Estrela baiana

Ader Oliveira escreve sobre Armando Daltro, ícone do surf baiano


Dia desses, navegando pelo Youtube, encontrei um precioso vídeo com o nosso ilustre campeão mundial do WQS Armando Daltro.

Clique aqui para ver o vídeo

As imagens foram produzidas há alguns anos, durante um free surf nas Ilhas Maldivas. Obviamente é um vídeo antigo, mas que traz ótimas recordações de um dos maiores surfistas brasileiros de todos os tempos.

Não é segredo para ninguém que Mandinho sempre foi um exemplo de surfista profissional. Educado, inteligente e competitivo, foi uma verdadeira máquina de competir nas décadas de 90 e início de 2000.

Já venceu os dois maiores surfistas dos últimos tempos - Kelly Slater e Andy Irons - e nos deu o único título mundial de surf até hoje ao conquistar o WQS no ano de 2000.

Voltando ao vídeo do Youtube, fiquei observando a energia com a qual Mandinho costumava fazer suas apresentações na água.

Dono de um surf muito veloz, ele ganhou o mundo com uma arma mortal nas baterias: a rasgada de frontside.  Poucos surfistas no Brasil acertam um "carve" com tamanha precisão, e olha que essa manobra é uma das mais valorizadas pelos juízes na elite mundial!
 
Em sua carreira, Armando Daltro conquistou seis vitórias em etapas do WQS, um número bastante expressivo (sem falar nas finais que disputou). Representou muito bem o Brasil na elite mundial durante sete anos e chegou perto da vitória em duas etapas - França e Japão.

Seu primeiro pódio no WCT foi em 1999, em Chiba, Japão, onde foi parado pelo californiano Rob Machado por um placar apertado na semifinal, 19.1 a 18 pontos (na época eram somadas três notas). Nesse mesmo evento, o californiano tirou o também baiano Christiano Spirro na terceira fase.

A primeira fase teve Mandinho e Spirro na mesma bateria, que contou ainda com o havaiano Andy Irons, terceiro colocado no confronto. No caminho ao pódio, Mandinho passou ainda pelo australiano Beau Emerton, o havaiano Ross Williams e o aussie Luke Hitchings.

Um ano depois, Armando Daltro obteve seu melhor resultado na elite mundial ao ficar em segundo lugar em Lacanau. Novamente o algoz do baiano foi Rob Machado, que estragou a festa de Mandinho na final.

Diferentemente do Japão, a campanha não começou muito boa. No primeiro round, Mandinho caiu para a repescagem depois de ficar atrás do australiano Daniel Wills e de Rob Machado. A recuperação veio com uma boa vitória sobre Beau Emerton. Na terceira rodada, a vítima foi outro australiano, Taj Burrow. Antes de ser parado por Machado na decisão, Mandinho despachou ainda Guilherme Herdy, Michael Campbell e Shea Lopez.
 
Além de disputar sua primeira final no WCT, faturar o título do WQS e ajudar a equipe brasileira a conquistar medalha de ouro no ISA Games em Maracaípe (PE), Mandinho protagonizou outro momento inesquecível no ano de 2000. Em Trestles, pegou uma bateria nada agradável na primeira fase e fez a mala dos norte-americanos Kelly Slater e C.J. Hobgood, fato que chamou a atenção de toda a mídia internacional.

Tive ainda a oportunidade de ver de perto uma bela performance de Mandinho em 2006, quando ele já estava prestes a abandonar as competições. Em Huntington Beach, Califórnia (EUA), Armando Daltro reforçou a equipe brasileira no tradicional ISA Games e levou nosso país ao pódio na categoria Open com uma campanha impecável.

Na final, ele não entrou em sintonia com as ondas e ficou atrás de Jordy Smith (1o), Luke Stedman (2o) e Pat OConnell. O resultado ajudou a equipe brasileira a levar a medalha de prata na disputa por equipes.

Foram muitos resultados expressivos, muitas glórias e uma história de vida que influenciou e continua influenciando muita gente no surf baiano. Porém, não vejo o merecido reconhecimento por parte das marcas de surfwear.

Mandinho foi injustiçado por algumas empresas que não cumpriram suas promessas e ficou diversos anos sem patrocínio. Posso até estar exagerando, mas um surfista com uma história tão repleta de grandes momentos dentro e fora da água como ele não merecia estar sem um patrocínio.
 
Um grande surfista como ele não precisa estar competindo para dar retorno a uma marca. Vejo muitas empresas investindo em atletas já aposentados das competições e que disputam campeonatos apenas quando querem.

Aqui no Brasil, temos Fabinho Gouveia, Peterson Rosa, Christiano Spirro e Guilherme Herdy, por exemplo. No exterior a gente até perde as contas. Surfistas como Luke Egan, Mark Occhilupo, Tom Curren, Daniel Wills, Tom Carroll e muitos outros pararam de competir e continuam patrocinados.

Uns viajam para produzir vídeos e fotos, outros cuidam dos atletas mais jovens da marca, dirigem eventos e por aí vai. As experiências e opiniões desses ídolos têm um valor imensurável. O que dificilmente acontece lá é um atleta com um histórico tão exemplar ser deixado de lado e ter de buscar outros trabalhos para sustentar suas famílias.

Muitas vezes o surf nos traz momentos mágicos, inesquecíveis. Em outras, trazem desilusões e injustiças como essa. Mas nada vai apagar a história desse atleta que tanto honrou a Bahia e o Brasil pelo mundo.
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