Surf de cara limpa

Fabrício Fernandes combate uso de álcool e drogas


Muito antes de começar a surfar, já havia começado a beber. Aos 15 anos, entornava tudo o que tivesse cheiro de álcool junto com meus amigos.

Tudo passava a ser desculpa para “tomar uma”. Na onda do Barão Vermelho, mais uma dose? É claro que eu to afim... Começava a traçar um caminho de muita dor e loucura.

Até os 21 anos, foram seis anos de muito sofrimento mesmo. Não só para mim, como para meus pais, irmãos e amigos. Não conhecia limites e queria ser como o Jim Morrison; quem sabe também não teria a honra de morrer aos 27?

Bebia todos os dias até cair e vomitar. Fumava também um Carlton atrás do outro. Duas, três carteiras em uma noitada. Queria cada vez ficar mais louco, mais fora da realidade.

Alguém lá em cima deve gostar muito de mim, porque até hoje me pergunto como não morri. Chegava em casa e não lembrava como isso tinha acontecido. Morava no Itaigara e muitas vezes ia para as noites no Padang Padang, em Stella Maris (25 quilômetros de distância), e tinha voltado dirigindo!

Joguei no lixo duas faculdades que meus pais pagaram com muito custo, perdi inúmeras possibilidades de namoro e, depois que comecei a surfar (minha grande paixão!), atrasei meu surf em anos por causa das bebedeiras e ressacas arrasadoras!

Quebrei o pé duas vezes, perdi a noção de quantos vexames dei, e os belos apelidos não traziam nada de glória. Faálcoolbricio, Álcoolman (referência à música Iron Man, de Ozzy). Era final dos anos 80, quando Gugu, um carioca gente fina que nunca mais vi, foi me chamar para surfar dizendo que o Espigão (pico de esquerdas em Ilhéus, de onde sou) tava quebrando altas.

Como eu podia ir se nem agüentava levantar da cama com o corpo todo tremendo e uma ressaca violenta? O Gugu olhou nos meus olhos e disse que beber não era seu esporte predileto. Aquilo foi uma facada no coração. Como eu, que amava tanto o surf, trocava-o por álcool? Olhei-me no espelho e chorei muito, me sentindo um lixo!

Um ano depois, quase morri ao apagar no Rock in Rio 2, em pleno show de Carlos Santana, com um “coquetel molotov” de uísque, maconha e loló.

Foi aí que me olhei novamente no espelho e decidi, aos 21 anos, mudar de vida. Orgulho-me de dizer que não precisei de nenhum tratamento ou psicólogo (não que isso seja vergonha); simplesmente percebi que aquilo estava me afundando e dei a volta por cima.

Nunca gostei de maconha. Via meus amigos fumando, tossindo e até tentei fumar para não ficar excluído da turma (que falta de personalidade!), vinte, trinta vezes, mas era uma sensação esquisita, fome, sono, dor de cabeça, garganta ardendo.

Nesse meio tempo, percebi também meus amigos que surfavam comigo mudarem muito por causa da maconha. Começaram a perder ano no colégio, não mais penteavam ou cortavam os cabelos e a barbas, usando umas roupas estranhas, fazendo muita arruaça na rua. Alguns foram até presos e outros não tiveram tanta sorte e já não fazem parte desse mundo.

Achei estranho quando A.C, que era como um irmão, me ofereceu um teco da branca. Não quis e fiquei muito depressivo com aquilo. Hoje ele é um cara que até está bem de vida, mas é uma pessoa amargurada e que ninguém pode confiar.

M.M comeu o pão que o diabo amassou, vive entrando e saindo de clínicas de desintoxicação, já roubou pai e mãe para comprar pó, afundou dois casamentos e quase morre alcoolizado em duas batidas de carro. Às vezes o encontro bêbado e jogado em alguma calçada pelas ruas.

A.M cheirou durante horas seguidas, saiu com o carro a mais de 150 quilômetros por hora e foi para os braços da morte voando de um viaduto. N.O bebeu muito, estourou o carro no poste a 180 quilômetros por hora. Morreu na hora! M.P e C. idem!

J.J ficou tetraplégico também devido a formula mágica de maconha, pó e direção. L., com crises depressivas devido ao álcool e maconha, se jogou do sexto andar do seu prédio. Três horas antes ele conversava comigo em minha casa.

Diversos outros faleceram, estão em clínicas de tratamento ou ficaram completamente loucos e não dizem nada com nada. O que todos tínhamos em comum? Éramos adolescentes, achávamos que o mundo era nosso e todos éramos surfistas.

De todos, apenas eu, J. e C.N saímos da loucura. Há mais de quinze anos deixei para trás toda essa triste realidade e hoje me dedico a meias-maratonas, mountain bike, natação, pára-quedismo e, principalmente, surf.

Construí uma família, me formei e me pós-graduei, ensino em faculdades e me orgulho de poder dar o exemplo às novas gerações e levar uma imagem limpa para o esporte que tanto amo, o surf!

Não posso deixar de dizer que, ao terminar este texto, as lágrimas escorrem pela minha face por poder ainda estar aqui e desfrutar o dom mágico da vida, e pela tristeza de lembrar dos amigos que se foram tão futilmente!

É a eles que dedico este texto, principalmente a L., meu amigo e grande irmão, que Deus te tenha em um bom lugar.

“O álcool, cigarro e maconha matam mais do que todas as guerras”.

“Enquanto a maioria dos caras ficava fumando e tossindo, eu achava aquilo estranho e preferia surfar” - Robert Kelly Slater, octa (nona?) campeão mundial de surf.
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