A vitória e o campeão

Derô José fala sobre o sentido da palavra campeão


Sei que o título sugere que escreva aqui sobre algum campeão: mundial, brasileiro, estadual... Mas não é minha idéia aqui neste momento.

Liguemos a palavra “campeão” a vencedor de competição ou algo semelhante. Segundo o dicionário Larousse, campeão é “aquele que, numa competição esportiva, venceu todos os oponentes e conquistou o primeiro lugar”.

Não sei muito como é ser competitivo, pois corri poucos campeonatos, venci muito pouco em baterias, não tive talento de ser um surfista competidor e um bom surfista. Ser campeão no surf para ainda é uma coisa muito distante para a minha pessoa.
 
Mas, o que é ser campeão? Para quem tem o espírito competitivo é, com certeza, a definição escrita acima. Tivemos recentemente a maior competição esportiva do mundo, as Olimpíadas, e vi dois lados de vitórias e perdas.

Muitos atletas brasileiros se sentiam campeões só por estarem no evento do outro lado do mundo, ainda mais por causa das situações precárias em que treinam. A outra foi o segundo colocado no vôlei de praia, o brasileiro, dizendo que a prata e nada são a mesma coisa no Brasil, não vale nada.

Analisando friamente, os dois têm razão em se tratando de esportes que não sejam o surf. Vou dar exemplo de pessoas que considero campeãs. De repente, eles mesmos podem discordar da minha pessoa por terem em sua natureza o espírito competitivo, o que não está errado, não. São suas profissões e vencer é uma delícia.

Uma vez, conversando de surf com Júnior Bohana, competidor na década de 90 e início de 2000, falávamos de que quando é o dia de ganhar, não tem jeito. Ele dizia que uma vez, quando dividia o quarto com Tampa (Flávio Costa) no Brasileiro Amador, se viu acordando na madruga com um cheiro insuportável de resina e viu Tampa consertando sua prancha envelhecida com a quilha quebrada para a competição no dia posterior.

Tampa já tinha feito duas finais consecutivas no Nordeste e fez mais essa final em Ubatuba (SP). Não ganhou em Maracaípe (PE) não sabe o porquê; talvez ainda fosse um desconhecido dos juízes nesse ano, ao contrário de Bernardo Pigmeu, que acabou vencendo a etapa.

O atleta teve uma rápida ascensão nesse ano de 2000 e quase foi campeão. Por falta de patrocínio, não disputou as duas primeiras etapas em Florianópolis (SC) e Torres (RS), perdendo a oportunidade de descartar seu pior resultado.

Na sexta e última etapa, disputada no Arpoador (RJ), precisava passar mais duas ou três baterias para garantir o título. Júnior Bohana narra este e outros episódios de Tampa no circuito brasileiro, dizendo que a galera não entendia nada: “De onde saiu essa tampa de pessoa quebrando todo mundo no surf, do nada?”, era o que perguntavam.

Quando chegava às finais, sempre rolava uma nota mais alta para os figurões da mídia. Era a primeira vez que o cara estava indo competir fora da Bahia e pronto, estourou. No ano seguinte, com duas pranchas e uma mochila de roupa, igual a muitos surfistas nordestinos, migrou para o Sudeste, mais precisamente para o Rio de Janeiro.

Correu o Brasil Tour, classificou-se ao SuperSurf e continua entre os tops do circuito. Teve ano que por pouco não levou o título brasileiro. Tampa tem alguns títulos ilheenses e outros aqui na Bahia. É, mas não estou aqui para falar de seus títulos, e sim de sua vitória na vida, pois ele é um campeão.

Quem o conhece sabe do que estou falando: ser nordestino e viver de surf não é pra qualquer um. Como é que Tampa não pode ser considerado um campeão?

Outro exemplo de campeão, principalmente em potencial, é Wilson Nora. Uma vez um idiota veio me dizer “É, o Wilson ta aí só surfando e ainda não vi o título”. A minha resposta para essa pessoa foi o que me motivou a escrever este artigo.

“Meu irmão, Wilson é um campeão. Você já foi ao Japão? Você já foi ao Tahiti? Já foi à Austrália? Pois é, ele já foi e vai”. O cara sai daqui de Ilhéus, é pago pra ir a esses lugares só para surfar... Meu irmão, o cara é um campeão, quem gosta de pegar onda sabe do que estou falando.

Eu que não sou, já que só surfei aqui em meu estado e conto no dedo as praias em que já surfei fora da Bahia e que, em vez de surfar todos os dias, tenho que ir trabalhar para poder comprar minha prancha e arriscar um surf no fim de semana, se tiver onda ainda.
 
De repente, para eles dois estou até falando merda e um título faz parte de suas vitórias pessoais, mas para mim, que não tive essa sorte ainda, a vida deles é uma vida de campeão, eles são vitoriosos. Sei que têm outros aí espalhados pelo Brasil que têm uma história parecida e são vitoriosos também.

O surf é uma coisa tão diferente, que ser campeão nesse esporte é uma coisa até relativa!

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