Verdades incovenientes

Jornalista Camile Maltez debate sobre a problemática do tráfico de drogas em Itacaré


Na semana passada ficamos chocados com a triste notícia da morte, aos 22 anos, do free surf, local de Itacaré, Ícaro Ageu.

Uma morte brutal e violenta, com requintes de crueldade. O corpo tinha marcas de pauladas, marteladas e sinais causados por uso de facão.

Segundo informações do Comando da Polícia Militar de Itacaré, três homens envolvidos na morte de Ícaro Ageu já estão presos, um deles é velho conhecido do tráfico de drogas na cidade.

O juiz de Itacaré já decretou a prisão dos acusados. As investigações ainda estão em andamento, pois existem outros suspeitos de envolvimento.

O cumprimento da justiça não irá trazer Ícaro de volta, mas assim poderemos recuperar o desejo de dias melhores.

Não conhecia o garoto, mas sua morte gerou uma série de manifestos contra a violência e aos desmandos que vêem acontecendo no deslumbrante refúgio.

Entre estes manifestos, li dois textos bem interessantes. O primeiro da amiga Patrícia Rodrigues, paulista e exímia conhecedora de Itacaré e do surf brasileiro. O outro texto foi do camarada e colega de profissão Fábio Tihara, que também fez uma abordagem bem crua e muito bem embasada de Itacaré.

Desculpe encher vocês com mais um texto, mas precisamos ser realistas e coerentes com os fatos. O jovem Ícaro Ageu (que mais uma vez digo que não conhecia), não sei se por coincidência ou não, morreu de maneira muito peculiar aos milhares de adolescentes que de alguma maneira se envolvem com o tráfico de drogas no nosso país.

Temos notícias todos os dias de como o tráfico de drogas é cruel. Eles (traficantes) simplesmente não perdoam dívidas ou traição com tráfico e, geralmente, este é o recado que mandam para os outros: "se vacilar acaba assim". A morte de Ícaro pode está servindo de exemplo para os outros.

Como afirma Fábio Tihara, "o que acontece com Itacaré acontece no resto do país. Crescimento desordenado, falta de políticas públicas, má administração, limitação da segurança pública, etc, etc..."

Porém, há uma grande diferença: muitas pessoas de Itacaré, claro que com grandes exceções, por décadas fizeram questão de intitular a cidade como "território livre". 

Agora falo com conhecimento de causa. Nasci em Ilhéus e freqüento Itacaré desde sempre. Além da indiscutível beleza natural e invejada potencialidade das ondas, Itacaré sempre foi o lugar em que se podia fumar maconha e consumir qualquer outra droga em qualquer lugar e que você nunca, nunca mesmo, era importunado pela segurança pública.

Continuo falando com conhecimento de causa. Um delegado de polícia, para ser bom em Itacaré, tinha que fazer vista-grossa para os inúmeros usuários de drogas, consumindo em qualquer horário do dia e em qualquer lugar. A Polícia Militar não podia agir, pois corria o risco de sofrer retaliação política.

Com o passar dos anos chegou a bucólica Itacaré o tráfico de drogas pesado e especializado, que, por sinal, se tornou um problema grave na maioria das cidades brasileiras.

O traficante que está em Itacaré tem o mesmo perfil do que está em Salvador, no Rio de Janeiro ou em outra grande cidade. O negócio deixou de ser "caseiro" e tornou-se profissional.

O comentário do internauta Sérgio C. Sá no texto de Tihara, publicado aqui no SurfBahia, expressa toda a realidade: não adianta manifesto contra as atrocidades do tráfico de drogas, não adianta manifesto pela falta de segurança pública se antes o cidadão "de bem" enrola o baseado e fuma para relaxar.

Na minha modesta opinião os consumidores de maconha e de outras drogas proibidas são quem alimentam o tráfico. Portanto, são responsáveis, ainda que secundários, pelos assaltos que vitimam turistas e nativos, pelos estupros, pelos sequestros e pelos assassinatos brutais, como o do jovem Ícaro Ageu.

Maconha é droga sim! Ela movimenta e alimenta o tráfico e a violência. Pensar o contrário é ilusão, hipocrisia. A comunidade precisa dar nomes aos corruptos, exigir providências, mas também denunciar os traficantes e por fim perceber que usar drogas não é uma coisa normal.

A natureza, o surf, o pôr do sol, a praia e o mar podem ser curtidos de "cara", ou todos continuarão a assistir Itacaré se transformar em um local onde as estatísticas dos crimes são cada vez mais assustadoras.

Inclusive porque a grande maioria está ligado ao uso e comércio de substâncias ilícitas. O uso de drogas gera o tráfico, que gera a violência, que gera o medo, que gera a morte, que gera a revolta.

Veja também:

Paraíso ou inferno?

Ícaro deixa saudade

Assista agora:

Primeiro manifesto pela paz em Itacaré

Delegada de Itacaré recebe manifestantes

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