Clichê do século

Fábio Tihara cita consequências da evolução do surf como atividade esportiva


Tenho acordado com vontade de ter vivido em outra época. Estranho sentimento esse que me perturba. Até alguns dias atrás eu estava me sentindo um privilegiado por estar presenciando a evolução desse esporte maravilhoso que é o surf.
 
Parando para refletir, vi que o surf como atividade esportiva deu passos gigantescos na profissionalização, mas, como todo progresso, tem seu preço. Penso que o surf, como essência, perdeu muito com a modernidade.
 
Difícil pensar em essência quando vemos um circuito sendo disputado em ondas perfeitas em algum lugar paradisíaco, com os melhores atletas do mundo, premiações cada vez mais polpudas e todo esse show transmitido pela internet e com você assistindo no conforto da sua casa.
 
Mas, basta sair do seu lar e ir à praia para constatar que a realidade é mais dura. O crowd está insuportável e a disputa cada vez mais acirrada, não sobra onda. As sessões de surf se tornaram baterias da vida real. Ninguém quer perder uma onda, por isso remam como se fosse a última de suas vidas. O respeito e a cordialidade deram lugar à ignorância e à prepotência. A prioridade da vez é medida pelo nível de surf do individuo e não pelo correto e o bom senso.
 
O surf competição ajudou na formação de ídolos e no crescimento da indústria surfwear, e com isso todo garoto quer ser igual ao seu herói, que, na maioria das vezes, nem é brasileiro porque ele não quer ser o Fábio Gouveia ou o Peterson Rosa; ele quer se o Taj Burrow ou o Mick Fanning.
 
Como se não bastasse, ele também quer se vestir bem, por isso compra roupas da Billabong, Quiksilver, Rip Curl... Ou seja, ir à praia tornou-se um desfile de moda. Ligamos a TV e o surf está lá no horário nobre, na novela das sete. O surf da audiência é hype, é cool. Nossa imagem é vendida e quem ganha com isso é a Rede BOBO.
 
Não consigo imaginar um surfista feliz com sua imagem associada a um personagem como Eros, que mais parece um idiota conversando com uma prancha que tem nome e que está com ele há cinco anos sem envelhecer e nem amarelar. Pior ainda são os dois cabeludinhos que o professor pergunta onde fica “tal lugar” e eles perguntam se nesse lugar dá onda, porque se não der onda, eles não têm obrigação de saber.
 
Estão lutando para o surf se tornar esporte olímpico. Agora, eu pergunto: o que o surf vai ganhar com isso? O badminton (quem não sabe o que é, consulta o oráculo vulgo Google), esqui aquático e hóquei na grama são esportes olímpicos. Sem falar que o surf tem um agravante que é a questão do mar.
 
Muitos argumentam que a construção de piscinas de ondas artificiais resolveria esse agravante. Mas, raciocinem comigo, se fosse fácil assim construir tais obras, por que ainda não construíram? Digo ondas de verdade e não marolas que existem por aí.
 
E outra: piscinas seriam o futuro do surf, dizem alguns profetas, mas seria para todos ou para uma minoria elitista e abastada? Iremos criar mais um tipo de exclusão social? Bons tempos deveriam ser aqueles na época em que o surf era uma atividade marginalizada pela sociedade, pois só era surfista quem tinha amor pelas ondas e pelo mar; vagabundos invejados por ter um estilo que todos gostariam de ter.
 
Quem diria que o estereótipo do surfista largado, cabelo loiro queimado do sol, pele bronzeada e camisa florida iria se tornar ícone fashion da moda? Surf como estilo de vida acabou se tornando o clichê do século XXI. Todos querem ser surfista, mas será que todos podem ser realmente um surfista? É a pergunta que eu me faço...

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