Paraíso ou inferno?

Fabio Tihara discute os graves problemas sociais em Itacaré (BA)


Uma das minhas maiores preocupações no momento é a construção do complexo Porto Sul na região entre Ilhéus e Itacaré.

Pensando melhor, acho que esse assunto era o mais preocupante, não é mais.

Foi com tristeza que li a noticia da morte do surfista Ícaro Ageu. Não o conhecia pessoalmente, mas fiquei sentido pelo fato de tê-lo visto no fim de semana, na etapa do Nordestino em Itacaré.

Há muito tempo Itacaré deixou de ser o paraíso ecológico, destino de fissurados pelo surf e boas ondas. Ficamos chocados pelo ocorrido ter afetado a comunidade do surf, mas histórias como a de Ícaro não são novidades na região.

Com o crescimento urbano e populacional, Itacaré cresceu muito em um curto espaço de tempo. Invasões foram construídas, desmatando a Mata Atlântica, rios e nascentes poluídas por falta de um sistema de esgoto apropriado, crescimento populacional desordenado, falta de empregos, tráfico de drogas, sistema de saúde precário, falta de segurança e policiamento e todas as problemáticas típicas de uma cidade grande.

Além dos problemas citados, acrescente a invasão de forasteiros vindos de outros estados e países que com dinheiro compraram terras e dominaram os negócios e o comércio local.

Mas calma, eu falei cidade grande? Li numa revista estrangeira que Itacaré era "cosmopolita", "cool", "hype" e mais alguns termos da moda. Muito bonito de se ler e difícil de se ver.

Lembro da primeira vez que fui a Itacaré. Eu e meu irmão ficamos encantados com a áurea daquele lugar que parecia uma comunidade mística.

Certa vez, conversando com o legend Ronaldo Fadul, contou-me que no final da década de 70, costumava-se ver capivaras bebendo água na praia da Tiririca.

Hoje essa cena é improvável e no lugar das capivaras vemos "rastafaris" jogando capoeira e gringas fazendo topless.

Não, não estou sendo preconceituoso, estou sendo realista e sincero: prefiro as capivaras.

Polícia, drogas, desemprego, desmatamento, Deus ou o Diabo. É fácil apontar culpados, difícil é dar a solução para os problemas.

Sabendo que tudo começou de forma errada, como pousadas construídas na praia, resorts com casas no meio da mata, forasteiros com dinheiro comprando terras a preço de banana, gringos inflacionando o paraíso.

Na contramão desses fatos estão os nativos, que, sem opção, venderam suas terras e construíram nas invasões, muitos deles sem emprego, pois a mão de obra especializada vem de fora e só sobraram os sub-empregos.

Com isso vem o pacote completo, que incluem drogas, prostituição, violência e marginalização.

E como ninguém está pensando em educação ou estudo, o individuo pega uma prancha, vai para Tiririca ou Engenhoca surfar e impregnar no cara que é de Ilhéus ou Itabuna, bate no peito dizendo que é local, mas abre as pernas para o paulista e o gringo com dinheiro, mostra os "secrets" na esperança de faturar algum trocado. Nenhuma novidade, já que essa é a profissão mais antiga do mundo. 
 
Não condeno, muitos são reféns do sistema e não têm noção do impacto de suas ações.

O quadro que pinto é pessimista com toques de realismo e sem um pingo de hipocrisia.

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Icaro deixa saudade
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