Surf sem violência
Tom Almeida relata desentendimentos entre surfistas na água
Por: Tom Almeida
Meu texto desta vez não é sobre viagens, com fotos das ondas e descrição dos picos. Ele é uma crítica e retratação. Crítica a uma pessoa que fez algo errado, que exerceu um direito que não existe, que deixou um mau exemplo de comportamento na água, algo vergonhoso para a imagem do surf.
Uma pessoa que eu acreditava ter o controle sobre ela mesma, mas que mostrou que não é bem assim, uma pessoa que me envergonhou bastante!
Essa pessoa sou EU mesmo, que no último sábado de páscoa (logo na páscoa, dia de paz e confraternização) perdi a cabeça na água e agredi um colega de surf por causa de uma onda.
Que vergonha! Reconheço que qualquer violência é um processo de imbecilização. E EU fui um imbecil, impossibilitado de agir equilibradamente.
Acreditem, não é fácil a autocrítica pública, mas que seja verdadeira e lave os panos sujos da alma e talvez ela sirva a outros que, como eu, andam também irritados na água.
Nada justifica meu ato falho, errei e reconheço meu erro. E o fiz diante de todos no mar, pedindo minhas desculpas à galera. Eu também às vezes rabeio alguém, e se faço isso não tenho direito de reclamar.
Mas, vejamos o que pode nos levar a esses ataques de imbecilização... Vivemos um momento delicado no surf universal, cada dia mais e mais surfistas na água, trazendo aumento massivo do crowd. Isso gera estresse na água.
Toda propaganda do surf na TV e o reconhecimento do estilo prazeroso de vida do surfista na sua integração com a natureza é algo invejável, que está atraindo mais adeptos ao surf, alguns que não têm nada a ver com a essência real do esporte. Existe muita gente sem instrução na água, sem respeito, mas, além disso, o surf é felicidade.
Contudo, não podemos ser felizes todo o tempo, pois não há quem não tenha problemas, só que às vezes carregamos esses problemas conosco para a água e basta uma fagulha qualquer para acender a brasa incandescente da agressividade.
Devemos ter cuidado, então, pois a vida se traduz nos pequenos momentos de felicidade que temos, que nos fazem lembrar como é bom viver. E o surf é um desses momentos, quando traz em nós o contentamento pela relação com a energia inigualável do mar e das ondas.
O surf nos traz muitas lições, e no sábado de aleluia apreendi mais uma, pois o contato com a natureza é um momento de vivência intensa e verdadeira, nos quais somos quem somos, sem máscaras ou convenções sociais, com nossos defeitos e virtudes. Na pureza verdadeira desse contato, não importa nosso nome, nossa habilidade maior ou menor de surfar, o surf é a oportunidade de exprimirmos nossa liberdade e o respeito à liberdade do outro, o resto não passa de convenções que nós, surfistas, estipulamos, mas o surf não é convencional, ele é movimento, imaginação e ação para uma simples realização interior, que se for reprimida de alguma forma, pode nos trazer descontrole, se o descontrole estiver em nós. E no meu caso estava.
Como eu disse, não há justificativas pelo que fiz. Mas naquele dia estava de cabeça quente por razões pessoais. Já tinha sido rabeado três vezes e quando esse amigo desceu na minha melhor onda, me rabeando e insistindo em surfá-la até o fim, mesmo eu estando atrás dele gritando a todo pulmão para ele sair, ele não saiu.
Para piorar, no fim da “corrida”, quando fui reclamar, recebi um sonoro “vá se f....!” dele, depois daí não me reconheci mais, fui dominado por uma raiva e parti para agressividade. Justifica? Não! Seria melhor ter deixado para lá, pois com que direito eu posso partir para agredir alguém? Pelo desrespeito? Isso não me dá direito algum a agressão. Por uma onda? Com tantas no mar, será que vale a pena brigar por uma?
Depois disso me senti literalmente “pequeno”. Sendo eu espírita, tenho trabalhado arduamente para me livrar dos defeitos, vi que tenho muito trabalho a fazer, principalmente no controle das próprias emoções. Desculpas feitas e aceitas a quem agredi, ouvi críticas na água e de Luis Lima veio um pedido, que eu tinha dado um mau exemplo e que deveria escrever sobre isso. Pensei a respeito e achei correto, pois esconder nossas ações lamentosas mostrando só as boas é hipocrisia.
Eu deveria ter aprendido melhor a lição que recebi em 2007, no México, e que registro aqui para servir de bom exemplo para outros.
Estava surfando em Zicatela. Depois há algum tempo esperando no pico, quando finalmente sobrou uma onda da série pra mim. Tive de remar com vontade, pois já estava num lugar crítico da onda. Quando botei meu pé na prancha e desci ladeira abaixo, escolhendo ir para esquerda, consegui por pouco alinhar o bico da prancha na linha da parede que estava bem cavada. Foi quando vi que um gringo remava lá no alto da onda, eu já estava com velocidade, cavando na base da onda, bem embaixo do gringo.
Daí foi só confusão, o cara desceu a onda caindo lá de cima, sua prancha passou a milímetros da minha cabeça e ele caiu bem em cima de mim. Embolamos juntos, a minha cordinha ficou presa com a dele, nos obrigando a tomar toda a série na cabeça engalfinhados um ao outro sob a água, tornando o caldo ainda pior. Minha sorte é que fiquei por cima do cara e sentia a cabeça e os braços dele batendo nas minhas pernas sob a água. Confesso que quando passaram as ondas, eu subi pronto para brigar, para esganar o cara ali mesmo. Tava muito puto! Já dando esporro e o chamando de irresponsável.
A atitude dele, porém, me desarmou. Com os braços pra cima e pedindo desculpas, dizendo que não tinha me visto (o que eu vi quando ainda estava na onda, que se tratava da mais pura verdade). Esfriei então, mas, ainda esbravejando e bufando, examinei minha prancha, tentando ainda desembolar as cordinhas, enquanto o gringo só dizia "Sorry, man! I´m so sorry!". "Que haole", pensei! Acho que ele ficou tão mal com o ocorrido - pois todo mundo estava olhando o que aconteceu -, que pegou sua prancha e saiu remando.
O dia estava com boas ondas. Surfei por mais de uma hora depois do ocorrido e quando saí recebi uma boa lição de educação do gringo. Para a minha surpresa, ele veio até mim na areia e se desculpou pessoalmente, me perguntou se estava tudo bem comigo, se eu tinha me machucado, se minha prancha tinha quebrado. Olhamos juntos a prancha e só então vi um teco na rabeta.
Ele se ofereceu para pagar o conserto. Eu disse que não havia necessidade, ele insistiu e foi tirando a prancha das minhas mãos e disse que a oficina ficava logo ali. Caminhamos juntos, conversando e fazendo amizade. Deixamos a prancha na oficina, ele perguntou ao mexicano quanto seria o conserto e deixou pago para eu voltar em algumas horas e pegar a prancha. Moral da história, ficamos amigos, e por uma dessas coincidências da vida, o nome dele era Tom.
Tive nesse episódio três lições, uma de perceber que estamos propensos a ser rabeados realmente sem querer ou por querer, a outra a civilidade e educação no reconhecimento dos nossos erros se desculpando e mais uma lição, a de não avaliarmos precipitadamente os outros. Eu estava pensando que o cara era o maior leigo por ter dropado daquele jeito na minha cabeça.
Dois dias depois encontro ele novamente no mar e só aí pude ver que o cara era um excelente surfista, tinha o surf no pé e era bastante radical, tinha conhecimento e colocação de quem já esteve por ali inúmeras vezes, como ele mesmo me confidenciou depois. Na verdade o cara era um surfista melhor do que eu e aquilo tinha sido um erro de cálculo e desatenção dele, o que pode ocorrer com qualquer um.
Isso mostra também que quando erramos, rabeando alguém, não devemos ser arrogantes, devemos reconhecer o erro e pedir desculpas, isso muitas vezes evita qualquer atrito. Tem muita gente folgada por aí, isso é verdade, e se a gente deixar, o cara se aproveita e mostra desrespeito geral, característica reconhecida do surfista brasileiro.
Mas, se botarmos pé duro, aí as coisas se complicam e acaba em agressão. Aprendam com o erro de alguém, o meu e de certa forma de quem me rabeou, a se desculpar, no geral mais respeito na água, relevem, levem na esportiva, dispensem a agressividade, pois ela não leva a nada.
Eu vou tentar ser menos imbecil...
Uma pessoa que eu acreditava ter o controle sobre ela mesma, mas que mostrou que não é bem assim, uma pessoa que me envergonhou bastante!
Essa pessoa sou EU mesmo, que no último sábado de páscoa (logo na páscoa, dia de paz e confraternização) perdi a cabeça na água e agredi um colega de surf por causa de uma onda.
Que vergonha! Reconheço que qualquer violência é um processo de imbecilização. E EU fui um imbecil, impossibilitado de agir equilibradamente.
Acreditem, não é fácil a autocrítica pública, mas que seja verdadeira e lave os panos sujos da alma e talvez ela sirva a outros que, como eu, andam também irritados na água.
Nada justifica meu ato falho, errei e reconheço meu erro. E o fiz diante de todos no mar, pedindo minhas desculpas à galera. Eu também às vezes rabeio alguém, e se faço isso não tenho direito de reclamar.
Mas, vejamos o que pode nos levar a esses ataques de imbecilização... Vivemos um momento delicado no surf universal, cada dia mais e mais surfistas na água, trazendo aumento massivo do crowd. Isso gera estresse na água.
Toda propaganda do surf na TV e o reconhecimento do estilo prazeroso de vida do surfista na sua integração com a natureza é algo invejável, que está atraindo mais adeptos ao surf, alguns que não têm nada a ver com a essência real do esporte. Existe muita gente sem instrução na água, sem respeito, mas, além disso, o surf é felicidade.
Contudo, não podemos ser felizes todo o tempo, pois não há quem não tenha problemas, só que às vezes carregamos esses problemas conosco para a água e basta uma fagulha qualquer para acender a brasa incandescente da agressividade.
Devemos ter cuidado, então, pois a vida se traduz nos pequenos momentos de felicidade que temos, que nos fazem lembrar como é bom viver. E o surf é um desses momentos, quando traz em nós o contentamento pela relação com a energia inigualável do mar e das ondas.
O surf nos traz muitas lições, e no sábado de aleluia apreendi mais uma, pois o contato com a natureza é um momento de vivência intensa e verdadeira, nos quais somos quem somos, sem máscaras ou convenções sociais, com nossos defeitos e virtudes. Na pureza verdadeira desse contato, não importa nosso nome, nossa habilidade maior ou menor de surfar, o surf é a oportunidade de exprimirmos nossa liberdade e o respeito à liberdade do outro, o resto não passa de convenções que nós, surfistas, estipulamos, mas o surf não é convencional, ele é movimento, imaginação e ação para uma simples realização interior, que se for reprimida de alguma forma, pode nos trazer descontrole, se o descontrole estiver em nós. E no meu caso estava.
Como eu disse, não há justificativas pelo que fiz. Mas naquele dia estava de cabeça quente por razões pessoais. Já tinha sido rabeado três vezes e quando esse amigo desceu na minha melhor onda, me rabeando e insistindo em surfá-la até o fim, mesmo eu estando atrás dele gritando a todo pulmão para ele sair, ele não saiu.
Para piorar, no fim da “corrida”, quando fui reclamar, recebi um sonoro “vá se f....!” dele, depois daí não me reconheci mais, fui dominado por uma raiva e parti para agressividade. Justifica? Não! Seria melhor ter deixado para lá, pois com que direito eu posso partir para agredir alguém? Pelo desrespeito? Isso não me dá direito algum a agressão. Por uma onda? Com tantas no mar, será que vale a pena brigar por uma?
Depois disso me senti literalmente “pequeno”. Sendo eu espírita, tenho trabalhado arduamente para me livrar dos defeitos, vi que tenho muito trabalho a fazer, principalmente no controle das próprias emoções. Desculpas feitas e aceitas a quem agredi, ouvi críticas na água e de Luis Lima veio um pedido, que eu tinha dado um mau exemplo e que deveria escrever sobre isso. Pensei a respeito e achei correto, pois esconder nossas ações lamentosas mostrando só as boas é hipocrisia.
Eu deveria ter aprendido melhor a lição que recebi em 2007, no México, e que registro aqui para servir de bom exemplo para outros.
Estava surfando em Zicatela. Depois há algum tempo esperando no pico, quando finalmente sobrou uma onda da série pra mim. Tive de remar com vontade, pois já estava num lugar crítico da onda. Quando botei meu pé na prancha e desci ladeira abaixo, escolhendo ir para esquerda, consegui por pouco alinhar o bico da prancha na linha da parede que estava bem cavada. Foi quando vi que um gringo remava lá no alto da onda, eu já estava com velocidade, cavando na base da onda, bem embaixo do gringo.
Daí foi só confusão, o cara desceu a onda caindo lá de cima, sua prancha passou a milímetros da minha cabeça e ele caiu bem em cima de mim. Embolamos juntos, a minha cordinha ficou presa com a dele, nos obrigando a tomar toda a série na cabeça engalfinhados um ao outro sob a água, tornando o caldo ainda pior. Minha sorte é que fiquei por cima do cara e sentia a cabeça e os braços dele batendo nas minhas pernas sob a água. Confesso que quando passaram as ondas, eu subi pronto para brigar, para esganar o cara ali mesmo. Tava muito puto! Já dando esporro e o chamando de irresponsável.
A atitude dele, porém, me desarmou. Com os braços pra cima e pedindo desculpas, dizendo que não tinha me visto (o que eu vi quando ainda estava na onda, que se tratava da mais pura verdade). Esfriei então, mas, ainda esbravejando e bufando, examinei minha prancha, tentando ainda desembolar as cordinhas, enquanto o gringo só dizia "Sorry, man! I´m so sorry!". "Que haole", pensei! Acho que ele ficou tão mal com o ocorrido - pois todo mundo estava olhando o que aconteceu -, que pegou sua prancha e saiu remando.
O dia estava com boas ondas. Surfei por mais de uma hora depois do ocorrido e quando saí recebi uma boa lição de educação do gringo. Para a minha surpresa, ele veio até mim na areia e se desculpou pessoalmente, me perguntou se estava tudo bem comigo, se eu tinha me machucado, se minha prancha tinha quebrado. Olhamos juntos a prancha e só então vi um teco na rabeta.
Ele se ofereceu para pagar o conserto. Eu disse que não havia necessidade, ele insistiu e foi tirando a prancha das minhas mãos e disse que a oficina ficava logo ali. Caminhamos juntos, conversando e fazendo amizade. Deixamos a prancha na oficina, ele perguntou ao mexicano quanto seria o conserto e deixou pago para eu voltar em algumas horas e pegar a prancha. Moral da história, ficamos amigos, e por uma dessas coincidências da vida, o nome dele era Tom.
Tive nesse episódio três lições, uma de perceber que estamos propensos a ser rabeados realmente sem querer ou por querer, a outra a civilidade e educação no reconhecimento dos nossos erros se desculpando e mais uma lição, a de não avaliarmos precipitadamente os outros. Eu estava pensando que o cara era o maior leigo por ter dropado daquele jeito na minha cabeça.
Dois dias depois encontro ele novamente no mar e só aí pude ver que o cara era um excelente surfista, tinha o surf no pé e era bastante radical, tinha conhecimento e colocação de quem já esteve por ali inúmeras vezes, como ele mesmo me confidenciou depois. Na verdade o cara era um surfista melhor do que eu e aquilo tinha sido um erro de cálculo e desatenção dele, o que pode ocorrer com qualquer um.
Isso mostra também que quando erramos, rabeando alguém, não devemos ser arrogantes, devemos reconhecer o erro e pedir desculpas, isso muitas vezes evita qualquer atrito. Tem muita gente folgada por aí, isso é verdade, e se a gente deixar, o cara se aproveita e mostra desrespeito geral, característica reconhecida do surfista brasileiro.
Mas, se botarmos pé duro, aí as coisas se complicam e acaba em agressão. Aprendam com o erro de alguém, o meu e de certa forma de quem me rabeou, a se desculpar, no geral mais respeito na água, relevem, levem na esportiva, dispensem a agressividade, pois ela não leva a nada.
Eu vou tentar ser menos imbecil...
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