Repensando a educação
Colunista Fabio Tihara reflete sobre os rumos da educação no país
No último fim de semana (22 e 23/10), foram realizadas as provas do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM).
Depois de anos conturbados e desastrosos, parece que não tivemos nenhum problema mais sério este ano.
Muitas universidades do Brasil já estão adotando ou pretendem adotar as notas dos alunos no Enem para o acesso ao ensino superior.
Apesar de crer que o Enem não é a solução ideal para o ingresso do estudante à universidade, acredito que o fato de termos outra opção que não o tradicional vestibular, seja um passo para um diálogo numa mudança.
Tempos atrás, tivemos propostas do então candidato à presidência Cristovão Buarque, que tinha em seu discurso e proposta principal o foco na educação.
Por sua insistência no tema, foi tachado de louco pelos eleitores e virou motivo de chacota pela população.
Buarque definitivamente não era o melhor candidato na ocasião, mas não acho insanidade insistir na educação.
Insanidade são os dados do Censo 2010, que diz que 14 milhões de brasileiros são analfabetos (cerca de 8% da população) e, mais grave ainda, diz respeito ao analfabetismo funcional.
Segundo o INAF (Indicador Nacional de Analfabetismo Funcional), 75% dos brasileiros são considerados analfabetos funcionais. Onde 8% são analfabetos absolutos, 30% leem, mas compreendem muito pouco e 37% entendem alguma coisa, mas são incapazes de interpretar e relacionar informações.
Esses números refletem o resultado do modelo atual da educação que temos no país. Um modelo defasado, desestimulante e ineficiente.
A grande questão não é apenas investir na educação, mas também repensar nossos conceitos sobre a educação. Pergunte para qualquer jovem se ele gosta de ir à escola.
O educador britânico Ken Robinson (autor dos livros Out of Our Minds e The Element) estuda e busca entender as origens e as consequências do modelo básico da educação no mundo. Para ele, a escola não dá conta das necessidades da economia global, nem dos complexos anseios dos novos alunos.
Traduzindo em miúdos, a escola não está preparada para educar os jovens do mundo moderno. A escola é desinteressante porque não fala a linguagem dos jovens. Pelo contrário, ela reprime.
Elas não se adequaram às mudanças que ocorreram e nem atentaram ao auxilio das novas tecnologias que tanto interessam os jovens, como celular, internet, computadores, televisão.
É preciso falar a linguagem dos jovens, atraí-los pelos seus interesses e despertar a vontade de aprender. Parece radical, mas Robinson diz que todo o sistema de ensino se assemelha e é organizado como uma linha de fábrica, com sinos, matérias especializadas, crianças separadas por lotes e grupos de idades.
Não levamos em conta a individualidade e a capacidade individual de aprendizado. Nenhuma criança é burra ou inteligente, conheço pessoas que não terminaram o fundamental e que realmente não sabem nada de química ou biologia, mas entendem de softwares, programas e códigos de computadores como ninguém.
Isso tudo sem contar a pressão para o vestibular e a escolha da profissão. Lembro bem dessa fase e não desejo a nenhuma pessoa. Ainda hoje, a sociedade pressiona e estabelece que quem tem diploma é inteligente e quem não tem é burro, sendo que na realidade um diploma não é e nunca foi garantia de nada.
O caminho é quebrar as barreiras e os tabus e renovar os conceitos antigos como linearidade, padronização, utilidade e incentivar pensamentos e estimular conceitos como a criatividade, vitalidade e compartilhamento. Valorizar o aluno e respeitar a individualidade criando um ambiente inspirador e produtivo.