A trip nossa de cada dia

Tom Almeida comenta trip contagiante em busca das ondas


Dizem por aí que “quem faz uma tatuagem, logo faz várias”. Algumas coisas viciam e, depois de conhecidas, queremos sempre repeti-las.

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Assim é uma surf trip em busca da onda perfeita. Depois da primeira, é impossível não estar buscando a próxima. A experiência contagiante de uma viagem em busca das ondas é uma tentativa marcante, se bem sucedida então, se torna uma memória visual e cultural de impressões extraordinárias, aliada a um sentimento de liberdade, contentamento e satisfação enormes, difíceis de serem esquecidos. Talvez por isso essa busca constante pela próxima trip.

Apesar disso, nem todo mundo gosta ou consegue viajar para surfar. Ou seja, por falta de tempo, dinheiro ou disposição, os aventureiros são uma porcentagem reduzida se considerado o grande número de surfistas que nunca fizeram uma viagem internacional. A grande maioria diz ser a falta de grana o grande obstáculo entre a viagem dos sonhos e a rotina. Será mesmo essa a verdade?     

O que significa R$ 3 mil juntados por um ano inteiro? Para alguns pode parecer uma fortuna, para outros alguns trocados, mas a verdade é que, tendo condições financeiras ou não, muita gente não viaja por falta de iniciativa, hesitação e pelo costume frequente com o dia-a-dia e seus hábitos.

Não é difícil fazer as contas, numa matemática clara. Três mil reais poupados por um ano, significam R$ 8,20 por dia. Para alguns ainda pode parecer muito, mas diante do que vamos expor e da satisfação envolvida numa surf trip, nos parece bem pouco.

Com as promoções atuais e os pacotes aéreos cada vez mais convidativos, 10 dias de surf em trechos internacionais com onda boa ficam cada vez mais convidativos e acessíveis. Vinte mil milhas nos levam a muitos roteiros de ondas espalhados pela América do Sul e 40 mil pelo Pacifico Norte.

Nos classificados do jornal, a venda de milhagem está sempre presente, com acesso a 20 mil por até R$ 800. Nada mau, hein?! Nos jornais do eixo Rio-São Paulo encontraremos até mais barato. Quem escavar certamente encontrará boas promoções.

No entanto tem “neguinho” que reclama que não consegue juntar a grana. Tem vontade de viajar, mas insistentemente admite que está sempre quebrado. Será mesmo?! Em muitos casos observo que é uma prioridade de vida. Escolhas do que está em primeiro plano, do que realmente importa no quesito satisfação. Uma galera chegada que protesta não poder fazer as malas e viajar, é a mesma que vejo torrando a grana nas noitadas e na cerveja com os amigos. Usando bermuda de marca, de absurdos mais de R$ 150 e fazendo todo tipo de estripulias com a grana. Como disse, é uma ordem de importância dada às coisas e aos desejos.
 
Para alguns, uma trip de surf significa algo bem próximo do êxtase. Aquele sonho do acontecimento extraordinário sendo realizado. É quando avistamos as linhas perfeitas de uma bancada sem crowd e longe do quintal de casa, que cada centavo gasto vale a pena, na verdade o dinheiro pouco importa diante da satisfação imensa de surfar uma onda nova e desconhecida.

E quando o drop vem complementado com aquele tubo inesquecível ou aquela manobra irada, rabiscando a onda descoberta em toda sua extensão para no final nos depararmos com uma sensação de preenchimento único e ligação transcendental com a natureza, somos asfixiados com tanta felicidade e entendemos melhor a presença de Deus na nossa vida

O ato de viajar cumpre plenamente a concórdia e harmonia com o prazer de viver e surfar. É só nos determos em algum soul sufer narrando sua última viagem. Os olhos brilham de contentamento, as imagens se processam em cores vivas relatando cada detalhe das ondas surfadas, do lugar, das pessoas, das condições, da cultura local...

Só então a ficha cai e entendemos que cada viagem é um universo único, particular, intransplantável, numa transmissão de conhecimentos e aprendizagem constante, diante de um conjunto complexo de códigos e padrões que regulam a ação humana mundo afora.

Vamos viajando e surfando, nos enriquecendo de cultura e ondas, descobrindo novos aspectos da vida e modos de sobrevivência, nos engajando a normas de comportamento, crenças, criações materiais e valores espirituais diversos, aprendendo que o mundo é um turismo, um passeio verde marinho.

E nos fica uma certeza no coração, os antigos navegadores cruzavam os oceanos em busca de tesouros. Os surfistas são os navegadores da atualidade, cruzando os mares em busca de emoções e da onda perfeita, nosso maior tesouro.

Boa trip para os aventureiros...

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