Saudades de um guerreiro
Fabrício Fernandes homenageia amigo Carl Kiko, vítima do câncer há dois anos
Por: Fabrício Fernandes
O sol começava a surgir colorindo o horizonte derramando lágrimas alaranjadas nas calmas águas do oceano.
Enquanto admirava esse belo cenário, ouvindo "Knocking On Heaven´s Door" na voz de Axel Roses, visualizei o transatlântico que imponente flutuava sobre as águas salgadas.
Águas estas que dão sentido a tantas vidas. Vidas como a minha e a do guerreiro Carl...
Há apenas dois dias o meu amigo havia partido, e as lágrimas que rolavam sobre a minha face eram apenas a parte externa de uma estranha melancolia.
Carl Scherer, Kiko, “Kaus Muller”; tão cheio de nomes, mas um único indivíduo querido por todos em função das suas virtudes.
Carl sempre foi um guerreiro. Depois que descobriu o seu câncer (leucemia), lutou bravamente contra a doença, sempre com seu jeito moleque, descolado e alegre.
Nunca, mesmo nos dias mais difíceis, cheguei a vê-lo sem um sorriso esboçado no rosto. Sempre que chegava ao mar agradecia a Deus por cada onda, por cada minuto; por fazer parte daquele ecossistema fantástico.
A sua interação como o mar, a sua paixão pelo oceano era contagiante! Mergulhador – surfista, seguia a risca a “Letra A” do mágico Nando Reis: - A gente que enfrenta o mal, quando a gente fica em frente ao mar, a gente se sente melhor!
Kiko surfava no limite e, mesmo com a doença, havia chegado em 2006 em 14º na categoria Master. E no ano passado lutava para ficar entre os dez primeiros. Já estava em 12º! Quem o conhecia sabe que ele chegaria lá!
Carl era pura raça, com tanta força de vontade e otimismo que programava as suas quimioterapias entre uma competição e outra. Cheguei a vê-lo voltar de ônibus depois de uma sessão. E ainda estava sorrindo!
Nos seus últimos dias tive a sorte de conviver intensamente com ele e extrair um pouco mais do seu maravilhoso exemplo de luta pela vida. Muitos momentos me marcaram, e nesta hora de saudades, e não de tristeza, eles passam como um flash...
A sua garra nas duras batalhas da vida, seu jeito brincalhão enquanto surfava, querendo colocar todo mundo “no bolso”, sua carreira de modelo (Fiorucci, Phillip Martin), as estórias de pescador; de como o yôga havia mudado sua vida, seus conceitos e tantas outras...
Kiko vendeu minha primeira prancha importada (uma Gary Linden), minha primeira camisa de lycra... boas lembranças... Mas acho que de todas as lições que ele deixou, três me marcaram.
Primeiro, quando dentro d´água, sorrindo, me contava da alegria do nascimento do seu filho Rafael. De como ele e a também guerreira Andréa (sua esposa e grande amiga) estavam radiantes!
A segunda e a terceira talvez tenham sido as mais marcantes... Quando, na chuva, há uns dois meses, eu corria preocupado com o destino da minha carreira profissional e ele passou de carro com Andréa após uma sessão de Quimioterapia, quando os cabelos começaram a cair e ele resolveu raspar dizendo que estava igual ao Kelly Slater. A chuva teve um novo sabor naquele momento... Que lição!
E, finalmente, o momento mágico. Fim de tarde na escada quebrada, altas ondas, o mar só nosso.
Estranhamente comentei com a minha namorada que não surfei, apenas fiquei sentado admirando aquele ser humano fantástico que com 39 anos surfava como um garoto e fazia desse esporte, dos amigos e da família, as razões de viver.
Dropei apenas duas ondas, enquanto ele, com mais de vinte, me colocava no "bolso". Saí feliz e melancólico...
Menos de duas semanas depois Kiko faleceu. Mas, como sempre, sem reclamar, e o mais importante, viveu feliz até o seu último minuto.
Acho que por isso ele foi tão rápido. Deus jamais permitiria que um espírito que soube tão bravamente driblar as provas da vida, e que era tão apaixonado pela natureza, definhasse em uma cama.
Carl partiu sem dor, sem sofrimento e hoje surfa no Éden! Cada mar, cada onda que surfo é uma reverência a esse grande homem com quem muito aprendi e que muitas lições deixou para todos que com ele conviveram.
*Carl, você pediu para que eu escrevesse o texto de sua vida e que fosse sem drama, para as pessoas darem risada. Não sei se consegui. Mesmo porque, ainda é muito cedo devido à dor da distância. Mas a sua luta, sua vontade de viver, otimismo e esperança vão estar para sempre na memória de todos.
Agora, me dê licença, porque tenho que treinar para quando chegar aí você não me colocar no "bolso".
Aloha, Klaus Muller. Fique com Deus, fique em paz, até breve e uma salva de palmas para você!!!
Enquanto admirava esse belo cenário, ouvindo "Knocking On Heaven´s Door" na voz de Axel Roses, visualizei o transatlântico que imponente flutuava sobre as águas salgadas.
Águas estas que dão sentido a tantas vidas. Vidas como a minha e a do guerreiro Carl...
Há apenas dois dias o meu amigo havia partido, e as lágrimas que rolavam sobre a minha face eram apenas a parte externa de uma estranha melancolia.
Carl Scherer, Kiko, “Kaus Muller”; tão cheio de nomes, mas um único indivíduo querido por todos em função das suas virtudes.
Carl sempre foi um guerreiro. Depois que descobriu o seu câncer (leucemia), lutou bravamente contra a doença, sempre com seu jeito moleque, descolado e alegre.
Nunca, mesmo nos dias mais difíceis, cheguei a vê-lo sem um sorriso esboçado no rosto. Sempre que chegava ao mar agradecia a Deus por cada onda, por cada minuto; por fazer parte daquele ecossistema fantástico.
A sua interação como o mar, a sua paixão pelo oceano era contagiante! Mergulhador – surfista, seguia a risca a “Letra A” do mágico Nando Reis: - A gente que enfrenta o mal, quando a gente fica em frente ao mar, a gente se sente melhor!
Kiko surfava no limite e, mesmo com a doença, havia chegado em 2006 em 14º na categoria Master. E no ano passado lutava para ficar entre os dez primeiros. Já estava em 12º! Quem o conhecia sabe que ele chegaria lá!
Carl era pura raça, com tanta força de vontade e otimismo que programava as suas quimioterapias entre uma competição e outra. Cheguei a vê-lo voltar de ônibus depois de uma sessão. E ainda estava sorrindo!
Nos seus últimos dias tive a sorte de conviver intensamente com ele e extrair um pouco mais do seu maravilhoso exemplo de luta pela vida. Muitos momentos me marcaram, e nesta hora de saudades, e não de tristeza, eles passam como um flash...
A sua garra nas duras batalhas da vida, seu jeito brincalhão enquanto surfava, querendo colocar todo mundo “no bolso”, sua carreira de modelo (Fiorucci, Phillip Martin), as estórias de pescador; de como o yôga havia mudado sua vida, seus conceitos e tantas outras...
Kiko vendeu minha primeira prancha importada (uma Gary Linden), minha primeira camisa de lycra... boas lembranças... Mas acho que de todas as lições que ele deixou, três me marcaram.
Primeiro, quando dentro d´água, sorrindo, me contava da alegria do nascimento do seu filho Rafael. De como ele e a também guerreira Andréa (sua esposa e grande amiga) estavam radiantes!
A segunda e a terceira talvez tenham sido as mais marcantes... Quando, na chuva, há uns dois meses, eu corria preocupado com o destino da minha carreira profissional e ele passou de carro com Andréa após uma sessão de Quimioterapia, quando os cabelos começaram a cair e ele resolveu raspar dizendo que estava igual ao Kelly Slater. A chuva teve um novo sabor naquele momento... Que lição!
E, finalmente, o momento mágico. Fim de tarde na escada quebrada, altas ondas, o mar só nosso.
Estranhamente comentei com a minha namorada que não surfei, apenas fiquei sentado admirando aquele ser humano fantástico que com 39 anos surfava como um garoto e fazia desse esporte, dos amigos e da família, as razões de viver.
Dropei apenas duas ondas, enquanto ele, com mais de vinte, me colocava no "bolso". Saí feliz e melancólico...
Menos de duas semanas depois Kiko faleceu. Mas, como sempre, sem reclamar, e o mais importante, viveu feliz até o seu último minuto.
Acho que por isso ele foi tão rápido. Deus jamais permitiria que um espírito que soube tão bravamente driblar as provas da vida, e que era tão apaixonado pela natureza, definhasse em uma cama.
Carl partiu sem dor, sem sofrimento e hoje surfa no Éden! Cada mar, cada onda que surfo é uma reverência a esse grande homem com quem muito aprendi e que muitas lições deixou para todos que com ele conviveram.
*Carl, você pediu para que eu escrevesse o texto de sua vida e que fosse sem drama, para as pessoas darem risada. Não sei se consegui. Mesmo porque, ainda é muito cedo devido à dor da distância. Mas a sua luta, sua vontade de viver, otimismo e esperança vão estar para sempre na memória de todos.
Agora, me dê licença, porque tenho que treinar para quando chegar aí você não me colocar no "bolso".
Aloha, Klaus Muller. Fique com Deus, fique em paz, até breve e uma salva de palmas para você!!!
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