Histórias de surfista

Luciano Piupa Amaral relembra primeira surf trip e a primeira lição de vida


Uma semana antes do carnaval de 1996, estava prestes a curtir a minha primeira barca do surf, e o pico escolhido pela rapaziada foi a praia do Pé de Serra.

Os amigos, Joca, Igor, Lú e Fred saíram de Ilhéus na quarta. Eu e Coca, shaper da Vênus, seguimos viagem no inicio da tarde ensolarada de sexta, logo depois do almoço.

Colocamos as pranchas e as mochilas no bagageiro do ônibus e partimos em busca de uma trip diferente, cheia de ondas perfeitas.

No fundão, em uma das cadeiras da janela, do lado direito do ônibus, sentei, apertei o play do meu walkman Aiwa e segui viagem prestigiando os coqueirais, o mar e as ondas do litoral norte, ao som do Spy vs. Spy.

Quando o ônibus parou em frente ao pico, ainda da janela, não acreditei no que vi. Na imensa área do camping, só havia a barraca da galera. Admito que não gostei da ideia. Esperava movimentação, agitação e não aquele paradeiro.

Ao caminhar em direção à barraca, ia murmurando, dizendo para mim mesmo: "O que vim fazer aqui?".

Na barraca, estavam todos parcialmente molhados, sentados na grama, “detonando” a gororoba que tinham acabado de cozinhar. A situação era engraçada, mas não para mim, que naquele momento estava pirado com a situação.

Só me restou cumprimentar a galera, guardar a minha mochila, trocar de roupa, pegar minha prancha Alamoa 6'3 e sair correndo em direção ao mar para relaxar.

O dia estava bonito e ensolarado, o mar estava verde e liso, um verdadeiro espelho d’água, as ondas quase 2 metros e uma extensão que parecia não acabar mais. Antes de passar da arrebentação e chegar ao outside, furava as ondas de espumas brancas e flutuantes, e meu humor começava a mudar.

O mar estava tão impecável que o restante da galera não resistiu, todos pegaram suas pranchas e fizeram outra sessão.

No mar, o horizonte balançava, meus olhos brilhavam e ficavam intactos a cada série, parecia não acreditar nas ondas que começavam a surgir lentamente, levantando um paredão que chegava a tampar o visual do barco de pesca que se encontrava a milhares de milhas em minha frente.

Enquanto esperava outra série, agradecia a Deus por cada drop, cada manobra e cada remada de volta a mais uma série espetacular.

Foram todos os dias assim, uma perfeição inacreditável, boas ondas, várias séries, um dia alucinante e inesquecível de surf e noites de luar ao toque da brisa que invadia nossa barraca. Noite e dia, dia e noite, a cada nascer da lua e pôr do sol.

O paradeiro e a piração foi apenas na chegada, pois com aquela energia que o mar me proporcionou durante a tarde de 96, contagiou também o camping, que ficou completamente lotado e no dia seguinte, não tinha somente a nossa barraca, mas centenas delas.

Às vezes, reclamamos de tudo, queremos fazer as coisas do nosso jeito, e não prestamos atenção nos dias fenomenais que Deus prepara para cada um de nós.

Nessa barca em Pé de Serra, pensei que ia ter os piores dias, mas pelo contrário, foram os melhores de minha vida.

O surf é mais que um esporte, é terapia, é qualidade de vida.

Obrigado e até a próxima história de surfista.

Luciano Piupa Amaral.
Escritor e Pensador
Jornalismo12@hotmail.com
(0xx73) 8843-9613
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