Contrastes soteropolitanos
Alexandre Piza fala sobre trânsito, sujeira e educação em Salvador
Por: Alexandre Piza
Na edição de março / abril do SurfBahia Mag, nosso colunista Alexandre Piza publicou um interessante texto sobre a sujeira em Salvador, ampliada depois do Carnaval.
Prestes a mais um lançamento do SurfBahia Mag, cuja edição de maio / junho será lançada esta semana, vamos relembrar alguns momentos interessantes dos nossos colunistas no início do ano.
Confira a íntegra do texto produzido por Alexandre Piza.
"A alegria do verão contrasta demais com a agonia do flat e do crowd. Os dias quentes esquentam os ânimos e cozinham a paciência de quem esperou para ter alguns dias de descanso e está na pilha de pegar umas ondinhas no seu pico ou fazer uma viagem para algum lugar diferente.
O que chama mais a minha atenção aqui na Bahia realmente tem sido a falta de educação e a sujeira nas praias. Grande parte do Estado vive em função do ano novo e, sobretudo, do carnaval. Tudo é feito para o turista se embriagar de “felicidade” e nem reparar nos problemas que enfrentamos no cotidiano.
O lixo nas ruas e nas praias, os engarrafamentos bizarros, a violência urbana cada dia pior, o desrespeito total às leis mais básicas dos seres humanos têm deixado alguns lugares a ponto de explodir. Mas meus amigos que vêm de fora não conseguem reparar direito nisso, acreditam?
Para eles, é tudo festa, bagunça, cerveja, mulherada, camarote, Barra, Ondina, Chiclete, aeroporto e tchau! A única coisa que é unânime é mesmo o excesso de lixo e a forma com a qual o tratamos, principalmente em Salvador, pois no carnaval a concentração de turistas é bem mais evidente.
Todos os esforços do poder público são de maquiar a cidade e isso eles estão fazendo até que direitinho, seja na política da embriaguez e curtição, seja na política de jogar um tapete bonito para cobrir a sujeira.
Se falássemos que não existem os meios de comunicação, as campanhas de conscientização, a “onda” da reciclagem, as vantagens de sermos “limpos”, etc, tudo bem, eu até poderia entender que a falta de informação e a ignorância de alguns tivessem algum efeito no resultado da sujeira sem limites.
Existe uma teoria que diz “trate o povo como lixo, e tenha o lixo de volta na porta de sua casa em forma de violência, sujeira ou falta de educação”. Durante algum tempo, achei que essa era uma boa explicação, mas percebi, em minhas andanças e observações, que o povo de renda mais baixa até tem menos consciência e faz mais vistas grossas para a “porqueira” sua ou dos outros.
Porém, a elite por aqui também está bem longe de tomar atitudes ecologicamente corretas, e mais, o problema nem é só a atitude, pois fazer por fazer não adianta, mas sim ter a consciência dos porquês de se tomar tais atitudes.
Além do problema com o lixo, que também faz parte da falta de educação, os outros problemas cotidianos nos têm feito trazer pra dentro da água parte desse stress. Vejo, nos line ups por aí afora, que tem muita gente nervosa e sem a mínima noção das leis mais básicas de trânsito aquático. Estamos literalmente nos esquecendo de ensinar o alfabeto do surf aos mais novos e iniciantes.
Esses dias comecei a bater um papo com um garotão que mora no mesmo condomínio que eu. O cara já está no seu segundo verão no surf e não sabia nada sobre as prioridades, sobre rabear, sobre pra onde remar quando alguém pega uma onda e você está voltando para o fundo, etc. Para quem é mais experiente, pode soar até meio absurdo, mas a culpa é nossa... Não estamos nem aí pra passar nosso conhecimento adiante. Em vez disso, o garoto estava com um hematoma gigante no rosto por ter sido atingido por uma prancha de um cara mais velho e mais experiente.
E o que isso vai gerar? Um efeito dominó, uma ira do garoto que um dia vai se transformar num sujeito truculento e sem educação, seja dentro ou fora da água, simplesmente porque ninguém perdeu cinco minutos para explicar algo simples e, em vez de disso, preferiu soltar a prancha no rosto do cara. E o pior, à noite, na rodinha dos amigos, deve ter contado essa história como um feito heróico, dando risada e contando a maior vantagem do universo.
Se não tivermos as manhas de parar e analisar o que está rolando, vamos ficar eternamente lutando contra as consequências e não contra as causas. E sei que o jargão é batido, velho e até ultrapassado, mas não tem jeito: a educação é a base de tudo.
Sei que vivemos em uma sociedade extremamente competitiva, a correria está cada vez maior, somos cobrados toda hora por resultados, grana, especializações, concursos, temos que ser melhor que o filho do vizinho, temos que conseguir o melhor emprego, a melhor casa, o salário mais alto, o carro mais possante, a prancha mais “gringa” e estamos esquecendo de viver a essência, de contemplar nossa existência nesse planeta maravilhoso, curtir mais, viver mais.
Confesso que me sinto até meio babaca de vir aqui passar um recado que deveria fazer parte do dia-a-dia de todos nós. Bom, neste inverno o mar está bombando. Vamos aproveitar e contemplar com educação?"
Fonte SurfBahia Mag
Prestes a mais um lançamento do SurfBahia Mag, cuja edição de maio / junho será lançada esta semana, vamos relembrar alguns momentos interessantes dos nossos colunistas no início do ano.
Confira a íntegra do texto produzido por Alexandre Piza.
"A alegria do verão contrasta demais com a agonia do flat e do crowd. Os dias quentes esquentam os ânimos e cozinham a paciência de quem esperou para ter alguns dias de descanso e está na pilha de pegar umas ondinhas no seu pico ou fazer uma viagem para algum lugar diferente.
O que chama mais a minha atenção aqui na Bahia realmente tem sido a falta de educação e a sujeira nas praias. Grande parte do Estado vive em função do ano novo e, sobretudo, do carnaval. Tudo é feito para o turista se embriagar de “felicidade” e nem reparar nos problemas que enfrentamos no cotidiano.
O lixo nas ruas e nas praias, os engarrafamentos bizarros, a violência urbana cada dia pior, o desrespeito total às leis mais básicas dos seres humanos têm deixado alguns lugares a ponto de explodir. Mas meus amigos que vêm de fora não conseguem reparar direito nisso, acreditam?
Para eles, é tudo festa, bagunça, cerveja, mulherada, camarote, Barra, Ondina, Chiclete, aeroporto e tchau! A única coisa que é unânime é mesmo o excesso de lixo e a forma com a qual o tratamos, principalmente em Salvador, pois no carnaval a concentração de turistas é bem mais evidente.
Todos os esforços do poder público são de maquiar a cidade e isso eles estão fazendo até que direitinho, seja na política da embriaguez e curtição, seja na política de jogar um tapete bonito para cobrir a sujeira.
Se falássemos que não existem os meios de comunicação, as campanhas de conscientização, a “onda” da reciclagem, as vantagens de sermos “limpos”, etc, tudo bem, eu até poderia entender que a falta de informação e a ignorância de alguns tivessem algum efeito no resultado da sujeira sem limites.
Existe uma teoria que diz “trate o povo como lixo, e tenha o lixo de volta na porta de sua casa em forma de violência, sujeira ou falta de educação”. Durante algum tempo, achei que essa era uma boa explicação, mas percebi, em minhas andanças e observações, que o povo de renda mais baixa até tem menos consciência e faz mais vistas grossas para a “porqueira” sua ou dos outros.
Porém, a elite por aqui também está bem longe de tomar atitudes ecologicamente corretas, e mais, o problema nem é só a atitude, pois fazer por fazer não adianta, mas sim ter a consciência dos porquês de se tomar tais atitudes.
Além do problema com o lixo, que também faz parte da falta de educação, os outros problemas cotidianos nos têm feito trazer pra dentro da água parte desse stress. Vejo, nos line ups por aí afora, que tem muita gente nervosa e sem a mínima noção das leis mais básicas de trânsito aquático. Estamos literalmente nos esquecendo de ensinar o alfabeto do surf aos mais novos e iniciantes.
Esses dias comecei a bater um papo com um garotão que mora no mesmo condomínio que eu. O cara já está no seu segundo verão no surf e não sabia nada sobre as prioridades, sobre rabear, sobre pra onde remar quando alguém pega uma onda e você está voltando para o fundo, etc. Para quem é mais experiente, pode soar até meio absurdo, mas a culpa é nossa... Não estamos nem aí pra passar nosso conhecimento adiante. Em vez disso, o garoto estava com um hematoma gigante no rosto por ter sido atingido por uma prancha de um cara mais velho e mais experiente.
E o que isso vai gerar? Um efeito dominó, uma ira do garoto que um dia vai se transformar num sujeito truculento e sem educação, seja dentro ou fora da água, simplesmente porque ninguém perdeu cinco minutos para explicar algo simples e, em vez de disso, preferiu soltar a prancha no rosto do cara. E o pior, à noite, na rodinha dos amigos, deve ter contado essa história como um feito heróico, dando risada e contando a maior vantagem do universo.
Se não tivermos as manhas de parar e analisar o que está rolando, vamos ficar eternamente lutando contra as consequências e não contra as causas. E sei que o jargão é batido, velho e até ultrapassado, mas não tem jeito: a educação é a base de tudo.
Sei que vivemos em uma sociedade extremamente competitiva, a correria está cada vez maior, somos cobrados toda hora por resultados, grana, especializações, concursos, temos que ser melhor que o filho do vizinho, temos que conseguir o melhor emprego, a melhor casa, o salário mais alto, o carro mais possante, a prancha mais “gringa” e estamos esquecendo de viver a essência, de contemplar nossa existência nesse planeta maravilhoso, curtir mais, viver mais.
Confesso que me sinto até meio babaca de vir aqui passar um recado que deveria fazer parte do dia-a-dia de todos nós. Bom, neste inverno o mar está bombando. Vamos aproveitar e contemplar com educação?"
Fonte SurfBahia Mag
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