Onde está o dinheiro?

Alexandre Piza faz uma reflexão sobre o modelo atual de negócios no mundo do surfe


Marco Fernandez, Manly Beach, Austrália. Foto: Lucas Palma / @skids.


É bem provável que este texto não valha nada daqui alguns dias ou meses, pois tudo está mudando tão rápido, que ter alguma visão assertiva de futuro passa a ser cada vez mais complicado. Mas, vamos lá...

O surf hoje vive um abismo: de um lado, o topo da pirâmide dos que rodam o mundo competindo em locações épicas (ou algo perto disso), surfam em piscinas cibernéticas, cheios de adesivos pela prancha, andam em carrões, contam com equipes de apoio nunca antes vistas no surf, estão sendo bem remunerados pelo que fazem e, claro, merecidamente estão nesse posto.

Vida fácil, estabilidade? Não, nem um pouco. Bastou perder a vaga no topo da pirâmide, e te dão um, talvez dois anos para tentar uma reclassificação. Caso você não consiga, tudo isso some do dia pra noite. Temos uma série de exemplos dos brasileiros que, quando perdem a vaga na elite, gradativamente vão perdendo os patrocinadores.

Hoje, e cada vez mais emergente, estão se juntando a esse grupo os “surfistas de mídia e redes sociais”. O grupo é formado por big riders ou free surfers fora de série que caíram nas graças da mídia e estão protagonizando um material de ponta de vídeos (foto praticamente já era) que tem dado grande retorno de visibilidade para as marcas.

Vira e mexe dão as caras em alguns campeonatos de aéreo ou de ondas gigantes, desfilam por aí com as “vestimentas conceito” (que a maioria acha até meio ridícula, mas, se está na moda, vamos usar, né?), e assim por diante. Estão nos canais de TV, nos sites de ponta, estão sendo impulsionados pelas mídias pagas nas redes sociais, atingiram uma grande legião de seguidores e estão dando um bom retorno.

Tente enumerar 50 surfistas brasileiros que estão nessa condição. Talvez até você consiga, mas é preciso estar bem por dentro de tudo o que está em voga no universo do esporte, para chegar a esse número, concorda?

Só um parênteses aqui sobre os sites de ponta: o “boom” da internet e a perda de espaço da mídia impressa fizeram com que batesse um desespero em alguns e abriu também uma oportunidade grande para que emergentes de toda a variação de qualidade entrassem no ramo.

O resultado é que muitos já se foram. Quem está firme e forte na rede dificilmente se apagará, pois também está trabalhando duro nas redes sociais e continua sempre na vanguarda com qualidade nas informações e notícias.

Bom, na base da pirâmide, temos o “limbo”. Muita gente boa se esbofeteando pra tentar escalar um árduo “himalaia”. Os que não têm condições de viajar atrás das competições ou de fazer trips em busca de imagens “diferentes” (épicas), ou mesmo quem não tem “aquele amigão” na produtora que faz o programa “tal” pro canal “tal”, ou então não seja um ET no lugar certo, na hora certa, provavelmente não chegará a lugar algum.

Retrocedemos, ao invés de evoluir. Na década de 70 pra baixo também era assim, mas vínhamos numa crescente (o surf ainda era muito novidade), principalmente devido aos canais de mídia usados na época, a necessidade da liberdade de expressão e onde o surfista e as competições de todos os tipos e tamanhos eram a maior vitrine para as marcas. Claro, junto com as revistas de surf que foram pipocando pelos quatro cantos do mundo. O romantismo e o capitalismo firmaram um namoro duradouro em nosso esporte.

No meio da pirâmide, temos uma galera nem lá, nem cá. Os sedentos no QS que, mesclando apoio familiar com suporte de algumas marcas, ainda conseguem se virar como nas antigas. Economiza aqui, economiza ali, e vira e mexe algum desses “espermatozóides” fora de série vingam e rompem a barreira da “elite”.

Bom, isso todos (teoricamente) sabem. Mas, e as empresas, o que elas querem disso tudo? Amigo, entenda, outra coisa que diminuiu (praticamente inexiste) é o “empresário romântico”. Hoje é ilusão achar que o empresário colocará dinheiro onde ele (e os indicadores mostrem) que ele não terá retorno.

Com a solidificação do surf em termos mercadológicos, o namoro entre o amor e o dinheiro foi quebrado praticamente pra todos. Quase nenhum empresário hoje apoia o surf por amor ao esporte. Uma pena, mas é verdade.

Vejo muita gente esbravejando por aí dizendo que o empresário de surf deveria investir mais no patrocínio de atletas, etc. Mas, efetivamente, ninguém apresenta um estudo dizendo que se ele investir, ele vai ganhar mais. Aliás, o empresário hoje já sabe direitinho onde, quando e como ganhar dinheiro. Sinto muito dizer isso, mas ele descobriu que não precisa patrocinar uma legião de surfistas ou fazer um super circuito para obter retorno sobre investimento. Hoje, meu amigo, o canal é o e-commerce.

Claro, o atleta ainda faz parte disso, mas antes se ele apoiava e patrocinava uma super equipe, com atletas em todas as categorias. Ele escolhe um, talvez até três, que sejam bons competidores, tenham bastante seguidores nas redes sociais, vista-se bem, fale bem, saiba se virar em viagens, seja um cara que já vem mais pronto, que já esteja um pouco mais preparado.

Ou então aquele “emergente”, onde ele sinta o faro que tudo isso vem por aí, faz uma proposta com proporções mais singelas e aguarda a semente germinar. Exploração? Não, brother, isso é business.

Ora, indo mais pelo lado atual da estratégia do business, ele (empresário) já tem a marca consolidada há anos, está todo mundo debruçado nos smartphones, rolando a tela nas redes sociais sem parar, o sistema de logística está cada vez mais eficiente e os custos baixando, ele tem o fornecedor dos “panos” lá da China, a plataforma digital dele está bonitinha e redondinha, ele está vendendo com um custo de investimento muito mais baixo e você acha que ele vai investir muito em atleta e em pontos de venda (lojas próprias) para ter o retorno de vendas que ele precisa?

Os custos humanos e de estrutura física, hoje em dia, representam muito no investimento feito pelos empresários. As grandes empresas têm metas de redução de custos, otimização de recursos, aumento de lucros. A coisa está realmente mais inteligente. Mais cruel? Talvez, mas é a realidade.

Sim, você leu esses parágrafos acima e ficou “P” da vida, eu também fico, também sou um desses que acreditam que o “real espírito do surf é o surfista”, é experimentar a roupa na loja, e comprar a prancha na surfshop, e é mesmo. Mas, resumidamente falando, não é porque pratico Yoga que sou “obrigado” a ser vegetariano, ou mesmo obrigar quem não é a ser, entende?

O mundo está mudando (pra pior) e temos que ser realistas, não conformistas. Não adianta ficar chorando num canto, se está contra. Tem que fazer algo de produtivo para construir, não para destruir.

Lidar com gente é complicado, sempre foi. Lidar com surfista então, nem se fala, mais complicado ainda. Quem vive no dia-a-dia de bastidores sabe muito bem.

A ausência de competições, dos grandes circuitos regionais e nacionais, fez com que tudo implodisse ainda mais esse lado do surf. A internet “comeu” tudo isso. Se você tem ido a alguns campeonatos pequenos e médios, sabe a real. Tirando os surfistas competidores, os ainda “ponta-firme” empresários que investiram, os familiares e uma meia dúzia de curiosos, praticamente mais ninguém se interessa por campeonato de pequeno e médio porte.

Continua sendo bom para empresários que investem em projetos mais regionalizados, daquela loja e marca daquela cidade e estado, de uma distribuidora nova que está entrando na região, etc. Isso continua, sim, dando resultado, mas numa proporção menor. Aquelas ações de marketing gigantes que se viam nas praias em campeonatos médios e pequenos, não se vê mais. Não se distribui mais brindes nas areias, isso ficou caro. A internet engoliu até isso.

Hoje, muitas marcas incentivam (e patrocinam) os atletas muito mais a ter visibilidade na redes sociais, do que em competições. Como falei acima, o canal digital de vendas está coladinho com as redes sociais, na real, hoje, eles são uma coisa só.

Ou seja, o nome “atleta” também está sendo substituído por “digital influencer”. A expressão “surfar na internet” nunca foi tão real para nosso segmento. Que vença o melhor.

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