Lobo do mar
Tom Almeida escreve sobre Ronaldo Fadul, legend do surf baiano
Por: Tom Almeida
De repente, se você estiver na Bahia, na paradisíaca cidade surf de Itacaré e ouvir alguém bradar num genuíno sotaque baiano um “é o quê, meu fio?!”, possivelmente você está bem próximo de uma lenda viva do surf, o Ronaldo Fadul.
Clique aqui para ver as fotos
Fadul é um cara carismático, uma “figuraça”! Pitoresco, divertido, um cara original, imaginoso, falante, homem kaya, engraçado, vivo, um bom amigo, etc e tal.
Talvez as maneiras de classificar com simplismo a pessoa de Ronaldo Fadul sejam muitas, mas nenhuma delas tão importante como essa: Ronaldo Fadul é um surfista de alma!! Quando a gente pergunta ao Fadul, “tem onda Ronaldo?” a resposta é sempre “tá bom”, independente das condições do mar.
Na verdade, o tamanho das ondas importa para ele, mas, importa ainda mais o feeling de estar no mar, do contato com o oceano, com o sal. Aquela coisa de ficar olhando, olhando, decidindo se está bom ou não para cair, já foi deixada para trás há muito e muito tempo, pela convicção de que “é melhor estar na água do que fora”. Depois de remar, “na água todas as ponderações da vida parecem melhor”. Assim é Ronaldo!
Embaixador do surf de Itacaré - que eu saiba, Fadul foi o primeiro surfista da cidade grande, a capital Salvador, a largar tudo e ir morar em Itacaré. Esse largar tudo significou tudo e um pouco mais, desde a troca abrupta de valores de um adolescente vindo de uma família classe alta e tradicional baiana, a ter de quebrar os laços familiares para ver seu sonho realizado.
Com certeza muitas dificuldades marcaram o caminho de Fadul nessa trajetória. Diferente da Itacaré turística de hoje, nada era fácil na antiga Itacaré de difícil acesso e pouco progresso, mas nada o fez desistir de viver de perto seu sonho.
Quando uma pessoa transcende o mundo cotidiano e nega a cobrança totalitária, ela pode ser mal compreendida. Visto por aqueles voltados unicamente para os domínios de uma sociedade materialista, como um indivíduo esquisito, excêntrico.
Mas, então, reparamos em algo curioso que, claro, pode ser observado em todas as sociedades: aquele que vive tranqüilo e indiferente aos preconceitos e convenções sociais é o que realmente sabe viver. Quem tem sua própria filosofia de vida, livre dos padrões normais, sempre é incompreendido pela grande maioria.
Assim vejo alguns surfistas dessa nova geração de manobras voadoras não avaliarem a importância da figura de Ronaldo Fadul para o surf local. Muitos que ao terem o contato superficial com Fadul, vêem somente a figura de “um coroa do surf”, sem ao menos perceberem quanta bagagem, quantas lições e vinculação com o oceano irradiam dele, perdendo a oportunidade ímpar de aprenderem algo mais sobre soul surf diretamente de um “lobo do mar”!
Essa seria, talvez, uma forma verdadeira de batizá-lo, esse apelido junta nome e sobrenome a meu amigo Ronaldo Fadul. “Lobo do Mar” seria uma descrição afetuosa da mais adequada para ele.
Desde que me entendo por pessoa, sempre vi Fadul ligado ao mar, seja pescando em seu barco de madeira, varrendo toda a costa de Itacaré, Barra Grande e arredores em busca de camarões e peixes, seja em cima de sua prancha, o mar sempre foi para ele sua casa verdadeira.
Relembro ainda moleque, chegando pela primeira vez a Itacaré, idos de 1979, com meu primo falecido Big, uma frente fria trouxera grande storm à região Sul da Bahia. Ninguém se aventurava a cair naquele mar enorme e mexido. Ainda na época das monoquilhas, Itacaré justificava naquele dia literalmente seu apelido de “havaí baiano”; todos estávamos em cima do pedrão olhando o mar, quando de repente alguém gritou, olhamos na direção... Uma direita enorme vi-nha lá da praia do Costa em direção à Tiririca.
Vimos então um cara de cabelos longos e louros descer a onda reto até a base, com um estilo clássico, cavar bem agachado e colocar no trilho arqueando o corpo, para ser coberto pelo lip massudo e sair do tubo na espuma branca lá na frente com os braços erguidos para cima, tal qual um regente de orquestra comandando o surf por aquelas bandas do extremo sul baiano.
Assim, com essa imagem, fui apresentado à pessoa de Ronaldo Fadul, e este filme real ficou vivo na minha mente para sempre. Segundo Abraham Maslow, em sua “hierarquia de necessidades” o homem é um ser indigente, expondo que suas necessidades humanas estão organizadas numa série de níveis.
Níveis segundo importâncias produzidas por “ele” próprio. O surf sempre foi uma necessidade de auto realização, de extrema importância e imperativo para Ronaldo Fadul.
Neste mundo do dinheiro e do êxito, pessoas que “largam tudo” para viver seu sonho perto da natureza, recebem da família e dos outros, no mínimo, o estigma de esquisito ou de louco. Penso que, muitas vezes isso não foi diferente com Ronaldo.
Mas de mim e de tantos outros que acompanharam essa sua trajetória ele sempre recebeu admiração, respeito, estima. Foi e sempre será Ronaldão, um dos melhores surfistas e um autêntico surfista na alma, na sua época um dos melhores surfistas da Bahia.
Vendo-o cavar sempre com a mão na água e desenhar linhas redondas até seu artístico round-house cutback, executado com maestria e perfeição. Muitas vezes fiquei a admirar o surf de Fadul e aprendi muito com sua linha clássica. Fora da água, seu entusiasmo de vida é contagiante. Foi com esse mesmo entusiasmo que Ronaldo criou seus filhos em Itacaré e uniu toda sua família no amor do mar.
Seu filho mais velho, Dani Fadul, herdou do pai o surf no pé e a paixão pelo mar. Hoje é um expoente do surf de Itacaré e shaper local, mas acho que nem mesmo ele sabe mensurar a real importância de Ronaldo para o surf local.
Naqueles tempos de incompatibilidade, quando os surfistas eram vistos como marginais e drogados, tudo era diferente, e cada viagem era a verdadeira busca de um sonho perdido. Depois de descoberto como potencial do surf baiano, os primeiros surfistas de Salvador iam e vinham a Itacaré.
Ronaldo foi um desses pioneiros, que chegou ao paraíso e nunca mais voltou, sendo o primeiro surfista a se radicar em Itacaré, inspirando os surfistas locais, ajudando o surf de Itacaré a nascer e tornando-o o pólo turístico que hoje é sua realidade. Na verdade a Itacaré que vemos hoje, com surfistas vindo de toda parte do Brasil e do mundo, deve muito à figura de Ronaldo Fadul na sua imagem de Meca do surf e city tour paradisíaca.
Algumas pessoas têm alguns momentos de sua vida ligados ao mar. Fadul tem o mar entranhado visceralmente em sua vida, como pescador na retribuição material e como surfista na recompensa espiritual das coisas.
Depois de eu levar muito tempo fora do país morando na Califórnia, há alguns anos tive a oportunidade de trabalhar em Itacaré e, reascendemos, eu e Ronaldo, a amizade de ligação no surf que sempre existiu entre nós, que estava apenas suspensa na prateleira do tempo diferente de cada um.
Numa de suas vindas a Salvador, Ronaldo passou uns dias em minha casa e juntos com amigos em comum, Leo, Claudinha, Flávio, minha esposa e filha, tivemos uma sessão memorável de surf, com ondas perfeitas e fotos alucinantes. Tive a oportunidade, então, para olhar com mais cuidado o surf de Ronaldão. E vi que, não importa a idade, ele continua o mesmo garoto de antes, tirando onda e surfando com estilo e beleza, tanto no pranchão como na pranchinha. Para alguns o surf é só uma manobra radical, para outros é uma viagem transcendente, um casamento cósmico sem divórcio, interminável.
Foi só então que percebi que tinha de escrever sobre essa lenda viva, e que, fazendo isso, estaria homenageando a intimidade de todo surfista de alma, de todos aqueles que largam tudo na busca do sonho da onda perfeita, que não ficam atrelados a conceitos e padrões sociais e que vencem tudo para estarem mais perto do mar.
Escrevendo sobre Fadul eu estaria falando também de você, de mim, e de todos aqueles surfistas que sabem que amar o mar e viver no contato da natureza é um privilégio imensurável.
Sabe, certas pessoas têm a mentalidade do “eu surfo pra caralho!”. Surfam para tirar onda, por status, para serem vistos, surfam muito preocupados com performance. Outros, olham o mar e as ondas de uma forma diferente, surfam por paixão, condensados numa energia tão potente que, no dia em que partirem, suas almas ainda serão de surfistas e continuarão surfando em alguma outra dimensão. Tenho a certeza que meu amigo Ronaldo Fadul é uma dessas almas.
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Fadul é um cara carismático, uma “figuraça”! Pitoresco, divertido, um cara original, imaginoso, falante, homem kaya, engraçado, vivo, um bom amigo, etc e tal.
Talvez as maneiras de classificar com simplismo a pessoa de Ronaldo Fadul sejam muitas, mas nenhuma delas tão importante como essa: Ronaldo Fadul é um surfista de alma!! Quando a gente pergunta ao Fadul, “tem onda Ronaldo?” a resposta é sempre “tá bom”, independente das condições do mar.
Na verdade, o tamanho das ondas importa para ele, mas, importa ainda mais o feeling de estar no mar, do contato com o oceano, com o sal. Aquela coisa de ficar olhando, olhando, decidindo se está bom ou não para cair, já foi deixada para trás há muito e muito tempo, pela convicção de que “é melhor estar na água do que fora”. Depois de remar, “na água todas as ponderações da vida parecem melhor”. Assim é Ronaldo!
Embaixador do surf de Itacaré - que eu saiba, Fadul foi o primeiro surfista da cidade grande, a capital Salvador, a largar tudo e ir morar em Itacaré. Esse largar tudo significou tudo e um pouco mais, desde a troca abrupta de valores de um adolescente vindo de uma família classe alta e tradicional baiana, a ter de quebrar os laços familiares para ver seu sonho realizado.
Com certeza muitas dificuldades marcaram o caminho de Fadul nessa trajetória. Diferente da Itacaré turística de hoje, nada era fácil na antiga Itacaré de difícil acesso e pouco progresso, mas nada o fez desistir de viver de perto seu sonho.
Quando uma pessoa transcende o mundo cotidiano e nega a cobrança totalitária, ela pode ser mal compreendida. Visto por aqueles voltados unicamente para os domínios de uma sociedade materialista, como um indivíduo esquisito, excêntrico.
Mas, então, reparamos em algo curioso que, claro, pode ser observado em todas as sociedades: aquele que vive tranqüilo e indiferente aos preconceitos e convenções sociais é o que realmente sabe viver. Quem tem sua própria filosofia de vida, livre dos padrões normais, sempre é incompreendido pela grande maioria.
Assim vejo alguns surfistas dessa nova geração de manobras voadoras não avaliarem a importância da figura de Ronaldo Fadul para o surf local. Muitos que ao terem o contato superficial com Fadul, vêem somente a figura de “um coroa do surf”, sem ao menos perceberem quanta bagagem, quantas lições e vinculação com o oceano irradiam dele, perdendo a oportunidade ímpar de aprenderem algo mais sobre soul surf diretamente de um “lobo do mar”!
Essa seria, talvez, uma forma verdadeira de batizá-lo, esse apelido junta nome e sobrenome a meu amigo Ronaldo Fadul. “Lobo do Mar” seria uma descrição afetuosa da mais adequada para ele.
Desde que me entendo por pessoa, sempre vi Fadul ligado ao mar, seja pescando em seu barco de madeira, varrendo toda a costa de Itacaré, Barra Grande e arredores em busca de camarões e peixes, seja em cima de sua prancha, o mar sempre foi para ele sua casa verdadeira.
Relembro ainda moleque, chegando pela primeira vez a Itacaré, idos de 1979, com meu primo falecido Big, uma frente fria trouxera grande storm à região Sul da Bahia. Ninguém se aventurava a cair naquele mar enorme e mexido. Ainda na época das monoquilhas, Itacaré justificava naquele dia literalmente seu apelido de “havaí baiano”; todos estávamos em cima do pedrão olhando o mar, quando de repente alguém gritou, olhamos na direção... Uma direita enorme vi-nha lá da praia do Costa em direção à Tiririca.
Vimos então um cara de cabelos longos e louros descer a onda reto até a base, com um estilo clássico, cavar bem agachado e colocar no trilho arqueando o corpo, para ser coberto pelo lip massudo e sair do tubo na espuma branca lá na frente com os braços erguidos para cima, tal qual um regente de orquestra comandando o surf por aquelas bandas do extremo sul baiano.
Assim, com essa imagem, fui apresentado à pessoa de Ronaldo Fadul, e este filme real ficou vivo na minha mente para sempre. Segundo Abraham Maslow, em sua “hierarquia de necessidades” o homem é um ser indigente, expondo que suas necessidades humanas estão organizadas numa série de níveis.
Níveis segundo importâncias produzidas por “ele” próprio. O surf sempre foi uma necessidade de auto realização, de extrema importância e imperativo para Ronaldo Fadul.
Neste mundo do dinheiro e do êxito, pessoas que “largam tudo” para viver seu sonho perto da natureza, recebem da família e dos outros, no mínimo, o estigma de esquisito ou de louco. Penso que, muitas vezes isso não foi diferente com Ronaldo.
Mas de mim e de tantos outros que acompanharam essa sua trajetória ele sempre recebeu admiração, respeito, estima. Foi e sempre será Ronaldão, um dos melhores surfistas e um autêntico surfista na alma, na sua época um dos melhores surfistas da Bahia.
Vendo-o cavar sempre com a mão na água e desenhar linhas redondas até seu artístico round-house cutback, executado com maestria e perfeição. Muitas vezes fiquei a admirar o surf de Fadul e aprendi muito com sua linha clássica. Fora da água, seu entusiasmo de vida é contagiante. Foi com esse mesmo entusiasmo que Ronaldo criou seus filhos em Itacaré e uniu toda sua família no amor do mar.
Seu filho mais velho, Dani Fadul, herdou do pai o surf no pé e a paixão pelo mar. Hoje é um expoente do surf de Itacaré e shaper local, mas acho que nem mesmo ele sabe mensurar a real importância de Ronaldo para o surf local.
Naqueles tempos de incompatibilidade, quando os surfistas eram vistos como marginais e drogados, tudo era diferente, e cada viagem era a verdadeira busca de um sonho perdido. Depois de descoberto como potencial do surf baiano, os primeiros surfistas de Salvador iam e vinham a Itacaré.
Ronaldo foi um desses pioneiros, que chegou ao paraíso e nunca mais voltou, sendo o primeiro surfista a se radicar em Itacaré, inspirando os surfistas locais, ajudando o surf de Itacaré a nascer e tornando-o o pólo turístico que hoje é sua realidade. Na verdade a Itacaré que vemos hoje, com surfistas vindo de toda parte do Brasil e do mundo, deve muito à figura de Ronaldo Fadul na sua imagem de Meca do surf e city tour paradisíaca.
Algumas pessoas têm alguns momentos de sua vida ligados ao mar. Fadul tem o mar entranhado visceralmente em sua vida, como pescador na retribuição material e como surfista na recompensa espiritual das coisas.
Depois de eu levar muito tempo fora do país morando na Califórnia, há alguns anos tive a oportunidade de trabalhar em Itacaré e, reascendemos, eu e Ronaldo, a amizade de ligação no surf que sempre existiu entre nós, que estava apenas suspensa na prateleira do tempo diferente de cada um.
Numa de suas vindas a Salvador, Ronaldo passou uns dias em minha casa e juntos com amigos em comum, Leo, Claudinha, Flávio, minha esposa e filha, tivemos uma sessão memorável de surf, com ondas perfeitas e fotos alucinantes. Tive a oportunidade, então, para olhar com mais cuidado o surf de Ronaldão. E vi que, não importa a idade, ele continua o mesmo garoto de antes, tirando onda e surfando com estilo e beleza, tanto no pranchão como na pranchinha. Para alguns o surf é só uma manobra radical, para outros é uma viagem transcendente, um casamento cósmico sem divórcio, interminável.
Foi só então que percebi que tinha de escrever sobre essa lenda viva, e que, fazendo isso, estaria homenageando a intimidade de todo surfista de alma, de todos aqueles que largam tudo na busca do sonho da onda perfeita, que não ficam atrelados a conceitos e padrões sociais e que vencem tudo para estarem mais perto do mar.
Escrevendo sobre Fadul eu estaria falando também de você, de mim, e de todos aqueles surfistas que sabem que amar o mar e viver no contato da natureza é um privilégio imensurável.
Sabe, certas pessoas têm a mentalidade do “eu surfo pra caralho!”. Surfam para tirar onda, por status, para serem vistos, surfam muito preocupados com performance. Outros, olham o mar e as ondas de uma forma diferente, surfam por paixão, condensados numa energia tão potente que, no dia em que partirem, suas almas ainda serão de surfistas e continuarão surfando em alguma outra dimensão. Tenho a certeza que meu amigo Ronaldo Fadul é uma dessas almas.
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