Lembrança inesquecível
Luciano Piupa relembra detalhes da sua primeira vaca, aos 12 anos
Calma, não é desta primeira vez que você está pensando. É da primeira vaca, caldo, seja qual for o termo que você queira usar para este sinistro momento que infelizmente faz parte de qualquer surfista.
Ainda me lembro da situação como se fosse hoje, ou melhor, aqui e agora! Basta fechar os olhos que a fatídica cena se manifesta num telão virtual da minha mente.
Em uma linda manhã de setembro de 1989, acordei bem cedo, o sol começava a brilhar no horizonte e tudo parecia tranquilo, em seu devido lugar.
Tomei um banho, me arrumei e fui ao Centro, em Ilhéus, comprar uma cordinha (leash). De volta para casa, na Av. Lomanto Júnior, no Pontal, sentado nas últimas cadeiras do ônibus, olhava da janela esquerda as ondas formarem na Boca da Barra enquanto minhas mãos seguravam fortemente a cordinha que eu acabara de comprar.
Depois do café, eu sempre gostava de olhar o mar antes de ir surfar, mas as horas haviam passado rápido e só deu tempo de passar em casa, trocar de bermuda, pegar a minha prancha, uma 5'8", e sair direto para a praia.
Por morar próximo ao mar, tinha o privilegio de escolher a praia com melhores condições de ondas para surfar. Fiscal, logo em frente à cabeceira do aeroporto de Ilhéus, Meache, um dos favoritos da rapaziada do Pontal, ou Ponta, local de treino dos meus amigos Bruno Galini, Charles Costa, Jerônimo Bonfim e toda galera da zona sul de Ilhéus.
Eram 11 horas da manhã quando comecei a pisar na água. As ondas estavam perfeitas, a água cristalina, ótima formação e, melhor, apenas seis cabeças.
Fiquei hipnotizado, e quando fui me aproximando e vi o tamanho das ondas em minha frente, a ficha caiu: ondas grandes, pesadas e fechando muito rápido para um garoto de 12 anos.
O mar estava casca-grossa! Pensei em desistir, mas já era tarde. Resolvi encarar! Quando comecei a "furar" as primeiras ondas, meu coração não pulsava, acelerava e a adrenalina ia a mil.
A série não parava! Era uma onda atrás da outra, cada vez maior. Levei um bom tempo para entrar.
Os minutos iam passando, e eu começava a ficar bastante angustiado, só queria uma única onda para poder sair, pois não estava preparado para enfrentar.
Surgiu a primeira da série, deitei na prancha e comecei a remar em direção à onda. Posicionei-me, dei umas braçadas, segurei na borda, apoiei o joelho e fiquei de pé em fração de segundos. Daí pensei: "agora era só escolher a direita ou esquerda e dropar".
Parecia tudo redondinho, mas tudo que é bom dura pouco. E quando vi o tamanho do paredão, não senti as pernas e caí.
Meu amigo, quem nunca vacou jamais poderá sentir o sufoco que nós, surfistas, passamos nesse momento. Foi uma onda atrás da outra na cabeça, me jogando para baixo, de um lado para outro, bebendo muita água.
Só me restou uma coisa: tirar a bendita cordinha que tinha comprado algumas horas atrás, subir até a superfície da água com muita dificuldade e me sentir livre, e mesmo sem força, sair do mar nadando e hoje poder estar aqui para contar o meu pior momento no surf, a minha primeira vaca.
Posso dizer que nasci de novo!
Depois desse episódio, aprendi a nunca mais desafiar o mar, e se tiver que puxar o bico, eu vou puxar. Quem quiser que me chame de amarelão!
"O mar é uma obra de arte, criado com uma imensa perfeição por Deus e exclusivo para os peixes. Por isso, hoje eu oro antes de entrar no lugar de forte impacto".