Inverno excepcional

Oceanógrafos analisam o intenso inverno de 2017 na capital baiana


A altura significativa média das ondas no mês de julho deste ano (2,3 m) foi 0,5 m maior que a altura significativa média do segundo maior registro, em julho de 2015. Foto: Fabriciano Júnior / Survive Photos.


O inverno deste ano de 2017 surpreendeu a todos. Apesar da nossa memória sobre situações meteorológicas passadas ser um tanto falha, acertou quem apostou ter sido este um inverno atipicamente severo. A execução de várias atividades de rotina, quer de lazer ou trabalho, foram frequentemente prejudicadas quer pelo vento, quer pela chuva, ou quer pelo que para o soteropolitano parecia ser um frio alpino. O percurso do ferry-boat teve que ser alterado várias vezes pelas condições adversas de mar. Pelo mesmo motivo a travessia para Salvador - Mar Grande foi interrompida várias vezes. A pesca costeira, dentro e fora da Baía de Todos os Santos, foi severamente afetada, com as embarcações de algumas colônias de pesca sendo retidas no porto por mais de um mês.

Registros de temperatura e chuva feitos pelo Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) na estação meteorológica de Ondina, registros de vento feitos pelo comando da Aeronáutica no aeroporto internacional de Salvador, e registros de ondas oceânicas feitos pela UFBA e o Projeto TAMAR próximo à Praia do Forte (4 km costa afora, profundidade de 30 m), indicam que passamos por um inverno mais frio, mais ventoso, com mar excepcionalmente agitado, mas não tão úmido como percebido.

Os gráficos abaixo mostram a variação temporal das anomalias de precipitação, velocidade do vento e temperatura do ar para os meses de junho, julho e agosto desde 1963. As anomalias foram calculadas subtraindo-se os registros do trimestre de inverno de cada ano da média climatológica, a qual corresponde ao valor médio entre 1986-2015 (30 anos) para a precipitação e temperatura, e ao valor médio dos últimos 20 anos (todo o registro) dos ventos. Valores negativos de anomalia indicam situações abaixo da média, e valores positivos situações acima da média.

Observa-se que o total acumulado de chuvas no inverno de 2017 foi um dos mais baixos no registro histórico, 175 mm a menos que a média climatológica. Já a velocidade média do vento para o trimestre foi a segunda maior velocidade registrada desde 1992. Porém, se considerarmos apenas os registros do mês de julho, registramos um recorde, com velocidade média do vento 5,4 km por hora superior à média dos últimos 20 anos.

Se considerarmos os registros de temperatura do mês de julho, passamos pelo inverno mais rigoroso dos últimos 49 anos, quando a temperatura média de 22,8 oC correspondeu a uma anomalia de -0,97 oC. A temperatura mínima registrada em Ondina foi de 17,6 oC no dia 30 de julho, a segunda menor temperatura mínima registrada desde 1963. Se por outro lado for considerada a média do trimestre junho-agosto (23,4 oC), este foi o segundo inverno mais rigoroso desde 1968, com anomalia de -0,56 oC.
 
A situação do mar, influenciada pelas condições de vento local e remota, foi a mais severa em quase 3 anos de observações, iniciadas em novembro de 2014. O gráfico mostra a distribuição estatística da distribuição mensal da altura significativa das ondas, com valores médios mensais da altura significativa (círculos), a mediana (traço vermelho), os limites de 50% da distribuição das alturas significativas (quadrado azul), o desvio padrão (traços pretos) e finalmente a altura máxima de onda observada em cada mês (linha roxa). Observa-se que a altura significativa média das ondas no mês de julho deste ano (2,3 m) foi 0,5 m maior que a altura significativa média do segundo maior registro, em julho de 2015. A altura máxima de uma onda individual no mês de julho de 2017 foi também a mais elevada nos registros, tendo alcançado 5,8 m.

A severidade do inverno em Salvador parece ter ocorrido ao longo de todo o litoral brasileiro, já que registros de erosão urbana pelas ondas e inundações costeiras foram relatadas em várias regiões, como por exemplo em Prado (BA), onde estado de emergência chegou a ser decretado pela prefeitura.

Guilherme Lessa1, Rafael Mariani2, André Brandão3 e Janini Pereira4

1,2,3,4 - Grupo de Oceanografia Tropical (GOAT); 1 – IGEO/UFBA, 2 – Mestrando em Oceanografia Física/UFBA, 3 – Graduando em Oceanografia/YFBA, 4- IFIS/UFBA.

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