Lenda ilheense
Derô José e Gabriel Macedo entrevistam Vinho Tolouco, lenda do surf ilheense
Por: Derô José e Gabriel Maced
Em meados da década de 80 e na década de 90, Flávio Duarte, ou Vinho Tolouco, como é mais conhecido no surf ilheense, era presença constante nas competições e no outside.
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Na década de 80, ainda mirim, surfava de igual para igual com os profissionais em Ilhéus. Na década de 90 foi presença constante nos pódios, principalmente em Expression Session, disputa em que ganhava sempre com uma batida invocada que ele mesmo conta aqui nesta entrevista. Segundo Vinho, ele foi o inventor dessa manobra juntamente com Dadá Figueredo, surfista carioca super radical dos anos 80 e 90.
Anos mais tarde, se encontraram no Rio e conversaram sobre a manobra.Vinho é uma figura muito gente boa que tem surf na veia e poderia ir mais longe como muitos no Brasil afora que por falta oportunidade não puderam seguir adiante. Nesta entrevista, ele nos conta um pouco da sua história que daria um livro de causos surfísticos.
Como surgiu esse apelido Vinho Tolouco?
Não sei bem ao certo (risos). Vinho vem de Flavinho. Tolouco? Acho que eu era bem polêmico, eu era meio "bad" quando moleque. Não arrumava encrenca, não, mas se o cara alterasse eu partia pra cima. E lembro de ter alertado um free surf rabeador na época pra ele ficar antenado quando me rabeou em algumas ondas. Ele não quis escutar e simplesmente tomou uma pranchada nas costas (muitos risos).
Lembro também de uma final mirim que fiz em Olivença, na Batuba. Estava lutando pelo título, pois iriam premiar o campeão com uma inscrição no Fico Surf Festival de 1988 em Stella Maris, Salvador, e eu estava muito afim de ir. O fato é que todos na areia viram claramente que eu ganhei o evento e fui extremamente "garfado", daí me bateu uma ira, dei paulada em juiz, joguei areia pra cima do palanque... Lembro de ter sido amparado pelo "brotherlharaço" e big rider Yuri Soledade, que levou-me pra pousada dele.
Descreva como foi o seu começo no surf e como surgiu esse estilo tão polido.
Comecei a surfar em 1983, no mesmo ano em que nasceu a Associação Ilheense de Surf e a revista Fluir. Foi uma responsa muito grande. O mar era pesado e as ondas muito grandes, iniciei com uma miçaire monoquilha aos 12 anos, hoje tenho 37. Pelo fato de morar na beira de praia - morava no alto da Piedade -, influenciado pelos surfistas mais antigos, e dos programas “Armação Ilimitada”, do Kadu Moliterno e André De Biasi, “Realce”, do Ricardo Bocão e Antônio Ricardo, o surf naquele tempo virou febre, anos New Wave.
Lembro de ter ficado impressionado na época com o power surf do talento regional “Nego Adílson”, esse possuía um backside explosivo, era uma espécie de Martin Potter brasileiro, não entendo porque não virou no cenário mundial do surf, e o mesmo encorajou-me no mar que era pesado e a botar pra baixo com braveza.
Sei que não foi fácil tornar-me um surfista naquele tempo, já que sofri muita pressão, preconceito de todos os lados, principalmente da familia, sociedade, pois o surf era um esorte marginalizado, repugnado, escrachado. Mas consegui seguir firme, ignorando a tudo e a todos, já que tinha me identificado, tinha descoberto um hobby forte, um estilo de vida.
Foi na praia da avenida Soares Lopes que tudo começou para mim, onde dei meus primeiros passos e dropei as primeiras ondas. A medida em que crescia, conferia outras ondas na orla da avenida, como por exemplo, Espigão e Catedral. O tamanho e a qualidade dessas ondas era inacreditável, extasiado falava pra mim mesmo “meu Havaí é aqui”.
Meu estilo no início era bem "crab” (caranguejo), base aberta, lembro de ter ouvido de alguns tops ilheenses que volta e meia viajavam para competições pelo Brasil afora, que meu estilo lembrava muito o top pro carioca Sérgio Fedelho Noronha, vindo a mudar bruscamente depois de ter visto através de alguns vídeos o norte-americano Tom Curren. Fiquei encantado com o seu life style diferente e melhorei consideravelmente meu jeito de atacar as ondas, e sem falar nos toques que recebia de alguns “brotherlharaços” como Rodrigo Catitu, que muito quis ver minha evolução.
Como surgiu o interesse nas competições e quem admirava?
Eu era bem franzino, porém tinha atitude e via nas competições um meio de interagir, evoluir juntamente com os demais surfistas, e quis também colocar à prova o meu lado competitivo, achava que daria pra tirar proveito da situação, já que tinha um porte físico ideal, era bem fluido e veloz. Sempre admirei o Curren e o Dadá, eles foram máquinas de competir.
Chegou a ganhar alguns campeonatos?
Ganhei alguns campeonatos a nível regional, desde a categoria de base. Lembro de quando moleque ter feito uma final no Surf Treino Pro / Am com o então profissional da época Duda Barreto, que me valeu uma boa experiência e bons comentários. Fiz uma final na Mirim numa etapa Backdoor, no Cururupe, com boa ondas, onde só perdi para o hoje top pro sergipano Romeu Cruz, e ganhei uma etapa Pro / Am do circuito ilheense na gestão do Jabes Local, entre outros bons resultados.
Quais foram os surfistas mirins que mais te impressionaram na sua época?
Sem sombras de dúvidas Paulo Pincel. Surfamos muito juntos, fomos bons amigos, o cara botava pra baixo nas cracas do Espigão, entubava fundo e sempre tirava um coelho da cartola, e o Max Boi, de itabuna. Sem exageros, o Boi era o Occylupo da época. Consegui vencê-lo algumas vezes e confesso que era complicado competir contra esse cara. Quando ele acertava suas patadas então... Fico feliz por ter feito parte dessa escola, pois cresci e fiquei forte.
É verdade que você criou uma manobra nos anos 90? Descreva isso.
Não sei se fui eu quem inventei, só sei que revolucionei nos anos 90 com uma batida de frontside em que desferia um bottom e ia de encontro ao lip da onda, daí chutava a rabeta e colocava o bico da prancha pra dentro da espuma, sumindo e reaparecendo na base da onda com total controle da situação. Essa manobra impressionou a muitos e me valeu vários titulos da categoria Expression Session. Só via o Dadá Figueiredo executar essa manobra de forma arrojada, inclusive estive com ele na Barra da Tijuca (RJ), ano passado, e troquei um papo maneiro com ele que é muito gente boa, e pra mim foi o surfista mais radical do brasil, o monstro do lay back.
Como se sente sendo uma referência pra muitos que lhe acompanharam?
Sinto-me honrado em saber que fui admirado e mencionado até hoje pelo que fiz bem. Ouvir de muitos que se inspiraram em mim me deixa feliz.
Você passou uma temporada no Rio de Janeiro nos anos 90, como foi sua estadia lá?
Caraca! Foi uma experiência marcante, pois fui de carona numa carreta que levava uma bagagem, um aparelho de parque “enterprise” para Interlagos (SP). Tinha apenas 16 anos na época, os tentáculos do aparelho abriram em Vassouras e tive que abraçar, juntamente com o meu colega de viagem, os tentáculos do brinquedo, até chegar numa oficina para amarrar com cabos de aço.
Pra variar, quando eu cheguei em São Paulo quase tomei um sacode dos paulistas, pois estava usando uma camisa do Flamengo que meu falecido avô tinha me dado de presente. Pois bem, fiz um bico numa bilheteria de parque em Interlagos, zona sul de São Paulo, levantei um trocado e queimei chão para o Rio de Janeiro.
Fiquei um bom tempo por lá, o que me rendeu um aprendizado muito grande. Surfei toda a orla do Rio e competi em algumas etapas da ASBT (Associação de Surf da Barra da Tiuca), com uma força de custo da Atol das Rocas e Bentley. Prestigiei alguns eventos importantes lá, como Limão Brahma Surf Pro (OSP) e uma etapa do mundial WCT, o Alternativa Surf Pro, que o Brad Gerlach ganhou do Flávio Teco Padaratz.
Sofri algumas injustiças de resultado, fui vetado de uma etapa de um estadual em Saquarema sem entender o porquê, acredito que existiu um pouco de preconceito por ser baiano, mas o carioca quando te conhece sabe ser camarada. Agora, o mar que eu mais gostei no Rio foi em Ponta Negra, situado na Região dos Lagos a 15 minutos de Saquarema.
Lá existem uns nativos sinistros dos anos 70, e ficam te encarando o tempo todo, intimidando, mas eu estava bem acompanhado com o Bentley, que é filho daquela redondeza, e daí já viu, né? “Libera geral, galera, o baianinho é nosso”, disse o bentley. Uma onda daquela eu só troco pelo Backdoor de Olivença, Ilhéus, e pude mostrar o melhor do meu surf com direito a muitos barrels.
Ah, já ia me esquecendo: assisti, no Maracanã lotado, um Flamengo x Vasco animal, onde o flamengo sobressaiu ganhando por 2 x 1, e tambem acompanhei um clássico entre Brasil e Alemanha Ocidental cujo placar foi de 3 a 3, sem contar no show do Eric Clapton na Apoteose / Marquês de Sapucaí, experiência inesquecivel.
Poderia mencionar um grande guerreiro no surf?
Sim, o Eddie Aikau!!! Já li algo sobre ele, o cara foi casca grossa, e além disso, um bom e honrado homem, ele inspirou-me.
É verdade que você introduziu Mauricinho Weyll no surf? Conte-nos sobre essa particularidade.
No ano de 1988, conheci o Mauricinho. Ele estava iniciando e nos tornamos bons amigos, inclusive cheguei a morar algum tempo com ele, e foi um bom tempo, lembro de ter zuado muito com ele nesse tempo. Uma vez, no parque de diversão situado na avenida, o cara botou uma pilha pra nos atirarmos da parte mais alta do tobogã, dizendo-me ser como dropar uma onda , e daquele dia em diante pude perceber que ele iria tornar-se um bom surfista, porque para mim atitude é tudo. Já pegamos inúmeros mares memoráveis na Catedral Beach, penso que ele evoluiu deveras através do mérito dele, do seu próprio esforço, mas penso que também fui uma influência na sua trajetória no surf.
Você ficou conhecido uma época como Menino do Rio, poderia explicar?
Acho que pelo fato de pegar um pouco do sotaque carioca, algumas gírias e ser um assíduo frequentador da cidade maravilhosa.
Por que parou de competir? Tem vontade de retornar às competições?
Primeiramente por falta de estrutura. Eu estava começando a ficar bitolado em competições, me cobravam demais afim de bons resultados e eu não fazia isso por diversão, quando perdia ficava inconformado e isso me incomodava demais. Optei por não mais competir e fiz valer a filosofia do mestre Gerry Lopez: “o melhor surfista é aquele que se diverte mais”. Acho que dificilmente voltaria a competir, mas, se de repente conseguir uma boa proposta, pensarei seriamente na possibilidade de voltar às competições.
E em relação a julgamento, você já foi injustiçado?
Muitas vezes não nos conformamos com o resultado, e existem juízes que escorregam, gerando um transtorno muito grande, comprometendo o atleta, causando um mal estar no andamento do evento, mas existem juízes visionários que julgam o seu surf e não o seu nome.
Você foi campeão do circuito Ilhéus Surf Club, organizado por Gabriel Macedo, e também deu umas aulinhas de inglês para alguns atletas da XPro. Relate essa experiência.
Tenho um respeito e uma admiração muito grande por Gabriel, eu o acompanhei no seu auge e ele sempre possuiu um estilo inconfundível, foi um dos melhores surfistas que eu já vi, é um cara que respira surf, e sendo assim só pode ser um campeão. Ele organizou um circuito Ilhéus Surf Club, que por sinal foi muito bem organizado, e o melhor, boas ondas em boa parte das etapas. Se eu não me engano foram 10 etapas e eu fui o felizardo. Agora, sobre o inglês, dei umas aulinhas para alguns atletas da XPro e foi uma experiência muito boa, pois a gente sempre aprende juntos.
Como era o seu preparo antes?
Era bem dedicado,treinava muito, mas muito mesmo, dormia cedo e acordava cedo, e gostava muito de ouvir os mais velhos para aprender.
Tem algum ressentimento, ou seja, algo que não conseguiu realizar?
Sim. O proprietário da Atol das Rocas gostou tanto de mim que me lançou um desafio. Caso eu viesse a ganhar uma etapa da ASBT, ele iria me mandar para Bali, e de lá emendaria para o Havaí, mas não aconteeu e eu chorei muito, fiquei muito sentido, pois era tudo que eu queria.
Acha que poderia ir mais longe? O que lhe faltou?
Não tenho dúvida disso. Faltou-me estrutura, apoio financeiro, um técnico, alguem pra me empresariar, orientar-me, apesar de ter uma cabeça boa eu não tinha experiência para negócios. O Cláudio, da Atol das Rocas, até tentou fazer o meu marketing para ficar conhecido, pois pelo fato de ser baiano e desconhecido rolou uma certa discriminação, foi difícil, e tambem precisava morar em beira de praia e treinar muito, pois as ondas do Rio de Janeiro são extremamente difíceis. Cansei de competir na Barra da Tijuca com frente fria, o mar ficava impenetrável, a onda balança muito, só dando mesmo pra fazer inside. A onda é estranha e a água é gelada.
Você também executava uns snap backs. Na época foi a manobra, e fale também sobre os tubos de costas na água.
Sim, era o maior barato executar essa manobra com tamanha perfeição e controle, pois quando executava no “time” da onda eu ganhava velocidade e extensão da parede. Sobre os tubos de costas na água, cansei de entubar desse jeito, é uma sensação incrível, você ser envolto pelo lip da onda na tranquilidade e muitas vezes sair enxutão.
Você conseguia conciliar free surf e competição e atacava de locutor e organizador de eventos. Conte como foi essa experiência.
Oh yeah! Acho que simplesmente tentava retribuir de alguma forma o esporte que muito me ensinou a ser um cara “cool”, e sempre fui atirado, fazia na cara e na coragem, chegava nos lojistas e mostrava o projeto e a necessidade pra aquilo tornar-se real. Consegui fazer dois bons eventos em 1989, 1a e 2a Taça Brother de Surf, e um outro em parceria com alguns amigos, e repercutia com números de inscritos, mídia especeaizada para fazer a cobertura e boa premiação. Apesar de tão novo, sempre procurei ser um homem a frente do meu tempo.
Quais foram os picos e surfistas de Ilhéus que mais te impressionaram?
Com relação aos picos, Backdoor e Havaizinho, pois lá que vi os melhores de Ilhéus entubarem fundo, e foi lá que aprendi a entubar. Espigão e Dão no ventre da bendita, avenida de cabo a rabo. Surfistas que me impressionaram, deixe-me pensar... Foram tantos, todos tiveram o seu auge, seu high level, Ilhéus sempre foi uma fábrica de grandes surfistas, mas destaco Gabriel Macedo, Zé Pereba, Rodrigo Barreto, Adalvo Argolo, Jojó de Olivença, Nego Adílson, Maurício Torres, Duda Barreto, Marcos Conceição, etc...
Fale-nos sobre pessoas por quem você tem muita consideração.
Washington Soledade, o pioneiro do surf em Ilhéus. Com ele aprendi muitas coisas extraordinárias, tiro o meu chapéu pra esse cara. Paulo Loyola, um cara que me apoiou no início da minha carreira, no surf competição. Marcos Badusca Reis, fez-me acreditar no meu potencial, a vencer pelo cansaço e não desistir nunca. Para todos o meu muito obrigado, vida longa para eles !!!!
Você tem algum desejo?
Sim, fazer uma viagem internacional para algum lugar, e se possível fixar residência por lá. Espero conseguir esse feito e que esse lugar seja o Havaí, pois iria amar passar um tempo por lá, aprender a cultura do lugar e trabalhar em alguma coisa ligada ao surf ou turismo.
O que você faz agora? Ainda surfa? Compete? Deixe um recado pra galera.
Hoje trabalho com turismo e surfo nas horas vagas, mas eu gostaria de mencionar que ainda estou no rip e bem antenado ao que acontece no mundo do surf. Torço pelo sucesso de todos os surfistas ilheenses no cenário competitivo do surf e desejo que alcance seus objetivos e sejam felizes.
Seja você mesmo, autêntico, bata na lata sem titubear, pois no dia em que deixar de ser você certamente não será ninguem. Muito obrigado por essa oportunidade que me foi concedida e big aloha!!
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Na década de 80, ainda mirim, surfava de igual para igual com os profissionais em Ilhéus. Na década de 90 foi presença constante nos pódios, principalmente em Expression Session, disputa em que ganhava sempre com uma batida invocada que ele mesmo conta aqui nesta entrevista. Segundo Vinho, ele foi o inventor dessa manobra juntamente com Dadá Figueredo, surfista carioca super radical dos anos 80 e 90.
Anos mais tarde, se encontraram no Rio e conversaram sobre a manobra.Vinho é uma figura muito gente boa que tem surf na veia e poderia ir mais longe como muitos no Brasil afora que por falta oportunidade não puderam seguir adiante. Nesta entrevista, ele nos conta um pouco da sua história que daria um livro de causos surfísticos.
Como surgiu esse apelido Vinho Tolouco?
Não sei bem ao certo (risos). Vinho vem de Flavinho. Tolouco? Acho que eu era bem polêmico, eu era meio "bad" quando moleque. Não arrumava encrenca, não, mas se o cara alterasse eu partia pra cima. E lembro de ter alertado um free surf rabeador na época pra ele ficar antenado quando me rabeou em algumas ondas. Ele não quis escutar e simplesmente tomou uma pranchada nas costas (muitos risos).
Lembro também de uma final mirim que fiz em Olivença, na Batuba. Estava lutando pelo título, pois iriam premiar o campeão com uma inscrição no Fico Surf Festival de 1988 em Stella Maris, Salvador, e eu estava muito afim de ir. O fato é que todos na areia viram claramente que eu ganhei o evento e fui extremamente "garfado", daí me bateu uma ira, dei paulada em juiz, joguei areia pra cima do palanque... Lembro de ter sido amparado pelo "brotherlharaço" e big rider Yuri Soledade, que levou-me pra pousada dele.
Descreva como foi o seu começo no surf e como surgiu esse estilo tão polido.
Comecei a surfar em 1983, no mesmo ano em que nasceu a Associação Ilheense de Surf e a revista Fluir. Foi uma responsa muito grande. O mar era pesado e as ondas muito grandes, iniciei com uma miçaire monoquilha aos 12 anos, hoje tenho 37. Pelo fato de morar na beira de praia - morava no alto da Piedade -, influenciado pelos surfistas mais antigos, e dos programas “Armação Ilimitada”, do Kadu Moliterno e André De Biasi, “Realce”, do Ricardo Bocão e Antônio Ricardo, o surf naquele tempo virou febre, anos New Wave.
Lembro de ter ficado impressionado na época com o power surf do talento regional “Nego Adílson”, esse possuía um backside explosivo, era uma espécie de Martin Potter brasileiro, não entendo porque não virou no cenário mundial do surf, e o mesmo encorajou-me no mar que era pesado e a botar pra baixo com braveza.
Sei que não foi fácil tornar-me um surfista naquele tempo, já que sofri muita pressão, preconceito de todos os lados, principalmente da familia, sociedade, pois o surf era um esorte marginalizado, repugnado, escrachado. Mas consegui seguir firme, ignorando a tudo e a todos, já que tinha me identificado, tinha descoberto um hobby forte, um estilo de vida.
Foi na praia da avenida Soares Lopes que tudo começou para mim, onde dei meus primeiros passos e dropei as primeiras ondas. A medida em que crescia, conferia outras ondas na orla da avenida, como por exemplo, Espigão e Catedral. O tamanho e a qualidade dessas ondas era inacreditável, extasiado falava pra mim mesmo “meu Havaí é aqui”.
Meu estilo no início era bem "crab” (caranguejo), base aberta, lembro de ter ouvido de alguns tops ilheenses que volta e meia viajavam para competições pelo Brasil afora, que meu estilo lembrava muito o top pro carioca Sérgio Fedelho Noronha, vindo a mudar bruscamente depois de ter visto através de alguns vídeos o norte-americano Tom Curren. Fiquei encantado com o seu life style diferente e melhorei consideravelmente meu jeito de atacar as ondas, e sem falar nos toques que recebia de alguns “brotherlharaços” como Rodrigo Catitu, que muito quis ver minha evolução.
Como surgiu o interesse nas competições e quem admirava?
Eu era bem franzino, porém tinha atitude e via nas competições um meio de interagir, evoluir juntamente com os demais surfistas, e quis também colocar à prova o meu lado competitivo, achava que daria pra tirar proveito da situação, já que tinha um porte físico ideal, era bem fluido e veloz. Sempre admirei o Curren e o Dadá, eles foram máquinas de competir.
Chegou a ganhar alguns campeonatos?
Ganhei alguns campeonatos a nível regional, desde a categoria de base. Lembro de quando moleque ter feito uma final no Surf Treino Pro / Am com o então profissional da época Duda Barreto, que me valeu uma boa experiência e bons comentários. Fiz uma final na Mirim numa etapa Backdoor, no Cururupe, com boa ondas, onde só perdi para o hoje top pro sergipano Romeu Cruz, e ganhei uma etapa Pro / Am do circuito ilheense na gestão do Jabes Local, entre outros bons resultados.
Quais foram os surfistas mirins que mais te impressionaram na sua época?
Sem sombras de dúvidas Paulo Pincel. Surfamos muito juntos, fomos bons amigos, o cara botava pra baixo nas cracas do Espigão, entubava fundo e sempre tirava um coelho da cartola, e o Max Boi, de itabuna. Sem exageros, o Boi era o Occylupo da época. Consegui vencê-lo algumas vezes e confesso que era complicado competir contra esse cara. Quando ele acertava suas patadas então... Fico feliz por ter feito parte dessa escola, pois cresci e fiquei forte.
É verdade que você criou uma manobra nos anos 90? Descreva isso.
Não sei se fui eu quem inventei, só sei que revolucionei nos anos 90 com uma batida de frontside em que desferia um bottom e ia de encontro ao lip da onda, daí chutava a rabeta e colocava o bico da prancha pra dentro da espuma, sumindo e reaparecendo na base da onda com total controle da situação. Essa manobra impressionou a muitos e me valeu vários titulos da categoria Expression Session. Só via o Dadá Figueiredo executar essa manobra de forma arrojada, inclusive estive com ele na Barra da Tijuca (RJ), ano passado, e troquei um papo maneiro com ele que é muito gente boa, e pra mim foi o surfista mais radical do brasil, o monstro do lay back.
Como se sente sendo uma referência pra muitos que lhe acompanharam?
Sinto-me honrado em saber que fui admirado e mencionado até hoje pelo que fiz bem. Ouvir de muitos que se inspiraram em mim me deixa feliz.
Você passou uma temporada no Rio de Janeiro nos anos 90, como foi sua estadia lá?
Caraca! Foi uma experiência marcante, pois fui de carona numa carreta que levava uma bagagem, um aparelho de parque “enterprise” para Interlagos (SP). Tinha apenas 16 anos na época, os tentáculos do aparelho abriram em Vassouras e tive que abraçar, juntamente com o meu colega de viagem, os tentáculos do brinquedo, até chegar numa oficina para amarrar com cabos de aço.
Pra variar, quando eu cheguei em São Paulo quase tomei um sacode dos paulistas, pois estava usando uma camisa do Flamengo que meu falecido avô tinha me dado de presente. Pois bem, fiz um bico numa bilheteria de parque em Interlagos, zona sul de São Paulo, levantei um trocado e queimei chão para o Rio de Janeiro.
Fiquei um bom tempo por lá, o que me rendeu um aprendizado muito grande. Surfei toda a orla do Rio e competi em algumas etapas da ASBT (Associação de Surf da Barra da Tiuca), com uma força de custo da Atol das Rocas e Bentley. Prestigiei alguns eventos importantes lá, como Limão Brahma Surf Pro (OSP) e uma etapa do mundial WCT, o Alternativa Surf Pro, que o Brad Gerlach ganhou do Flávio Teco Padaratz.
Sofri algumas injustiças de resultado, fui vetado de uma etapa de um estadual em Saquarema sem entender o porquê, acredito que existiu um pouco de preconceito por ser baiano, mas o carioca quando te conhece sabe ser camarada. Agora, o mar que eu mais gostei no Rio foi em Ponta Negra, situado na Região dos Lagos a 15 minutos de Saquarema.
Lá existem uns nativos sinistros dos anos 70, e ficam te encarando o tempo todo, intimidando, mas eu estava bem acompanhado com o Bentley, que é filho daquela redondeza, e daí já viu, né? “Libera geral, galera, o baianinho é nosso”, disse o bentley. Uma onda daquela eu só troco pelo Backdoor de Olivença, Ilhéus, e pude mostrar o melhor do meu surf com direito a muitos barrels.
Ah, já ia me esquecendo: assisti, no Maracanã lotado, um Flamengo x Vasco animal, onde o flamengo sobressaiu ganhando por 2 x 1, e tambem acompanhei um clássico entre Brasil e Alemanha Ocidental cujo placar foi de 3 a 3, sem contar no show do Eric Clapton na Apoteose / Marquês de Sapucaí, experiência inesquecivel.
Poderia mencionar um grande guerreiro no surf?
Sim, o Eddie Aikau!!! Já li algo sobre ele, o cara foi casca grossa, e além disso, um bom e honrado homem, ele inspirou-me.
É verdade que você introduziu Mauricinho Weyll no surf? Conte-nos sobre essa particularidade.
No ano de 1988, conheci o Mauricinho. Ele estava iniciando e nos tornamos bons amigos, inclusive cheguei a morar algum tempo com ele, e foi um bom tempo, lembro de ter zuado muito com ele nesse tempo. Uma vez, no parque de diversão situado na avenida, o cara botou uma pilha pra nos atirarmos da parte mais alta do tobogã, dizendo-me ser como dropar uma onda , e daquele dia em diante pude perceber que ele iria tornar-se um bom surfista, porque para mim atitude é tudo. Já pegamos inúmeros mares memoráveis na Catedral Beach, penso que ele evoluiu deveras através do mérito dele, do seu próprio esforço, mas penso que também fui uma influência na sua trajetória no surf.
Você ficou conhecido uma época como Menino do Rio, poderia explicar?
Acho que pelo fato de pegar um pouco do sotaque carioca, algumas gírias e ser um assíduo frequentador da cidade maravilhosa.
Por que parou de competir? Tem vontade de retornar às competições?
Primeiramente por falta de estrutura. Eu estava começando a ficar bitolado em competições, me cobravam demais afim de bons resultados e eu não fazia isso por diversão, quando perdia ficava inconformado e isso me incomodava demais. Optei por não mais competir e fiz valer a filosofia do mestre Gerry Lopez: “o melhor surfista é aquele que se diverte mais”. Acho que dificilmente voltaria a competir, mas, se de repente conseguir uma boa proposta, pensarei seriamente na possibilidade de voltar às competições.
E em relação a julgamento, você já foi injustiçado?
Muitas vezes não nos conformamos com o resultado, e existem juízes que escorregam, gerando um transtorno muito grande, comprometendo o atleta, causando um mal estar no andamento do evento, mas existem juízes visionários que julgam o seu surf e não o seu nome.
Você foi campeão do circuito Ilhéus Surf Club, organizado por Gabriel Macedo, e também deu umas aulinhas de inglês para alguns atletas da XPro. Relate essa experiência.
Tenho um respeito e uma admiração muito grande por Gabriel, eu o acompanhei no seu auge e ele sempre possuiu um estilo inconfundível, foi um dos melhores surfistas que eu já vi, é um cara que respira surf, e sendo assim só pode ser um campeão. Ele organizou um circuito Ilhéus Surf Club, que por sinal foi muito bem organizado, e o melhor, boas ondas em boa parte das etapas. Se eu não me engano foram 10 etapas e eu fui o felizardo. Agora, sobre o inglês, dei umas aulinhas para alguns atletas da XPro e foi uma experiência muito boa, pois a gente sempre aprende juntos.
Como era o seu preparo antes?
Era bem dedicado,treinava muito, mas muito mesmo, dormia cedo e acordava cedo, e gostava muito de ouvir os mais velhos para aprender.
Tem algum ressentimento, ou seja, algo que não conseguiu realizar?
Sim. O proprietário da Atol das Rocas gostou tanto de mim que me lançou um desafio. Caso eu viesse a ganhar uma etapa da ASBT, ele iria me mandar para Bali, e de lá emendaria para o Havaí, mas não aconteeu e eu chorei muito, fiquei muito sentido, pois era tudo que eu queria.
Acha que poderia ir mais longe? O que lhe faltou?
Não tenho dúvida disso. Faltou-me estrutura, apoio financeiro, um técnico, alguem pra me empresariar, orientar-me, apesar de ter uma cabeça boa eu não tinha experiência para negócios. O Cláudio, da Atol das Rocas, até tentou fazer o meu marketing para ficar conhecido, pois pelo fato de ser baiano e desconhecido rolou uma certa discriminação, foi difícil, e tambem precisava morar em beira de praia e treinar muito, pois as ondas do Rio de Janeiro são extremamente difíceis. Cansei de competir na Barra da Tijuca com frente fria, o mar ficava impenetrável, a onda balança muito, só dando mesmo pra fazer inside. A onda é estranha e a água é gelada.
Você também executava uns snap backs. Na época foi a manobra, e fale também sobre os tubos de costas na água.
Sim, era o maior barato executar essa manobra com tamanha perfeição e controle, pois quando executava no “time” da onda eu ganhava velocidade e extensão da parede. Sobre os tubos de costas na água, cansei de entubar desse jeito, é uma sensação incrível, você ser envolto pelo lip da onda na tranquilidade e muitas vezes sair enxutão.
Você conseguia conciliar free surf e competição e atacava de locutor e organizador de eventos. Conte como foi essa experiência.
Oh yeah! Acho que simplesmente tentava retribuir de alguma forma o esporte que muito me ensinou a ser um cara “cool”, e sempre fui atirado, fazia na cara e na coragem, chegava nos lojistas e mostrava o projeto e a necessidade pra aquilo tornar-se real. Consegui fazer dois bons eventos em 1989, 1a e 2a Taça Brother de Surf, e um outro em parceria com alguns amigos, e repercutia com números de inscritos, mídia especeaizada para fazer a cobertura e boa premiação. Apesar de tão novo, sempre procurei ser um homem a frente do meu tempo.
Quais foram os picos e surfistas de Ilhéus que mais te impressionaram?
Com relação aos picos, Backdoor e Havaizinho, pois lá que vi os melhores de Ilhéus entubarem fundo, e foi lá que aprendi a entubar. Espigão e Dão no ventre da bendita, avenida de cabo a rabo. Surfistas que me impressionaram, deixe-me pensar... Foram tantos, todos tiveram o seu auge, seu high level, Ilhéus sempre foi uma fábrica de grandes surfistas, mas destaco Gabriel Macedo, Zé Pereba, Rodrigo Barreto, Adalvo Argolo, Jojó de Olivença, Nego Adílson, Maurício Torres, Duda Barreto, Marcos Conceição, etc...
Fale-nos sobre pessoas por quem você tem muita consideração.
Washington Soledade, o pioneiro do surf em Ilhéus. Com ele aprendi muitas coisas extraordinárias, tiro o meu chapéu pra esse cara. Paulo Loyola, um cara que me apoiou no início da minha carreira, no surf competição. Marcos Badusca Reis, fez-me acreditar no meu potencial, a vencer pelo cansaço e não desistir nunca. Para todos o meu muito obrigado, vida longa para eles !!!!
Você tem algum desejo?
Sim, fazer uma viagem internacional para algum lugar, e se possível fixar residência por lá. Espero conseguir esse feito e que esse lugar seja o Havaí, pois iria amar passar um tempo por lá, aprender a cultura do lugar e trabalhar em alguma coisa ligada ao surf ou turismo.
O que você faz agora? Ainda surfa? Compete? Deixe um recado pra galera.
Hoje trabalho com turismo e surfo nas horas vagas, mas eu gostaria de mencionar que ainda estou no rip e bem antenado ao que acontece no mundo do surf. Torço pelo sucesso de todos os surfistas ilheenses no cenário competitivo do surf e desejo que alcance seus objetivos e sejam felizes.
Seja você mesmo, autêntico, bata na lata sem titubear, pois no dia em que deixar de ser você certamente não será ninguem. Muito obrigado por essa oportunidade que me foi concedida e big aloha!!
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