Forte discussão

Yordan Bosco defende realização do WQS na praia do Forte


Esforcei-me muito até aqui para ser o mais imparcial possível, agir apenas com a razão e só mencionar este assunto quando as coisas estivessem em patamares mais concretos e a polêmica acabado.

Não quero e não vou deixar que minha face localista (inerente a todo surfista) se apóie no poder de jornalista especializado em surf, nem tampouco passar por cima das minhas origens e dos meus princípios, em prol do desenvolvimento do esporte que, para mim, além de diversão e paixão, rende o ganha-pão.

Fiquei calado depois de ouvir e de ler tantas baboseiras e comentários nefastos sobre o fato de um destino turístico e “surfístico” sediar uma etapa do World Qualifying Series (WQS), a divisão de acesso do surf mundial.

Vamos aos fatos: a mobilização em torno de uma competição desta natureza na praia do Forte, litoral norte baiano, gerou uma intensa guerrinha de vaidades entre surfistas que moram ou surfam por lá, e pessoas ligadas à organização do campeonato.

A competição já está agendada para junho, mas, pelo que se sabe, os produtores ainda estão tentando viabilizar patrocínios (bom, mas aí já é outra história). Antes de mais nada, me sinto extremamente à vontade para falar sobre este assunto.

Não apenas por participar e conhecer profundamente a estrutura do surf competição baiano e brasileiro há mais de dez anos, mas por ser nativo da praia do Forte (legítimo nativo), que nasceu, cresceu e, embora hoje more a 65 quilômetros do local, tem raízes, casa e parentes por lá.

Admira-me muito ver um monte de gente falando pela comunidade da praia do Forte. Pessoas que, apesar de surfarem lá quase todos os dias ou morarem nos condomínios de luxo aos redores da vila, não vivem o dia a dia dos moradores nativos e sequer deixam seus filhos se misturar a eles, salvo algumas exceções.

Durante os bombardeios de e-mails ofensivos, conversei bastante sobre o assunto com surfistas realmente “locais”, como Gargamel, Fabinho, Joaquim “Kiko” Cerqueira, Litinho, Buzinga, Aguimar, Robenygue, entre outros, e não senti na posição de nenhum deles compatibilidade com o discurso de repúdio, adotado pelos “donos” das ondas da praia do Forte.

Pelo contrário, a unanimidade achava bem vindo e só exigia uma participação efetiva da Associação de Surf da Praia do Forte (ASPF) no evento e que este trouxesse benefícios para o surf da região. 

Além do mais, a quem interessa um evento internacional de surf em uma comunidade turística como a da praia do Forte? Só aos surfistas desta comunidade, que podem aprender e evoluir tecnicamente com os tops ou serem prejudicados por ter que dividir suas ondas? E para os comerciantes, o poder público e esses mesmos surfistas, enquanto cidadãos?

Será que a possibilidade de faturar mais, incrementar a economia, atrair um novo filão de turistas e possibilitar às crianças e adolescentes conhecerem de perto alguns dos ídolos lhes causariam problemas? Partindo desse pressuposto, é nítida a falta de lógica nessa discussão.
 
Mas, se o problema for a invasão de surfistas estrangeiros e de outros estados após a divulgação do evento... pára com isso! Se estivéssemos falando dos secretos picos da Península de Maraú (Costa do Dendê), onde pouca gente já chegou, ou da preservada e de difícil acesso praia do Santo Antônio (litoral norte), faria algum sentido.

Mas o argumento de não divulgar a já “celebridade” e insuportavelmente “crowdeada” bancada do Papagente, ou Catinguiba, só pode ser piada. Posso falar desta maneira porque aprendi a surfar nas ondas da praia do Forte, por volta de 1985, e já vi o local passar por vários estágios de “invasões”.

Hoje, infelizmente, o comportamento mal educado e truculento de alguns surfistas (moradores e visitantes) e a quantidade insuportável de pessoas no pico, principalmente nos fins de semana e feriados, tornam cada vez mais escassos as sessões de surf prazerosas no local.

E para mim, surfar sob estresse, assistindo discussões e briguinhas, não vale a pena, mesmo em condições perfeitas. No mais, quem busca harmonia tem que procurar outras bancadas da região, quando quebram, ou então partir para os fundos de areia de outras praias mais ao norte, como Imbassaí.

O outro argumento é que um evento mundial de surf degradaria ambientalmente o local, devido à quantidade de pessoas andando sobre os corais. Já assisti a eventos de surf do Ceará ao litoral catarinense e acompanho o circuito mundial pela imprensa há mais de 20 anos, e essa história de surf causar danos ao meio ambiente pra mim é uma novidade surpreendente.

E o mais curioso é que o majestoso coqueiral do Papa Gente está com os dias contados. Muito em breve, será levantado um condomínio de luxo, com cerca de 70 casas no local. Mas para impedir essa atrocidade ecológica, nenhum desses “defensores da natureza” se manifestou, assim como também não o fizera para impedir a destruição de um monte de outras áreas verdes da praia do Forte, nos últimos anos.

Aliás, não será de se estranhar se alguns deles até celebrarem o empreendimento imobiliário e pagarem para ter uma das imponentes mansões. Afinal, nada mais confortável para um surfista do que acordar todos os dias de frente para um point break internacional, principalmente se este não for muito freqüentado por visitantes que o conheceram através de um mundial de surf.

“Tem gente que é tão pobre, mas tão pobre, que só tem dinheiro” - Pedro de Lara, revista Trip, edição 160.

Yordan Bosco é jornalista e editor do jornal Taking Surf.
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