Profissão de risco

Alexandre Piza fala sobre as dificuldades e os segredos na divulgação dos boletins de onda


Já faz um certo tempo, mas nunca me esqueço. Li a notícia de que o surf repórter de um dos maiores sites da América Latina (Waves) sofreu sérias represálias da galera local ao exercer seu trabalho. O pico em questão era a Guarda do Embaú, em Santa Catarina.

Na época eu morava em Floripa, e o caso deu muito o que falar. Muitos contra e muitos a favor da não divulgação das condições de picos considerados “restritos”.

A selvageria na Guarda replicou atitudes negativas em diversos lugares, foi um Deus nos acuda para os haoles em geral.

Campeche, Joaca, Barra da Lagoa e Santinho foram só alguns picos onde focos de stress rolaram soltos.

Não é comum sair na imprensa, ainda mais aqui no Brasil, episódios de violência envolvendo o surf. É mais comum escutarmos histórias sobre os havaianos black trunks, e olhe lá. Muita coisa fica só entre a galera mesmo, não vai para mídia.

Culturalmente, aqui no Brasil, se mascara tudo o que é negativo para a imagem do surf, desde uma mega crise de mercado, até uma simples briguinha de rabeação num mar de meio metrinho. Não é novidade para ninguém que tem muita coisa debaixo do tapete que você sequer ficará sabendo.

A principal onda da Guarda é uma esquerda que rola na boca do rio. A bancada fica mais do que perfeita em diversas condições. A onda é muito longa, dá para cansar as pernas de tanto manobrar e, com sorte, ainda rolam bons tubos.

Existem também outras valas excelentes mais para o meio da praia, mas nada comparado à máquina que é o canto esquerdo. E essa bancada do canto esquerdo, se estiver muito crowd, realmente fica complicada de surfar, ainda mais com a cultura geral brasileira da famosa voltinha no pico, onde o cara pega uma e volta já sentando novamente na prioridade da onda.

O trabalho do rapaz consistia em fazer alguns cliques do pico e escrever as condições de surf diariamente. Simples, sem muito segredo. Será mesmo?

Parece simples, mas não é. Grande parte da galera local defendeu vetar os boletins das ondas, dizendo que o pico não comportava tanta gente, não só no outside, mas sim pela infraestrutura em receber os turistas. Pontos chaves como saneamento básico e educação ambiental foram colocados à frente da truculência exercida pelos locais na época do ocorrido. Se hoje você olhar no site, verá que a Guarda nem está mais listada como pico de surf da região. Será que foi grave? Isso foi em 2002.

Em 2005, fui passar um tempo na Austrália e acabei me tornando surf repórter de Manly Beach. Imediatamente minhas memórias remeteram ao ocorrido na Guarda. Será que algum dia alguém me repreenderia por informar as condições do pico? Qual a melhor forma de fazer isso sem incomodar os locais? Mais ainda, o que são “locais”?, será que essas pessoas existem mesmo e têm algum direito sobre o pico? E os frequentadores pacíficos - moradores ou não -, como será que reagirão ao meu trabalho?

Quem surfa há bastante tempo e já rodou um pouquinho por aí, sabe o que é localismo, já deve ter sido hostilizado em algum momento, nem que tenha sido sem motivo. A real é que é uma situação bem desagradável, estraga a vibe do surf, seja dentro ou fora d’água.

Na Austrália foi tudo bem, adequei meus reports sem ser muito entusiástico, chamar as pessoas para os picos nunca foi de meu feitio. Claro que não se pode mascarar um mar clássico, pois senão o serviço perde credibilidade, mas existe uma medida certa para ponderar o chamariz para que a cidade toda não se desloque para o pico “X”. Nenhum mar, clássico ou não, iria comportar tanta gente acima do que já recebe diariamente, sem que haja abalo na harmonia.

Bom, eis que em 2008, imediatamente voltando da Austrália, fixei residência em Salvador e agora sou responsável pelos reports de Aleluia e Stella Maris desde 2009, posto que me fora gentilmente passado por Luis Lima e sua esposa Sandra Campos e serei eternamente grato, pois além de eles serem gente finíssima, faziam um excelente trabalho por aqui.

Utilizo a mesma técnica ponderada em reportar sem incitar um deslocamento em massa para determinado point, principalmente em Aleluia, que é um lugar onde a onda rola praticamente sempre no mesmo lugar, com no máximo duas valas, raramente três.

A galera de Aleluia já veio falar comigo por causa de uns comentários feitos especificamente para alguns longboarders, que se posicionam muito no outside e vêm remando desde lá de fora em qualquer coisa que se pareça com uma onda. Até aí é aceitável, mas o problema é a famosa voltinha no pico para se posicionar na prioridade da onda, e quem está mais embaixo, de pranchinha, já sem a desvantagem da remada, fica a ver navios, literalmente, pois somente assiste aos pranchões indo e voltando.

Não creio que fazer esse tipo de comentário seja desrespeitoso. Todos que estão ali querem pegar onda, nada mais justo do que respeito entre os tipos de pranchas, onde todos possam se divertir.

Tirando isso, nenhum local realmente casca-grossa de Aleluia se incomoda com os boletins no site. Já conversei com vários deles e tudo certo.

E vou dizer para vocês que muitos locais de Stella, meus amigos inclusive, brincam comigo dizendo que esse crowd todo é, em grande parte, de minha responsabilidade. Sei que essa é uma maneira de eles me dizerem para continuar maneirando nos comentários, informando sem causar alvoroço acima do que o pico comporta.

Só que agora uma nova modalidade de surf repórter está surgindo no pedaço. As redes sociais democratizaram espaços coletivos, onde internautas postam, em tempo real, as condições do mar, usando dispositivos móveis (tablets e celulares). Tiram a foto e relatam o que está ocorrendo no mar.

Acredito que essa seja uma evolução sem volta e é excelente para quem está com dúvida em sair de casa para surfar. Os boletins dos sites são feitos pela manhã e as condições mudam rapidamente, principalmente o vento. É um serviço gratuito e muito bacana, tem ajudado bastante para todo mundo dar o tiro certeiro.

Como é um serviço novo e que qualquer um pode se aventurar nos posts, muitos chamarizes mais exaltados do tipo “galera, tem altas no pico X, pode ir que tá valendo muito a queda”, têm criado um pequeno foco de tumulto em spots digamos, com lotação mais sensível. Já tenho notado um certo desconforto de alguns frequentadores diários de alguns picos em receber uma quantidade maior de pessoas no outside. E no meio dessas pessoas, temos alguns menos educados, e esse é o problema maior. Chegam sem respeito algum, desarmonizam geral, não colaboram em nada e nem sequer levam seu lixo de volta.

As redes sociais têm pulverizado essas informações das condições de surf rapidamente. Hoje você não precisa mais acordar cedo, olhar de sua janela a direção do vento, do clima e ir até à praia ver se tem onda. Hoje em dia tudo é feito de sua própria cama, acessando a internet. A questão é a forma como isso está sendo feito e as consequências negativas que comentários inconsequentes irão causar em picos sensíveis à superpopulação.

Além de informar, o papel de educar é primordial, e devem caminhar juntos. Tem muita gente somente preocupada com o status em ser um “surf repórter” e pode estar dando um tiro no próprio pé.

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