XXL: a vez de Danilo

Tulio Brandão, colunista do site Waves, exalta big rider Danilo Couto


Danilo Couto é um dos surfistas mais admiráveis do mundo das ondas grandes. Começou sem estardalhaço, à sombra dos big riders mais celebrados na mídia, mas persistiu: mudou-se para o Hawaii em 1996 e, desde então, muitas vezes pelejando com uma grana escassa, corria para onde apontasse o melhor swell do mapa mundi.

Para o low profile Danilo, baiano que aprendeu a surfar na praia de Barravento, a evolução foi um prêmio muitas vezes silencioso, percebido inicialmente apenas pelos seus pares de line-up. Discreto, só aparecia quando os editores se curvavam às suas perfomances fora da curva.

Preferiu construir sua reputação dentro d´água. Tijolo a tijolo. Até ano passado, ele já tinha sido finalista quatro vezes do prêmio mais importante de ondas grandes do mundo, o Billabong XXL Global Big Wave Awards: maior onda em 2004, maior tubo em 2005, melhor performance em 2007 e maior onda em 2010. Várias finais, nenhuma vitória.

Nesta temporada, um maduro Danilo deixou de ser apenas um excelente surfista para se transformar – na companhia de Márcio Freire, Yuri Soledade e outros cascas-grossas – num destruidor de paradigmas. Surfou paredes de 20 metros em Jaws, Peahi, na remada. Numa das ondas, a mais histórica, desceu no vazio, de backside, e recuperou a prancha para dominar a montanha d´água em toda a sua extensão.
 
É um desses feitos inesquecíveis, que alteram significativamente os caminhos de um esporte, que redefinem fronteiras. Imediatamente lembro de Laird Hamilton, no início da década passada, encaixando no trilho dum Teahupoo gigante a reboque de um jet-ski.

Ninguém jamais tinha visto aquilo. Assim como ninguém tinha visto um surfista dropar, na remada, de costas para a conta, uma bomba assassina de 20 metros em Jaws. As imagens da performance de Danilo são auto-explicativas: até quem nunca viu mar entende o que aquilo significa.

A quebra do limite deve gerar mudanças no surf. É prematuro concluir qualquer coisa agora, mas ver surfistas remando com autoridade em Peahi me fez imaginar o dia em que jet-skis só estarão ali para salvar vidas, e não mais para rebocar pranchas para dentro das ondas.

Mas o avanço da remada por montanhas d´água antes inalcançáveis ao braço humano não ameaça o tow in. Pelo contrário, a tendência é que as duplas que usam a máquina para entrar em ondas busquem novas fronteiras para o esporte, como ondas oceânicas, em alto mar.

O júri do Billabong XXL soube reconhecer o feito de Danilo e, desta vez, indicou-o à final em três categorias – onda do ano, maior onda na remada e melhor performance na temporada. Souberam ser justos com o atleta, agora patrocinado pela O´Neill do Brasil, ao incluí-lo entre os finalistas em todas as categorias possíveis.

Mas ainda falta o principal: dar a ele o cheque de US$ 50 mil pela onda do ano. Não há outro caminho. Grandes surfistas estão na disputa, com performances avassaladoras – como a de Michael Brennan em Shipstern Bluff – mas nenhuma delas provocará uma revolução nos limites do esporte. Este é um argumento definitivo para qualquer jurado sério.

Tulio Brandão é colunista do site Waves e autor do blog Surfe Deluxe. Trabalhou três anos como repórter de esportes do Jornal do Brasil, nove como repórter de meio ambiente do Globo e hoje é gerente do núcleo de Sustentabilidade da Approach Comunicação.
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