linda chamada Beatriz e vive com seus pais que estão sempre ao seu lado.

Hoje ainda acompanha o surf, as performances de Slater e dos brasileiros no WCT pela internet, e volta e meia, pelo Facebook, comentamos esses campeonatos ou filosofamos sobre a vida.

Mesmo morando a 1700km de distância, como disse a ele outro dia, Jerze David é um grande exemplo para mim de que viver vale a pena e que temos que lutar sempre para sermos felizes!

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