Tropa de elite
Fabrício Fernandes revela primeiras impressões do WCT na Barra da Tijuca (RJ)
A expectativa era grande e a previsão de boas ondas deixava a ansiedade ainda maior para o início da etapa do WCT no segundo dia do prazo de espera.
Como as competições iniciaram em uma quinta-feira, eu não teria chance de assistir a muitas baterias, já que, como a maioria dos mortais, trabalho de 7 às 19 horas, com um intervalo de duas horas de almoço.
Logo olhei o cronograma e pude ver que, um pouco antes do almoço, saindo mais cedo, poderia assistir às baterias de Kelly, de Raoni e de Gabriel “The Show” Medina. O resto me contentaria ao final do dia, vendo os highlights.
O Postinho apresentava 1 metro e meio, com algumas séries maiores, mas as ondas estavam bem difíceis de serem surfadas por nós, mortais, e por muitos dos tops.
A forte correnteza dificultava ainda mais o posicionamento no pico. Então, em muitas baterias, o que se viu foram notas baixíssimas de tops que não se encontraram dentro do mar.
Entre os brasileiros, Adriano de Souza, sempre competitivo, passou a sua bateria, dispensando a repescagem, com duas ondas razoáveis. Um pequeno tubo em uma onda intermediária e um aéreo 360 garantiram, respectivamente, as notas 6.07 e 6.00, carimbando seu passaporte para o terceiro round.
Sebastien Zietz mostrou que é um calouro que vai dar trabalho, e com bons tubos fechou com um somatório acima de 15 pontos.
As sensações australianas Mick Fanning e Joel Parkinson fizeram apenas o necessário para passar, um surf pouco empolgante. Pior foi Taj, que não se encontrou e foi para a repescagem.
Cheguei ao Postinho exatamente às 10 horas, no início da bateria do 11 vezes campeão do mundo Kelly Slater.
É impressionante ver a multidão que Slater consegue movimentar nas suas baterias. Todos se acotovelavam na praia para chegar perto do ídolo, tirar fotos com ele e assistir ao seu show.
E ele não decepcionou. Desceu duas cracas fechadeiras. Na primeira delas, colocou para dentro muito fundo, depois de um drop absurdo e, após sair da primeira seção, tentou um segundo tubo sem sucesso. Nota 8.9 e aplausos da praia toda.
Sua segunda onda foi uma repetição da primeira, só que não tão funda. Nota 7.4, deixando seus adversários em combination.
O interessante de assistir às baterias de Slater é que ele não desiste nunca, desce em todas as ondas, acreditando que vai fazer a mágica. Enquanto seus adversários desciam duas, três ondas, ele surfava mais de dez, demonstrando um preparo físico impressionante remando contra a forte correnteza.
Sua saída do mar foi outro show. Todos queriam algum momento único com o ídolo, mas óbvio que a segurança de água estava ali para tranquilizar a situação.
Logo na sequência, Raoni não se encontrou na bateria e caiu para a repescagem, mas com os treinos em Saquarema na semana deve voltar afiado e acredito plenamente na sua recuperação.
Mas o bolo na cereja estava guardado para logo mais. Gabriel Medina, para mim, sem desmerecer Mineirinho, a nossa maior esperança de título mundial, iria cair na água.
Se uma multidão cercava Slater, Medina era ovacionado pela praia toda. Quem nunca assistiu um campeonato WCT das areias não tem ideia da vibração que é estar ali. Principalmente em casa, podendo torcer pelos ídolos brazucas de perto. A energia era de arrepiar.
Medina começou morno. Tentou, como Damien Hobgood, dropar umas ondas atrás da laje, mas logo percebeu que não seria ali que teria sucesso. Desceu um pouco mais para o inside, despencando em uma craca de backside em um grab rail lindo, cheio de estilo e com a colocação perfeita. Fiquei olhando vidrado.
Achei que ele tinha morrido lá dentro, mas para minha surpresa ele emergiu do lugar mais imprevisível possível. A multidão enlouqueceu em gritos e aplausos por um bom tempo. Assim também foi quando ele passou na beira, sentado no jet-ski, para voltar para o pico. A nota foi 9.77, a maior do campeonato até então.
Se você já esteve no estádio de futebol do seu time e presenciou um gol deste, sabe do que estou falando, pois a sensação era a mesma!
Para fechar com chave de ouro, Medina ainda dropou uma outra craca de backside com mais um tubo profundo, tirando 8,23 para fechar o caixão dos seus adversários com o maior somatório do dia, 18 pontos.
Enquanto isso Damien Hobgood não achava nada com mais de 1,5, e Dusty Payne, com tubos sem saída, conseguia apenas 5,43 na sua maior nota.
Quando Medina saiu do mar, pude perceber que ali se criava um mito, pois ele surfa espetacularmente.
Também como Kelly, não desiste de nenhuma onda e você nunca sabe o que ele vai fazer na seção da onda, como ao final do segundo tubo, quando ainda tentou um aéreo 360, mas sem sucesso.
Ao sair do mar, os seguranças de água tiveram muito trabalho, pois toda a praia o envolvia, querendo ao menos tocar no garoto prodígio. O barulho ensurdecedor que escutávamos era de aplausos e de todos gritando "Medina, Medina!".
Depois disso, apenas Jordy Smith deu show, igualando o 9.77 de Medina.
A previsão para sexta-feira é de boas ondas a partir da tarde, e no fim de semana o show está garantido.
Continuo na minha aposta de Medina e Mineiro na final, mas muito cuidado com o careca, que ainda fez um tubo animal nos treinos na quinta à tarde.