Dias melhores

Fabrício Meneses comenta histórico do circuito mundial e sonha com mudanças no Dream Tour


Desde o início do século XX, na época do havaiano Duke Kahanamoku, já existiam campeonatos de surf, mas foi mesmo em 1976, com a criação da IPS (International Professional Surfers) que o surf começou a se profissionalizar.

O primeiro campeão foi o australiano Peter Towned. E de lá para cá muita coisa mudou.  O movimento Bustin Down the Doors, com nomes como Shaun Tomson, Wayne "Rabbit" Bartholomew e Mark Richards.

Eles redesenharam a maneira de surfar, mostrando como se andava no tubo e manobrando com muito mais estilo, principalmente MR, com suas famosas biquilhas, chegando a até então imbatíveis quatro títulos mundiais .

Nos anos 80, a IPS foi substituída pela ASP (Association of Surfers Professionals), Simon Anderson inventou as triquilhas e Carroll e Occy chocavam o mundo com a nova maneira de se surfar. Força contra natureza. Nascia assim o power surf.

Mas, em paralelo, o californiano Tom Curren  escrevia seu nome como uma das maiores lendas do esporte, com seu estilo polido e de manobras modernas que levou o mundo a lhe apelidar apropriadamente de Mr. Perfection.

Nessa época, os surfistas já reivindicavam etapas em ondas melhores, mas havia o problema de retorno de mídia para os patrocinadores, já que o surf não era televisionado e não existia TV a cabo e nem internet. Então, o que se via muitas vezes eram surfistas muito bons duelando para ver quem andava mais na espuma da onda.

Martin Potter, insatisfeito, declarou isso na mídia especializada. E exatamente dois anos depois, em 1989, era coroado campeão mundial, mostrando ao mundo que uma nova era estava chegando.  Manobras radicais era o que Mr. Pottz trazia de novo. E era isso que o mundo queria ver!

A ASP, cansada da fórmula de mais de 20 anos, resolveu dar uma sacudida no circuito, logo depois do fantástico retorno de Curren, coroado tricampeão mundial depois de três anos de afastamento. O circuito passava a ser dividido em duas divisões, sendo que os surfistas da primeira divisão poderiam correr as etapas da segunda. Passaram a existir os top 44 do WCT e o resto do mundo no WQS.

Aí começava a ser escrito o maior capítulo da história do surf mundial. A lenda Robert Kelly Slater era coroada campeã do mundo, quebrando o recorde de Tom Curren ao ser o surfista mais novo a ser campeão mundial, com apenas 20 anos. O brasileiro Flávio Teco Padaratz era o primeiro campeão mundial WQS.
A partir daí, o surf nunca mais seria o mesmo.

Kelly Slater redefiniu a maneira de surfar, quebrou todos os recordes, inventou manobras, entubou mais fundo que todos, manobrou onde ninguém manobrava, revolucionou a maneira de surfar ondas maiores com pranchas muito pequenas e acumulou títulos e vitórias de uma forma que até então era tida como impossível.

Seus amigos Rob Machado, Kalani Robb e Shane Dorian, entre outros, junto com o cineasta Taylor Steele e sua série Momentum, mostravam que aqueles que não acompanhassem a mudança estariam fora.
O retorno da lenda Mark Occhilupo no meio dos anos 90, somada às performances surreais de Kelly Slater, deram novo brilho ao circuito.

Nesse período, a tecnologia mudou e a internet elevou o surf a outro patamar. Com as transmissões online, o surf se igualava a outros esportes com comentaristas, polêmicas com torcedores espalhados pelo mundo todo e fóruns de discussões que enriqueceram muito o esporte.

Agora fazia sentido a eterna reivindicação dos surfistas por ondas melhores, já que o público virtual traria para os patrocinadores o desejado retorno de mídia. Ondas como G-land, Cloudbreak, Barra de La Cruz, J-Bay passaram a fazer parte do Tour dos sonhos e as high performances ditavam os novos rumos do surf.

O circuito ficou morno com a saída de Kelly, voltou a esquentar com o seu retorno e as batalhas épicas entre ele e Andy. As performances foram elevadas a níveis absurdos, a internet tornou-se muito mais rápida e o show sofreu constantes mudanças com os novos matérias, designs de pranchas, muitos deles criados por Slater, que também reviveu as quadriquilhas, inventadas pelo brasileiro Ricardo Bocão.

O nome WCT mudou para WT, mas voltou para WCT. A quantidade de atletas variou de 44 para 42 e para 32 na primeira divisão, e de 16 para 15 e para 10 para classificação pelo WQS. O ranking foi unificado para classificação, mas não para o título mundial, e tentou-se uma rotação no meio do ano para tornar as competições mais acirradas, além de uma quase criação de um circuito rebelde entre Kelly e seus amigos, o que estimulou essa série de mudanças.

Mas, chegamos ao momento atual e o surf não pode parar. Mudaram-se o CEO (Chief Executive Officer), os direitos de imagem e mídia foram vendidos para uma grande empresa de marketing e a gestão da ASP passa por um período de reestruturação. Por isso, esse é o momento, é preciso propostas urgentes de mudanças.

As etapas têm que ser sempre nos melhores picos de ondas perfeitas, nos melhores lugares. E às vezes 10, 12 dias tornam-se um período curto para que o show seja nas melhores condições. Teahupoo e Pipeline já tiveram que ser finalizadas em condições ridículas e no dia seguinte quebraram perfeitas. Que tal abrir uma lacuna nesses casos e estender o prazo quando existe a previsão de um bom swell chegando?

E por que os patrocinadores, em conjunto com a ASP, não investem em fundos artificiais em locais com potencial para sediar etapas? O Rio de Janeiro não seria mais questionado como parte do Dream Tour, já que tem excelentes swells e boas condições de vento, mas fundos horríveis.

O surf tem uma grande dificuldade de ser televisionado por causa da duração de um campeonato que, para se completar, precisa de 27 horas corridas. Some-se a isso os fatores de espera por swell, ventos corretos e ondulação que encaixe certo na bancada. O que fazer então?

Com a redução de 12 surfistas na primeira divisão, já conseguiu-se encurtar em algumas horas a competição. Mas ainda é pouco. Então, que tal utilizar o dual heat inventado por Kelly? A competição fica muito mais dinâmica, ganha-se tempo e o espectador não fica por 5, 10 minutos sem ver nenhum tipo de ação.

Mas penso que a mudança mais importante seria nas questões de definição de ranking e título mundial. O nome não é one world ranking? Então, por que todas as etapas não valem para o título mundial? 

No ano passado, Slater perdeu o título porque não teve como descartar um 13º. E se ele, percebendo isso, tivesse corrido um Prime e vencido? O resultado seria equivalente a um terceiro no WCT, o que lhe daria o título. Mas, Joel Parkinson, sabendo disso, também competiria em etapas Prime.

Este ano, é muito provável que Medina não tenha mais chances de chegar ao título mundial. Mas, se pudesse computar as etapas do WQS? E qual não seria o estímulo de um surfista em saber que, mesmo não fazendo parte da elite, ele poderia chegar ao título mundial?

Continuaríamos contando apenas os oito melhores resultados, independente de WCT, Prime ou WQS.
Com isso, as chances de um desconhecido chegar ao título mundial seriam praticamente nulas, mas já de um surfista que disputa o Prime, apesar de difícil, não seria impossível.

E os surfistas do WCT dariam um brilho maior ao Prime, possibilitando o aumento de exposição de mídia e consequentemente de injeção de dinheiro. Com isso, diversos locais que não têm etapas do WCT, teriam etapas Prime com a maioria dos atletas do WCT presentes.

Já até passei a sonhar com uma etapa Prime em Scar Reef, Praia do Forte ou coral de Itacimirim. Ou, quem sabe, no período certo uma etapa do WCT nas poderosas esquerdas do Farol de Itapuã, com Heloy Júnior, Bruno Santos e Ricardinho dos Santos como convidados?

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